Clubes vivem ioiô entre a 1ª e a 2ª divisões do Brasileiro

MARCOS GUEDES
Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quarto colocado da Série B de 2014, o Avaí conquistou uma vaga no Campeonato Brasileiro da Série A de 2015, no qual acabou rebaixado. A equipe catarinense voltou a subir em 2016, caiu em 2017, subiu em 2018 e caiu novamente em 2019, com cinco rodadas de antecedência.

É o mais claro exemplo dos clubes "ioiô", que mostram força para chegar à primeira divisão, mas não conseguem nela se manter nela.

Desde que o Nacional passou a ter o formato atual (pontos corridos e com 20 clubes nas séries A e B), em 2006, há oito times com ao menos cinco idas e vindas entre as duas primeiras divisões.

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Só o Avaí registra quatro acessos e quatro descensos. O sobe e desce se tornou tão constante que o auxiliar técnico Evando assumiu o comando da equipe na 25ª rodada, após o pedido de demissão de Alberto Valentim, certo de que não evitaria o pior.

"Nós havíamos reconhecido internamente que era quase impossível permanecer na Série A. Na avaliação interna, já tínhamos sido rebaixados", disse Evando, que herdou o time na penúltima colocação, com 17 pontos em 24 partidas.

"Como ganharíamos 10 de 14 jogos? Era muito difícil. Não podemos externar isso porque as pessoas não estão preparadas para ouvir. Agora, é executar o projeto de 2020 para formar um time forte", acrescentou o treinador, que deverá voltar a ser assistente.

O problema, a julgar pelo histórico recente, não será fazer um bom 2020. O que busca o Avaí, além de se recuperar no próximo ano, é se estruturar para que a permanência na Série A seja um objetivo possível em 2021.

"Erramos muito em 2019, e a preocupação é não errar em 2020", afirmou o presidente Francisco Battistotti, que conversa com o experiente treinador uruguaio Jorge Fossatti, 67, na tentativa de fazer dele o arquiteto de uma ascensão mais duradoura.

Como ocorre com várias equipes que sobem à primeira divisão, há na catarinense uma dificuldade de fazer maiores investimentos. Com a breve permanência na elite, as receitas também seguem a lógica do ioiô, em um ciclo que leva a problemas esportivos.

Por isso, avançar na Copa do Brasil se tornou meta das mais importantes. A diretoria estabeleceu que o objetivo é superar ao menos quatro fases, já que a competição oferece prêmios considerados altos aos participantes.

Ainda não foram divulgados os números de 2020, mas, com base na premiação de 2019, superar essas quatro fases e chegar às oitavas de final renderia R$ 4,5 milhões. Isso representaria, por exemplo, 12% da receita total obtida pelo Avaí em 2018, último ano em que a equipe disputou a Série B.

Uma injeção maior no caixa permitiria a montagem de um elenco mais qualificado, que pudesse ter longevidade no clube além da próxima temporada. Mas, lembram os dirigentes, é preciso ter pés no chão e pensar antes no acesso.

"Queremos brigar por títulos, principalmente o da Série B. Quando a gente monta time forte, sempre briga e sobe para a Série A. Mas queremos mirar o título", afirmou o ex-meia Marquinhos, atual gerente de futebol, acostumado com a gangorra desde os tempos de jogador.

No sobe e desce, o Sport faz agora movimento oposto ao do Avaí. Rebaixado em 2018, o time pernambucano construiu uma campanha sólida na Série B de 2019, ficando atrás apenas do campeão e bem patrocinado Bragantino, e agora se prepara para frear o movimento de ioiô das últimas temporadas.

O clube tem a preocupação, no entanto, de evitar a tentação de gastos fora do orçamento. O presidente Milton Bivar tem repetido que será "um ano difícil", por causa da situação financeira do clube.

A dívida da agremiação, ao fim de 2018, estava em cerca de R$ 145 milhões. E a estratégia adotada foi arrastar o pagamento, o que torna o futuro próximo mais complicado.

"A gente sabe que 2020 vai ser um ano de pagar a conta que não foi paga em 2019. O Sport foi até beneficiado por alguns credores que tiveram a visão de que o clube, como estava na segunda divisão, não tinha condição de quitar compromissos assumidos por gestões passadas", afirmou o vice-presidente executivo, Carlos Frederico de Melo.

O dinheiro da TV é o maior exemplo. O clube, que levou R$ 6 milhões pelas transmissões da Série B, tem ao menos R$ 22 milhões garantidos --valor-base de todos os times da Série A em 2019, que ainda terá correção para 2020. Há também a cota por jogo transmitido, o prêmio pela classificação final e o dinheiro do sistema pay-per-view, o que faz o Sport trabalhar na expectativa de superar os R$ 50 milhões no próximo Brasileiro.

"A cota vai se multiplicar por dez. Mas você não pode achar que pode multiplicar suas despesas", declarou Melo.

De acordo com o dirigente, iludir-se com o dinheiro da televisão foi um erro cometido por gestões anteriores. É por isso que, do valor inicial a ser recebido, serão de cara abatidos R$ 18 milhões, que haviam sido adiantados pela Globo.

O vice-presidente executivo do Sport falou em "fazer uma equipe competitiva", porém sem incorrer em "gastos intempestivos". Para o dirigente, essa é justamente, após uma queda e um acesso em sequência, "a estratégia de permanência na Série A por um período maior". Mesmo sem dinheiro, acredita, é possível.

"Em 2008, o Sport foi campeão da Copa do Brasil com uma equipe até certo ponto modesta, em um tripé baseado em salário em dia, grupo unido e jogadores competitivos. Existem exemplos de futebol competitivo apostando na responsabilidade financeira", afirmou Melo.

"Temos um clube pacificado e um presidente que é profundo conhecedor do futebol brasileiro, com crédito entre os clubes. Acho que há um bom cenário para realmente a gente brigar para se manter na Série A e, a partir daí, reconstruir nossa trajetória", concluiu o cartola.

Fazer o ioiô parar no alto também é o plano de Coritiba e Atlético-GO. Cada um desses clubes, que acabam de assegurar presença na Série A de 2020, acumula três acessos à primeira divisão e duas quedas à segunda desde 2006.

Campeão da Série B, o Bragantino aposta na parceria com a empresa de bebidas energéticas Red Bull para que sua volta à elite após mais de duas décadas não seja breve.

Como percebeu o CSA, com o rebaixamento praticamente sacramentado em sua primeira experiência na primeira divisão desde 1987, não é fácil competir de igual para igual com adversários com maior capacidade de investimento.

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