Coletivo Inclusão possibilita que pessoas com deficiência façam trilhas do Rio

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RIO — Jovens, ativos, cheios de vida… e, de repente, cadeirantes. De uma hora para outra ter que reaprender a fazer quase tudo não foi fácil para Rafael Araujo, Carla Torres e Glenndel Moreira. Mas a principal lição que eles tiraram foi que a nova condição não arrancou-lhes características, como a sede de viver. Cada um com uma história diferente, com vários pontos em comum e que se encontram em um projeto, o Coletivo Inclusão. Criado no segundo semestre do ano passado, o grupo, que já conta com 124 voluntários, possibilita que cadeirantes façam as trilhas das pedras Bonita e da Gávea, esta considerada uma das mais difíceis do Rio.

O Coletivo Inclusão nasceu a partir de um projeto que já existia em São Paulo, conta Bruna de Souza, uma das administradoras do grupo. Bruna é estudante do curso de guia de turismo nacional e se divide entre o apartamento que mora na capital paulista e outro em Ipanema.

— O Inclusão Radical chamou alguns guias amigos para subir um PcD (Pessoa com Deficiência) na Pedra da Gávea. Saiu uma galera de São Paulo para o Rio com esse objetivo. Desde então a semente foi plantada, começamos a nos planejar, criamos um grupo, trocamos ideias, experiências e em 21 de julho subimos o primeiro cadeirante. A partir daí fazemos isso todos os meses que as condições climáticas nos permitem — detalha.

Bruna explica ainda que para cada trilha são necessários 30 voluntários e já há uma lista de espera de PcDs para 2023. Por isso, a ideia é que outras iniciativas surjam para atender à demanda.

— Somos muitos braços, pernas e corações. Somos guias de turismo, escaladores, socorristas, engenheiros, contadores etc. Só exigimos que os voluntários já tenham feito a trilha da Gávea e não necessitem de ajuda no trajeto. Todos são muito bem-vindos. Mas a cada percurso não podemos ter mais de 30 pessoas, para não afetar o meio ambiente. Em 2022 já não temos mais vagas para cadeirantes que querem subir conosco. Não se trata apenas de fazer uma trilha, mas de sonhos. Então, assim como esse grupo nasceu de outro, queremos que outros surjam. Quanto mais inclusão, melhor — diz Bruna.

O coletivo utilizava uma cadeira adaptada cedida pelo Parque Nacional da Tijuca, onde ficam as trilhas. Mas em dezembro, após uma vaquinha on-line e um brechó organizado por Bruna, o grupo conseguiu os R$ 6 mil que precisava para adquirir uma Julietti, cadeira acessível a pessoas portadoras de necessidades especiais para que possam praticar trilhas.

Os trajetos com PcD costumam demorar mais por conta dos obstáculos, sa necessidade de revezamento entre os voluntários e sas paradas para descanso. A trilha da Pedra da Gávea, que dura em média três horas, é feita em quatro horas e meia.

‘É uma sensação de liberdade incrível’

Em novembro de 2021, a estudante de Enfermagem Carla Torres, de 30 anos, tornou-se a primeira cadeirante a subir no cume da Pedra da Gávea, devidamente registrada. Os demais subiram até o platô, ponto conhecido entre os tilheiros por proporcionar uma vista mais bonita. Carla também é voluntária no projeto e é responsável pela área de atenção especial à PcD, que tem como objetivo uma abordagem acolhedora. A estudante é cadeirante desde 2017, quando sofreu um acidente vascular cerebral (AVC).

— Eu era uma menina bem ativa, estudava, malhava, passeava bastante, tinha muitos amigos. Depois do AVC, quase todos eles desapareceram, e eu, claro, fiquei triste. Quando nos tornamos deficientes, a sensação que temos é que a vida parou, que não podemos mais fazer nada, que tudo é impossível e que nada dará certo. Meu padrinho teve a ideia de me apresentar os “anjinhos sem asas”, como eu costumo chamar o pessoal do coletivo, e de lá para cá, além de ter feito muitas amizades, com a minha história eu tenho mostrado aos meus semelhantes que mesmo com a deficiência nós não somos ineficientes e, sim, somos capazes de fazer o que consideram impossível — diz Carla, acrescentando que também subiu a Pedra Bonita.

