COI desiste da 'opção nuclear' e Rússia está mantida nos Jogos

Thomas Bach, presidente do COI, em entrevista coletiva do dia 21 de junho, em Lausanne
Thomas Bach, presidente do COI, em entrevista coletiva do dia 21 de junho, em Lausanne

O Comitê Olímpico Internacional (COI) decidiu neste domingo não suspender o Comitê Nacional Olímpico Russo (ROC), deixando para as federações internacionais a decisão de avaliar a participação de cada atleta do país nos Jogos do Rio, com base em critérios muito rígidos.

Em meio ao clima de guerra fria que voltou à tona nas últimas semanas, COI preferiu não optar pela "opção nuclear" advogada por Dick Pound, fundador da Agência Mundial Antidoping (Wada) e co-autor do primeiro relatório bombástico que resultou na suspensão do atletismo russo de todas as competições internacionais.

A punição foi confirmada na quinta-feira pelo Tribunal Arbitral do Esporte (TAS), o que parecia abrir o caminho para a exclusão total do país.

Uma medida que vinha sendo cogitada desde segunda-feira, com a publicação de outro documento da Wada com revelações avassaladoras: o relatório McLaren, que evidencia o envolvimento das autoridades russas ao esquema.

Mesmo assim, o COI considera que "não existem provas contra o Comitê Olímpico Russo no relatório", por isso resolveu não suspender o país como um todo.

- Rússia agradece, EUA criticam -

"Os atletas russos das 28 modalidades olímpicas precisam assumir as consequências da responsabilidade coletiva (do país) e a presunção de inocência não pode ser aplicada", ressaltou o COI em um comunicado.

"Por outro lado, a justiça individual precisa ser aplicada, e todo atleta precisa poder provar que a responsabilidade coletiva não pode ser aplicada no seu caso", justificou.

"Eu sei que a decisão não vai agradar a todos", admitiu o presidente do COI, em entrevista coletiva por telefone, antes de lamentar o fato de veículos de mídia como o Times, da Inglaterra, terem "lançado uma campanha a favor da exclusão da Rússia".

Questionado se mostrou "fraqueza" na decisão, Bach rebateu ao afirmar que "tratou-se apenas de justiça em relação aos atletas limpos".

As críticas não demoraram a chegar. "De forma decepcionante, em resposta ao momento mais importante para atletas limpos e pela integridade dos Jogos Olímpicos, o COI se recusou a agir como um líder determinante", criticou o diretor executivo da Usada, Travis Tygart, em um comunicado.

A decisão, de fato, não agradou a todos, mas foi comemorada pelo ministro dos Esportes da Rússia, que se disse "agradecido".

A decisão "é objetiva, adotada dentro dos interesses do mundo esportivo e pela unidade da família olímpica", enfatizou Mutko, que se disse "absolutamente convencido de que a maioria da delegação russa atenderá aos critérios" rigorosos estabelecidos pelo COI.

Caberá às federações internacionais de cada modalidades validar a participação dos atletas que considerem 'limpos', de acordo com esses critérios.

Basicamente, nenhuma atleta já condenado por doping poderá disputar os Jogos, o que levanta um questionamento sobre o americano Justin Gatlin, um dos favoritos da prova de 100 m rasos do atletismo, que não preenche este prerequisito, por ter levado gancho de quatro anos, em 2006.

As federações também precisam garantir que todos os atletas foram submetidos a exames antidoping nos padrões internacionais. Ou seja, fora da Rússia.

- AMA decepcionada -

A Agência Mundial Antidoping (AMA) declarou neste domingo estar "decepcionada" com a decisão tomada pelo COI.

"A AMA está decepcionada que o COI tenha ignorado a recomendação de seu comitê executivo que se baseou nos resultados da investigação de McLaren" sobre o doping no esporte russo, disse o presidente da AMA, Craig Reedie.

Seguir essa recomendação "teria assegurado uma mensagem clara, forte e uniforme", disse o titular da AMA em comunicado.

"A AMA respeita plenamente a autonomia do COI para tomar decisões em nome da Carta Olímpica, mas o enfoque e os critérios que decidam conduzirá inevitavelmente a uma falta de harmonização, desafios potenciais e uma menor proteção aos atletas limpos", lamentou o diretor-geral da AMA, Olivier Niggli.

- Tenistas liberados -

A primeira a se pronunciar foi a Federação Internacional de Tênis (ITF), que autorizou a participação dos oito russos inscritos para o torneio olímpico.

"Os oito tenistas russos escolhidos para participar dos Jogos do Rio foram submetidos a exames rigorosos fora da Rússia", explicou a ITF.

A federação diz ter coletado 205 amostras desses oito tenistas desde 2004, 83 durante torneios e 122 fora das competições, com 111 exames de urina e 94 de sangue, sem que nenhum deles tenha testado positivo.

"A ITF acredita que isso é suficiente para determinar que os oito russos convocados preenchem os critérios estabelecidos neste domingo pela comissão executiva do COI", completou.

A IAAF chegou até a tomar uma medida semelhante há duas semanas, ao 'repescar' a saltadora em distância Darya Klishina que treinava na Flórida, onde, como os tenistas, é submetida a exames mais rigorosos do que em seu país.

A entidade também chegou a autorizar a meio-fundista Yuliya Stepanova a disputar os Jogos por conta da sua contribuição na denúncia do escândalo, que revelou em documentário do canal alemão ARD, mas o COI resolveu vetar sua participação neste domingo.

Stepanova não foi autorizada a competir por já ter sido punida por doping no passado, de 2011 a 2013, mas poderá assistir ao evento como convidada.

Essa regra também deve tirar muitos atletas de outras modalidades, mas o fato de o COI não ter punido o Comitê russo deve possibilitar a participação aos Jogos de estrelas como os membros da seleção masculina de vôlei masculina, atual campeã olímpica, que derrotou o Brasil na final da última edição, em Londres-2012.

Na capital inglesa, porém, o esporte que mais rendeu medalhas à Rússia foi o atletismo (17 de 82), que deve ter apenas Klishina como representante. O país terminou em quarto lugar do quadro de medalhas.

A luta olímpica também é um esporte de forte tradição na Rússia, com 11 pódios em Londres, mas é um dos mais afetados por escândalos de doping.

Na quarta-feira, a Rússia inscreveu 387 competidores na sua delegação, mas a lista já caiu para 320 nomes, com a exclusão de 67 dos 68 nomes da equipe de atletismo. Outros cortes devem acontecer, mas a Rússia ganhou neste domingo a certeza de que não ficará totalmente fora dos Jogos.

O COI havia excluído países de Olimpíadas no passado, com a suspensão dos comitês nacionais da África do Sul, de 1964 a 1988, por conta do regime do apartheid, e do Afeganistão, em 2000, quando o país era governado pelos talibãs.