Com karatê estreando nos Jogos Olímpicos, multicampeã Valéria Kumizaki quer redenção em Tóquio aos 36

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Valeria Kumizaki (d) tem boa chance em Tóqui. Foto: Juan Mabromata/AFP via Getty Images
Valeria Kumizaki (d) tem boa chance em Tóqui. Foto: Juan Mabromata/AFP via Getty Images

A vida de Valéria Kumizaki é o karatê. A paulista de 36 anos (categoria até 55 kg) natural de Presidente Prudente (a 510 km da Capital) descreve sua escolha e lembra o quão difícil foi o começo na prática da modalidade de luta marcial estilo kumite (combate), situação que prossegue até hoje por causa dos efeitos sobre o mundo devido à pandemia de Covid-19. O esporte integra pela primeira vez o programa olímpico (a exemplo da escalada, beisebol/softbol, surfe e skate) e pode ser a última oportunidade porque não há indicações do Comitê Olímpico Internacional ter Jogos em Paris 2024 ou Los Angeles 2028.

Ao recordar sua jornada no esporte, ela conta que “tudo foi sem querer. Segui uma colega de escola e me matriculei em aulas. Tinha de 15 para 16 anos. Mas meu pai, que é japonês, foi contrário a presença nos combates”. O karatê é uma palavra japonesa que significa mãos vazias. Consiste em método de ataque e defesa pessoal com o uso de diversas técnicas e mãos desarmadas. Surgiu da luta indígena de Okinawa, influenciado pela arte de guerra chinesa.

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Segundo Valéria, o pai achava-a magrinha e levantou a hipótese de outro oponente poder “quebrá-la”. Ela perdeu a primeira luta, quando nem tinha faixa. Mas a derrota e a resistência paterna foram deixadas de lado, pois a família viu o brilho em seus olhos e acreditou nela, bancando muitas despesas para continuar a fortalecer o objetivo. Kumizaki não julgou a atitude inicial do pai como preconceito. Aliás, jogou futebol, esporte predileto do genitor.

Hoje, a moça tornou-se vencedora. É terceiro sargento do exército, recebe suporte com bolsas do governo federal e, de quebra, obtém patrocínio de marca oriental de temperos.

No entanto, acrescido ao talento vinha na esteira habilidades emocionais: o arrojo mostrando que Valéria não poupava esforços e rompia barreiras. Ela é do tipo que se atira com determinação em tudo que faz. Na infância, estudou espanhol. Também se formou em curso superior de Educação Física. E nas constantes viagens pelo mundo se deparou com a necessidade de dominar o inglês e promover bons relacionamentos. “Estudava inglês pela internet três horas diárias”, explica.

Já para conquistar mais de 16 títulos, sendo um bicampeonato pan-americano com dois ouros (Toronto-2015 e Lima-2019) e quatro pódios além de título mundial, teve de arcar com dívidas de vários cartões de crédito: “Hoje estão quitados”. Ela levanta a mão para o céu e dá graças ao senhor. No entanto, lista várias dificuldades: não dispunha de dojô (área para treino), teve de lixar tatame e sofreu baque ao perder o professor em 2014 vítima de acidente de carro. Além de recentemente ter ficado presa na Europa sem poder retornar ao Brasil ano passado como medida de fechamento de aeroportos por causa do coronavírus. E, ufa, sofreu uma inflamação dentária reflexo de tratamento anterior complicado.

Devota de Nossa Sra. Aparecida, quando esteve recentemente em Portugal para a disputa de torneio do circuito mundial passou pela cidade de Fátima, visitando o santuário mariano intitulado pela igreja Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Ela poderia ter até se tornado freira por influência da mãe e avó, mas nada tirava seu foco. Suas preces, porém, têm fortalecido a parte psicológica acima de tudo. Após superar lesão na coxa de grau dois, ela se sagrou campeã da etapa de Istambul (Turquia) da Premier League, circuito mundial da modalidade. O sucesso não valeu pontos para o ranking mundial. Existem diversos critérios para tentar a vaga olímpica (ranking europeu e das Américas). E o Pré-olímpico a partir de 11 de junho em Paris. Valéria se prepara ele treinando na Sérvia. Após o sucesso na Turquia, não teve bom desempenho em competição em Portugal. Ela pode também receber cartão-convite depois do pré-olímpico graças à conquista de pan-americano. “Neste caso é difícil complexo processo”, analisa.

