Com crianças, Orelhinha Bonitinha vira “arma” de campanha para Crivella

Matheus Pichonelli
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The Mayor of the city of Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, talks about the ''lockdown'' during a press conference at the Field Hospital, for the treatment of patients with the corona virus, Covid 19, in Rio Centro, west of the city, on May 12, 2020.  (Photo by Fabio Teixeira/NurPhoto via Getty Images)
Marcelo Crivella em coletiva de imprensa durande a pandemia (Fabio Teixeira/NurPhoto via Getty Images)

No futebol, quando o jogo está apertado e não há mais nada a perder, esquema e organização tática dão lugar ao famoso abafa. É quando zagueiro deixa a posição de defesa e vira centroavante pra tentar alguma coisa lá na frente.

Foi mais ou menos isso que fez o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, ao escalar crianças que passaram por cirurgia para corrigir “orelhas de abano” em sua propaganda eleitoral. Sem decolar nas pesquisas e sob risco de não ir nem para o segundo turno, o candidato à reeleição parece ter chegado à base do abafa na campanha.

Em um vídeo de 30 segundos, crianças contam como superaram o bullying graças a um mutirão do programa “Orelhinha Bonitinha” promovido pela gestão Crivella. Faltou aos marqueteiros da campanha avisarem que o risco era sofrer outra onda de bullying por causa da exposição (indevida?).

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No site da prefeitura, a referência mais recente ao programa dizia que 36 pessoas foram beneficiadas pela intervenção denominada otoplastia em um mutirão. A nota fala em “correção estética”, como se houvesse um jeito certo e um jeito errado de nascer.

O fato é que a propaganda transformou decisão individual, e envolvendo crianças, em uma ferramenta de exposição e propaganda política. Não é o único problema da peça.

Em sua campanha pela reeleição Crivella conta com o apoio da família Bolsonaro. Eis o que o presidente amigo disse, durante a campanha de 2018, sobre bullying. “Quando era criança não tinha essa história de bullying. O gordinho dava pancada em todo mundo. Hoje o gordinho chora”.

Para Bolsonaro, “tudo agora é coitadismo”. “Coitaado do negro, coitado da mulher, coitado do gay, coitado do nordestino, coitado do piauiense. Vamos acabar com isso”.

Uma vez eleito, o presidente se queixou, em uma live, que o país estava muito “chato” porque supostamente não se podia mais fazer piadas. “Falou que o cara pesa oito arrobas, não pode. Aquela polêmica toda! Criticou a mulher! Criticou gay! Não dá pra continuar assim! Estamos perdendo o direito de fazer piada no Brasil. Tudo agora tem que ser politicamente correto. Temos que pensar, será que vou ofender as gordinhas? Vou ser chamado de gordofóbico?”

É com um aliado assim que Crivella quer se vender como guerreiro do povo carioca engajado contra o bullying?

A validade da estratégia está a cargo agora do eleitor. É ele quem vai avaliar se o mutirão teve alcance de fato para ser citado como conquista da gestão.

Mas não deixa de ser curioso que o candidato seja da mesma turma que arranca os cabelos diante de qualquer projeto relacionado, por exemplo, ao combate da homofobia nas escolas -- um problema que, no limite, pode levar à violência, à depressão e ao suicídio.

Como senador, Crivella foi um dos autores do projeto que isenta padres e pastores de qualquer responsabilidade por associarem sexualidade a pecado. Como prefeito, fez um escarcéu na Bienal do Livro por uma cena de beijo entre dois personagens de HQ.

Só que sexualidade não se corrige com cirurgia ou censura. Nem com terapia, como a turma quer fazer crer.

Crivella pode até tentar ficar bem no vídeo. Mas combater bullying é outra coisa.