Clubes brasileiros batem recorde de vendas de jogadores em 2018 e cifras com patrocínio caem 18%, diz estudo

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Receita total dos 20 clubes que mais faturaram no Brasil em 2018 (Foto: Sports Value)
Receita total dos 20 clubes que mais faturaram no Brasil em 2018 (Foto: Sports Value)

Por Eryck Gomes (@EryckWaydson)

A temporada de 2018 foi de recorde para os 20 clubes com maiores receitas do futebol brasileiro. O grupo teve um faturamento de R$ 5,26 bilhões em 2018, aumento de 2,4% com relação ao ano anterior. Em contrapartida, tal cifra foi impulsionada por outro número vultuoso, o de transferências de atletas. O montante de R$1,3 bilhão é o maior da história. Estes são apenas alguns números do levantamento realizado pela brasileira Sports Value. Para entender mais sobre o estudo, a reportagem do Yahoo Esportes conversou com Amir Somoggi, especialista em marketing e gestão e sócio-diretor da empresa.

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O extenso estudo traz vários outros insights. Por exemplo, os recursos com patrocínios caíram 18%; receitas com TV também encolheram levemente, 0,2%; o arrecadado com bilheteria cresceu 3%, mas o sócio-torcedor retraiu 3,7%.

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Embora o faturamento tenha atingido o número mais alto da história, a fatia relativa à venda de jogadores representa 24% do total (sem ela, há uma queda de 5,4% nos rendimentos).

Um percentual elevado nesta fonte acende um alerta, já que tal prática é frequentemente utilizada como artifício para cobrir lacunas que deveriam ser preenchidas pelo patrocínio, por exemplo - que teve declínio de 3%. Na visão de Somoggi, o momento econômico brasileiro não justifica mais os tombos.

- Reflexo econômico não pode ser porque a situação do país está melhor do que esteve em outros tempos e nem por isso os números caíram assim nos outros anos. O motivo da queda é a má gestão do futebol brasileiro. Os clubes trabalham muito mal as suas marcas, os patrocinadores cada vez mais topam pagar menos, porque não estão vendo retorno no investimento. É uma falha no entendimento dessa ferramenta (patrocínio). E não só dos clubes, mas das empresas também. O que se faz com isso (venda de atletas) é fechar um buraco. Gasta muito mais do que arrecada e é obrigado a vender jogador para manter o equilíbrio. Só que uma parte desse dinheiro de venda de jogador não fica no clube, vai para o bolso dos empresários. Isso quando não volta para algum dirigente.

Comparativo da receita segmentada dos clubes de 2017 e 2018 (Foto: Sports Value)
Comparativo da receita segmentada dos clubes de 2017 e 2018 (Foto: Sports Value)

O Palmeiras é o clube com maior receita do futebol brasileiro, com R$653,9 milhões - um crescimento de 30% com relação a 2017. Logo atrás vem Flamengo (R$542,8 mi), Corinthians (R$469,9 mi), São Paulo (R$424,5 mi) e Grêmio (R$420,3 mi). Pela primeira vez, cinco clubes passaram da faixa dos R$400 milhões arrecadados.

O sócio-torcedor ainda não deslanchou, e caiu 3,7% com relação ao ano anterior. O faturamento em 2018 foi de R$632 milhões. A baixa venda de ingressos, ausência da cultura de Match Day, com eventos paralelos à realização da partida, são alguns dos pontos levantados como falhos por Amir.

- O sócio-torcedor teve um salto, mas estagnou porque tem uma limitação física. O cara não vai aderir sendo de longe sem ter nenhum benefício. Os clubes têm que começar a trabalhar melhor isso para o torcedor, e não só o que vai aos jogos. A realidade atual não tem novidade (além de desconto nos ingressos), não tem alternativas. Não se criou um ambiente propício para evoluir para mais receitas e benefícios para o torcedor.

Receitas dos clubes sem a venda de jogadores (Foto: Sports Value)
Receitas dos clubes sem a venda de jogadores (Foto: Sports Value)

Somoggi identifica um enorme potencial de exploração de marca em outros estados brasileiros, mas lamenta a negligência por parte dos clubes com grandes receitas.

- Eu faço essas análises há muito tempo e há um potencial enorme para clubes de dimensão nacional ampliarem a base de sócio-torcedor fora do próprio estádio. Por quê? Todos esses times jogam no Recife, em Salvador, Belém, etc. É preciso criar um plano. Jogo fora de casa, deveria ser trabalhado fortemente ações de marketing para motivar esse torcedor da Bahia, de Pernambuco, do Ceará, a ser fiel e pagar (o sócio-torcedor) todo mês. Por exemplo, receber esse ingresso quando o clube vai jogar lá. É uma forma bastante barata, você entrega para o torcedor essa garantia de ver o jogo desse time dele uma vez ao ano e o cara se mantém (adimplente).

Histórico de receita dos 20 clubes sem a venda de jogadores - valores em bilhões (Foto: Sports Value)
Histórico de receita dos 20 clubes sem a venda de jogadores - valores em bilhões (Foto: Sports Value)

Outro dado importante extraído do levantamento é o tamanho do mercado de futebol profissional no Brasil.

O volume gerado é de R$ 6,5 bilhões, com os clubes sendo responsáveis por 88% do total (o estudo abrange os 100 maiores). Completam o bolo a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), com 9%, e as federações estaduais, com 3%. E vale ressaltar: dos 88% dos clubes, 81% equivale aos 20 maiores.

Ou seja, a CBF tem um faturamento 2% maior que todos os outros 80 clubes somados. Para se ter uma ideia, de acordo com o dados, o Top-20 tem, conjuntamente, em caixa (como reserva), R$ 86 milhões - número que caiu 20% com relação a 2017. Esta mesma reserva da CBF conta com R$517 milhões.

- O futebol brasileiro é totalmente orientado pelos interesses da CBF e das federações. Os clubes não têm interesses preservados. Na prática, os clubes, responsáveis por 88% do mercado futebol, não mandam em nada. São desunidos, agem como inimigos enquanto a CBF ri da cara de todo mundo.

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