Valeria Kumizaki tem boa chance em Tóqui. Foto: Juan Mabromata/AFP via Getty Images
Valeria Kumizaki tem boa chance em Tóqui. Foto: Juan Mabromata/AFP via Getty Images

Para ela, é “agora ou nunca, vou além dos 100%”. É chance única de atingir o ápice da carreira. Participar dos jogos e até a hipótese de conquistar medalha.

A pandemia tornou a vida dos karatecas um transtorno. Isto pelo fato da não realização de torneios, que somavam pontos ao ranking. E também a unificação de categorias para a olimpíada, reduzindo numero de vagas. Casos das de até 60 kg e até 67 kg Algo que foi feito também para atender exigências do programa do karatê para os Jogos de Tóquio. Serão 80 atletas competindo sendo 60 no estilo kumite e 20 no kata (exibição de movimentos). Neste último, os espanhóis são favoritos no masculino e feminino. Já no kumite, há destaques entre os europeus no masculino. Nas mulheres, fortes nomes são a Anzhelika Terliuga, a ucraniana de 28 anos está no topo do ranking até 55 kg. A campeã mundial de 2018, a sérvia Jovana Prekovic, e a rival chinesa Xiaoyan Yin. E acima de 61 kg a campeã mundial Irina Zaretska, do Azerbaijão.

Direto da Sérvia, onde treinava, Valéria concedeu entrevista por aplicativo de mensagens Whatsapp falando de várias ocorrências em 21 anos de carreira.

Yahoo Esportes – Qual o momento mais complicado no karatê?

Valéria Kumizaki – Tive muitas dificuldades neste esporte que amo. Cheguei a chorar por não ter dinheiro para competir. Mas a grande dor foi a perda do professor Renato Franco em acidente há sete anos em Pirapozinho cidade próxima onde nasci. Ele era visionário, me ensinou dignidade e honra dentro e fora do tatame. Pessoa incrível.

Yahoo Esportes – Após a perda do professor, você passou a encarar tudo sozinha, como é a preparação atualmente?

Valéria Kumizaki - Foi opção seguir em frente sem treinador. Trabalho com um preparador físico de Londrina, o ex-karateca Alberto Nishimura. Já treinei com gente do tae-kwon-do. Mas a comissão técnica me disponibilizou o trabalho de Nell Salgado. Ela é mental coach. Ajudou o fortalecimento interior.

Yahoo Esportes – Apesar de executar muita coisa só, você fez amizades e tem grandes relacionamentos, um em especial?

Valéria Kumizaki – Sim conheci no Cazaquistão a Jovana Prekovic e nos tornamos amigas até treinando. Mas tem alguém que faz parte da equipe brasileira que namoro o Vinicius Figueira (ele teve garantida a vaga em 2020, mas terá de ir ao pré-olímpico por perder o processo no realinhamento do critério). Estamos juntos há cinco anos apaixonados e com mesmos sonhos.

Yahoo Esportes Você tem alguma inspiração no esporte ou é fã de alguém?

Valéria Kumizaki – Sim do piloto Ayrton Senna. Meu pai sempre gostou muito de esporte. Assistia às lutas de boxe e corridas de Fórmula 1 Do meu lado, me emocionava ao ouvir tocar o Hino Nacional nas vitórias dele.

Yahoo Esportes – Das andanças pelo mundo você teve oportunidade de conhecer o Japão?

Valéria Kumizaki – Além da ascendência oriental, pude competir lá por quatro vezes, um lugar que me encantou por tudo.

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