Com fotos de Özil, torcedores ironizam protesto da Alemanha no Catar; entenda

Durante a partida entre Alemanha e Espanha neste domingo, pela segunda rodada da Copa do Mundo do Catar, torcedores com vestimenta catari apareceram no Estádio Al Bayt com cartazes do meio-campista Mesut Özil, que atuou na seleção alemã, e tampando a própria boca com as mãos. Trata-se de uma "resposta" irônica ao protesto da Alemanha na estreia deste Mundial, contra o Japão, quando os jogadores fizeram o gesto de "mordaça" para criticar a Fifa após a proibição de entrar em campo com uma braçadeira em defesa da população LGBTQIAP+.

Özil deixou a seleção alemã após a eliminação na fase de grupos da Copa de 2018, acusando ter sido alvo de racismo por parte de torcedores, e criticando a postura da Federação de Futebol da Alemanha (DFB) sobre o assunto.

À época, Özil havia sido bastante criticado por aparecer em uma foto, às vésperas da Copa, ao lado do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, que é constantemente acusado de violações aos direitos humanos. O jogador alemão, que tem ascendência turca, disse que não via problema em posar com Erdogan, classificando a foto como uma "demonstração de respeito à maior autoridade do país da minha família".

"Fui alvo de ofensas racistas, até mesmo de políticos e de figuras públicas, e ninguém da seleção veio a público para falar: 'Parem com isso, ele é nosso jogador, vocês não podem insultá-lo desta forma'. Todos ficaram calados e deixaram aquilo acontecer", disse Özil em entrevista ao portal alemão DW, em 2019, um ano após anunciar sua aposentadoria da seleção.

Atualmente, Özil atua no futebol turco, pelo clube Basaksehir. Quando deixou a seleção, em 2018, ele acusou o então presidente da federação alemã, Reinhard Grindel, de ter um "pano de fundo de discriminação racial" e de tratar os jogadores como ele, com ascendência de dupla nacionalidade, como "alemães quando ganhamos e imigrantes quando perdemos".

A federação alemã negou, à época, ter tido condutas racistas em relação a Özil, e afirmou que "era importante que o jogador se explicasse" sobre a foto com Erdogan, que "levantou questões para muitas pessoas na Alemanha".

Na Copa do Catar, a federação alemã foi uma das mais mobilizadas em articular uma manifestação com outras seleções, como Inglaterra e Dinamarca, em combate à homofobia. No Código Penal catari, a homossexualidade é considerada uma prática criminosa.

A Fifa, no entanto, proibiu as seleções de utilizarem na primeira rodada braçadeiras de capitão com os dizeres "One Love" e as cores do arco-íris, símbolo LBGTQIAP+. A federação alemã estudou acionar a Fifa na Corte Arbitral do Esporte (CAS), última instância da justiça desportiva, para assegurar que os jogadores da seleção nacional pudessem usar a braçadeira sem o risco de sanções.