Ela conta que antes de se tornar cadeirante só tinha feito uma trilha.

— Com a cadeira, já fiz duas. É uma sensação de liberdade incrível. Só precisamos de amigos de verdade e que as pessoas não olhem para nós com dó e sim com esperança porque o mais importante nós temos, a vida e o amor ao próximo.

O motorista aposentado Rafael Araujo, de 33 anos, foi o segundo cadeirante a fazer uma trilha com o Coletivo Inclusão, em setembro de 2021. Ele chegou a subir a carrasqueira, um paredão de pedra de 30 metros de altura que dá acesso ao cume da Pedra da Gávea. O percurso, porém, precisou ser interrompido devido às condições climáticas não favoráveis no dia. O nome de Rafael voltou para a lista dos próximos contemplados, desta vez a trilha será a da Pedra Bonita.

— Como não deu para concluir, a ideia é subir a Pedra da Gávea novamente. Mas antes vamos subir a Bonita. Já estou na expectativa — diz.

Participantes exaltam ajuda dos voluntários

Rafael Araujo ressalta a dedicação dos voluntários e relata o sentimento que sentiu durante o trajeto:

— É um misto de sentimentos. Todo o percurso tem uma energia muito boa. A equipe inteira tem uma dedicação fora de série. Falar sobre a subida fica até difícil porque chega a ser inacreditável como eles conseguem nos levar até o cume. É muita força, raça de verdade, amor, carinho. A pessoa subir sem estar carregando alguém ou alguma coisa já é um desafio. Imagina subir empurrando uma cadeira. E quando chega lá em cima, a sensação é a melhor. Contemplar aquela vista maravilhosa. Dinheiro nenhum paga isso, só podemos agradecer.

Araujo ficou paraplégico após ter levado um tiro nas costas em um assalto, no dia 1º de dezembro de 2013.

— É como começar do zero, você aprende tudo de novo e de uma forma diferente daquela que você vivia antes. Desde tomar banho, se vestir, colocar uma meia, se locomover, dirigir. Mas a cadeira não me limita nada, ela me leva onde eu quero ir. Uma coisa que costumo dizer é que nós seres humanos somos adaptáveis, basta querer. No meu caso, não me abati, segui em frente e tudo que quero fazer eu faço, e incentivo quem eu posso a fazer o mesmo. Jogo tênis, pego onda, já joguei basquete, já fiz trilha de quadriciclo e até já voei de parapente. O céu é o limite — orgulha-se.

O próximo a subir a trilha da Pedra da Gávea com a ajuda do coletivo é Glenndel Moreira, atual campeão brasileiro e sul-americano de paracanoagem, resultados conquistados em dezembro de 2021. Há 14 anos, aos 23, sofreu um traumatismo raquimedular, enquanto trabalhava como soldador, quando uma tubulação de aço de aproximadamente uma tonelada atingiu sua cabeça.

— Minha fé, a certeza de dias melhores e minha família me fizeram enfrentar todos os desafios que eu passei após o acidente. O esporte também foi fundamental. Antes eu praticava atividades coletivas, como futebol e basquete, cheguei a tentar o basquete adaptado. Mas foi na canoagem que me encontrei. Meu irmão é trilheiro e há alguns anos ele e um grupo de amigos me possibilitaram subir a Pedra do Telégrafo. Eles me carregaram nas costas. Dessa vez vai ser com a Julietti, mas vai ser igualmente cansativo para os voluntários. E eu sou muito grato a eles, por me proporcionarem essa experiência novamente. Não vejo a hora.

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