Clubes trabalham a temática do racismo na base para conscientizar jovens

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Jair da Rosa dos Passos, o Jairzão, demonstra orgulho ao recordar-se dos enfrentamentos com o Santos de Pelé. Na década de 1970, com a camisa do América, de São José do Rio Preto (435 km de São Paulo), o zagueiro ganhou respeito pela forma como dificultava a vida do Rei em campo.

Aos 74 anos, ainda costuma lembrar com entusiasmo das divididas com o camisa 10 santista, assim como a deferência dos árbitros com Sua Majestade. "Quando ele caía, o juiz dizia: 'Seu Edson, o senhor está bem?'. Para mim, esbravejava: 'Levanta aí, negão'".

No Brasil, o futebol nasceu e se desenvolveu sob raízes profundamente preconceituosas. Em seus primórdios, a participação do atleta negro era inconcebível em uma modalidade aristocrática. Os tempos mudaram, mas o cenário ainda está longe do ideal.

Na última quinta-feira (18), o Brusque, de Santa Catarina, recuperou os pontos que havia perdido na Série B do Campeonato Brasileiro após um dirigente do clube ter proferido ataques racistas ao meio-campista Celsinho, do Londrina, que é negro.

Nos últimos anos, alguns clubes brasileiros têm compreendido a necessidade de enfrentar esse problema e passaram a promover palestras de conscientização sobre o tema, além de trabalhar medidas de acolhimento desde as categorias de base. Cada vez mais as diretorias investem na contratação de profissionais das áreas de educação, psicologia e assistência social.

"Debater questões sociais é de fundamental importância, independentemente de se tornarem atletas profissionais no futuro ou não, para que eles adotem um comportamento antirracista", afirma Ricardo Barros, assistente social do Santos.

Na Vila Belmiro, Barros tem a missão de comandar esse trabalho ao lado do psicólogo Renato Santoro e da educadora Karla Patrícia, que acompanha a rotina dos jovens nas escolas. O clube definirá uma data, provavelmente durante o recesso escolar, para as equipes das categorias inferiores acompanharem uma palestra no Instituto Luther King, localizado no litoral paulista.

O Bahia, um dos clubes que mais tem realizado campanhas de apoio a causas sociais nos últimos anos, instituiu em 2014, no seu departamento social, um grupo para lidar especificamente com a temática do racismo. Desde 2018, promove a Semana da Consciência Negra da Base, com apoio dos profissionais de pedagogia e nutrição.

Anualmente, o evento aborda assuntos relacionados não só ao esporte, mas também tópicos como a inserção do negro no mercado de trabalho e a sua posição na sociedade.

"A nossa responsabilidade consiste na construção de cidadãos e atletas inquietos que saibam discernir o crime racismo e a injúria racial, e lutem por seus direitos se tornando protagonistas na sociedade e de sua própria história", afirma a psicóloga Aline Castro, que coordena o núcleo social do Bahia ao lado da assistente social Adnaildes Santos e da estagiária de psicologia Crislane Vieira.

Quem também afirma estar fazendo a lição de casa com os jovens é a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), sob a liderança da pedagoga Eliane Paim.

Durante as convocações das seleções de base, a profissional conduz a educação sobre a importância do combate ao preconceito por meio de dinâmicas, rodas de conversa com os atletas, exibição de filmes e dicas de leitura.

"Nosso objetivo é dar sequência à formação integral do jovem atleta. Exigimos não só o alto rendimento, mas também postura crítica e comportamental", afirma o coordenador das categorias de base da seleção, Branco, à Folha.

"O apoio pedagógico é importante pois auxilia nossos atletas nos compromissos escolares e os prepara para representar o país, inserindo-os nas lutas as quais a CBF abraça e acredita. E ser antirracista é uma delas. Não há mais espaço para qualquer tipo de discriminação no futebol, seja por sexo, gênero, raça, religião ou condição social", completa Branco.

Em parceria com o Observatório da Discriminação Racial no Futebol, o Juventude, de Caxias do Sul, convidou recentemente o ex-jogador Tinga, com passagens por Grêmio, Internacional, Cruzeiro, e Borussia Dortmund (ALE), para dar uma palestra.

Após pendurar as chuteiras, Tinga foi um dos raros dirigentes negros que passaram por um clube de elite do país -gerente de futebol do Cruzeiro até o final de 2017.

"A conscientização sobre o racismo e outros preconceitos abomináveis é permanente no Juventude. Em parceria com o Observatório de Discriminação Racial, por exemplo, já efetuamos diversas ações", diz Fábio Pizzamiglio, vice-presidente de administração e marketing do clube gaúcho.

No Internacional, além do trabalho de orientação, a diretoria inseriu uma cláusula nos contratos firmados com atletas -inclusive das categorias de base- e demais parceiros comerciais na qual exige que pautem suas condutas profissionais "pelo repúdio à prática de quaisquer atos discriminatórios ou preconceituosos decorrentes de origem, cor, gênero, religião, classe social, capacidades ou limitações individuais", diz o trecho, que prevê advertência, suspensão ou rescisão em caso de infração.

"Temos preocupação e interesse em crescer cada vez mais como instituição ao trazer com bastante intensidade projetos voltados para a inclusão e a diversidade", diz o presidente do Internacional, Alessandro Barcellos. "Entendemos que isso é uma tendência em várias organizações, e no futebol não seria diferente."

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