Clube boliviano que joga a 4 mil metros se diz pronto para surpreender na Libertadores

BRUNO RODRIGUES
·5 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há uma sensação de otimismo por parte de torcedores, dirigentes e jogadores do Always Ready quando a equipe joga em casa pelo Campeonato Boliviano. O estádio em que o clube atua como mandante, o Municipal de El Alto, na cidade homônima, fica a 4.090 metros acima do nível do mar. No palco mais alto do futebol local, o time que conquistou o título do último Apertura venceu 11 dos 13 jogos que lá disputou, marcou 41 gols (média superior a 3 por partida) e sofreu 10. Foi justamente a força do clube em seu campo que o ajudou a encerrar um jejum de 63 anos sem conquistas no futebol profissional do país. Com a taça da competição nacional, garantiu também o retorno à Copa Libertadores -a única participação dos "Millonarios", como são apelidados, foi em 1968. Para a sonhada volta ao principal torneio da América do Sul, o Always Ready confia no fator casa para fazer a diferença no certame continental e no fato de que, independentemente do adversário, eles estão sempre prontos. "É muito bom sentir-se ganhador das partidas antes de entrar em campo. Notamos o respeito por parte dos outros clubes", diz à Folha o presidente do clube, Andrés Costa, de 26 anos. "Sabemos que [a Libertadores] é um campeonato muio complicado, mas, se formos fortes em casa, poderemos passar de fase. Um sorteio favorável para nós, creio, seria que clubes grandes venham para cá. Temos um time muito rápido, que aproveita a altitude como fortaleza. Estamos certos de que faremos nove pontos aqui." O estádio onde atua a equipe é motivo de controvérsia há anos, desde quando o Always Ready, fundado em La Paz, decidiu ir para El Alto, município vizinho. Segundo os dirigentes, houve um desacordo com administradores do Hernando Siles, o principal estádio da capital e também do país. Inaugurado em 2017, o Municipal de El Alto, de gramado sintético, passou então a abrigar as partidas do time. Dois anos após migrarem para a cidade, em 2019, o árbitro Victor Hugo Hurtado apitava um duelo entre Always Ready e Oriente Petrolero quando teve um mal súbito e caiu no chão. De acordo com a imprensa boliviana, Hurtado sofreu duas paradas cardiorrespiratórias e não resistiu. A morte do árbitro reacendeu no continente o debate sobre a realização de jogos em condições extremas, como a altitude de mais de 4.000 metros de El Alto. Na última Libertadores, o São Paulo foi a Juliaca, no Peru, enfrentar o Binacional, que atua a 3.800 metros do nível do mar. "A altura é a mesma vantagem que o Boca tem em jogar na Bombonera lotada. Se um clube se prepara, pode vir aqui e jogar bem. O Palmeiras mostrou isso contra o Bolívar [na atual Libertadores]. E se a altura fosse determinante para decididr partidas, a Bolívia iria sempre à Copa do Mundo. Os clubes têm de vir aqui e jogar", afirma o mandatário do Always Ready. Fundado em 1933 no bairro de Miraflores, na capital boliviana, o clube conquistou dois títulos nacionais logo após a profissionalização do futebol no país, na década de 1950. Campeão em 1951 e 1957, foi vice em quatro oportunidades, o que lhe valeu uma participação na Copa Libertadores de 1968. As décadas seguintes, porém, levaram o Always Ready ao ostracismo. O rebaixamento à segunda divisão em 1991 mergulhou a instituição em sua maior crise, que colocou os tradicionais "Millonarios" à beira da extinção. Em 2015, conta Andrés Costa, o clube esteve a uma semana de desaparecer do mapa. Foi quando seu pai, empresário dono de uma universidade particular, decidiu assumir o Always Ready e iniciar um processo de recuperação do time. Em cinco dias, e sem nenhum jogador sob contrato, realizaram negociações relâmpago e conseguiram por em campo um time para a estreia na terceira divisão. Com o aporte de dinheiro da família Costa, a equipe subiu à segunda divisão e, depois de bater na trava em duas temporadas consecutivas, retornou à elite boliviana em 2019. A mudança para El Alto ganhou a simpatia da população local, que adotou o clube. Uma medida importante para o Always Ready, que havia estagnado na formação de novos torcedores durante os anos nas divisões inferiores. Os investimentos da universidade e de outros patrocinadores fortes, como a Suzuki, colocam o Always Ready em outro patamar. Com uma folha salarial entre US$ 350 mil e US$ 400 mil, a equipe divide com o Bolívar o posto de elenco mais caro do país. Um dos destaques da campanha vitoriosa no último Apertura foi o goleiro Carlos Lampe, titular da seleção da Bolívia e com passagem pelo Boca Juniors. O título, confirmado no dia 31 de dezembro, veio após uma maratona de 14 rodadas espremidas em 34 dias. Para o retorno à Libertadores, o clube já confirmou a contratação de alguns reforços, entre eles dois brasileiros: o zagueiro Everton Sena, ex-Vitória e Cuiabá, e o atacante Vander Vieira, revelado no Flamengo e com passagens por Emirados Árabes e Chipre. Técnico campeão em 2020, o argentino Omar "Turco" Asad, carrasco do São Paulo pelo Vélez Sarsfield em 1994, não seguiu no comando e foi substituído pelo chileno Sebastián Nuñez, que dirigiu o time há duas temporadas. Andrés Costa, que assumiu a presidência no mês de novembro no lugar de seu pai, Fernando, que foi eleito mandatário da Federação Boliviana de Futebol, aponta para o futuro do Always Ready e espera que a participação do clube na Copa Libertadores seja constante. E sempre nos 4.090 metros de El Alto. "Nosso projeto é ambicioso. Queremos seguir consolidando o Always Ready para que seja um dos maiores do futebol boliviano. Jogar um futebol rápido, dinâmico, veloz, dificultando para todos os adversários, sem importar tamanho ou nome. Os clubes terão de vir aqui e jogar."