Cinquenta anos do milésimo gol que Pelé não queria fazer

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Pelé é carregado após marcar seu gol 1000 (Pictorial Parade/Archive Photos/Getty Images)
Pelé é carregado após marcar seu gol 1000 (Pictorial Parade/Archive Photos/Getty Images)

Assim que o árbitro Manoel Amaro de Lima apontou o pênalti, Pelé recebeu a bola para cobrar. Nada mais natural. Mas pela primeira vez na carreira do Atleta do Século, ele queria passar a responsabilidade.

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“Ele começou a oferecer para os outros jogadores do Santos. Ofereceu para eu bater, para o Abel, para o Lima. Claro que ninguém aceitou. O mundo queria vê-lo cobrar. Não seria eu a estragar a festa”, afirma o ex-ponta direita Manoel Maria, amigo até hoje do então camisa 10. 

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A recusa fez com que a história acontecesse. Pelé bateu o pênalti, superou o goleiro Andrada, morto no último 4 de setembro, e marcou o milésimo gol da carreira. É talvez a penalidade máxima mais famosa da história do futebol.

A marca completa 50 anos neste 19 de novembro. 

Outros nomes do Santos naquela noite de 1969 no Maracanã, em jogo válido pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, confirmaram para o Yahoo Esportes a versão de Manoel Maria. Pelé não queria bater o pênalti.

“Ele veio me perguntar se eu queria. Imagina só se eu ia fazer isso!”, explica o ex-volante, lateral, meia e atacante Lima, apelidado não por acaso de Coringa da Vila. 

Em todos os campeonatos em que atuou como profissional, fosse por Santos, seleção brasileira ou New York Cosmos, Pelé sempre foi o batedor oficial de pênaltis. Mas por que justamente aquele, que poderia lhe dar (e deu) uma marca histórica, ele queria deixar passar?

“Difícil explicar isso. Gol é gol, não é? Mas por algum motivo, ele colocou na cabeça de que o milésimo não deveria ser de pênalti. Tinha com a bola rolando. Como se fosse diminuir a importância do momento, imagina só… Quase aconteceu no jogo anterior, em Salvador. Depois da partida o Pelé ficou lamentando por não ter acontecido. Seria do jeito que ele queria, em uma jogada normal”, afirma Clodoaldo.

Ele se refere ao empate em 1 a 1 na Fonte Nova, contra o Bahia, em 16 de novembro. Com o placar igualado, Pelé e Manoel Maria tabelaram durante o segundo tempo, o Rei do Futebol saiu de frente para o goleiro Jurandir, o driblou e tocou para o gol aberto.

“A gente já estava correndo para comemorar com ele. Todo mundo achou que era gol”, relembra o ponta.

Mas o zagueiro Nildo salvou em cima da linha e ouviu vaias das pessoas que estavam no estádio.

Os jogadores santistas relatam que antes da partida no Maracanã, Pelé não parecia especialmente ansioso. 

“O Andrada parecia mais nervoso que o Pelé”, declara, rindo, o ponta esquerda Edu, citando o goleiro argentino.

Uma das imagens mais marcantes do milésimo gol é o vascaíno inconformado, socando o gramado por não ter conseguido fazer a defesa. Ele não queria de forma alguma entrar para a história por causa de Pelé.

No final de tudo, o futebol foi generoso com Pelé. O gol saiu no estádio mais importante do País, para um público de 65 mil pessoas (na Fonte Nova haviam 35 mil) e no palco onde ele havia sido bicampeão mundial com o Santos (embora não tenha jogado, lesionado, a final de 1963).

Foi no campo reconstruído para a Copa do Mundo de 2014 que ele fez o gol que classificou o Brasil para o Mundial de 1970, quando a seleção seria tricampeã. O 1 a 0 sobre o Paraguai em 1969 registrou o recorde de público oficial do Maracanã: 183.341 pagantes.

“No final, foi melhor do que jeito que foi. Ele tinha de fazer o milésimo gol no maior estádio, com todo mundo assistindo. Teria de ser uma ocasião histórica, como aconteceu”, concorda Lima.

Enquanto Pelé comemorava o milésimo gol e o gramado era invadido por repórteres e fotógrafos, os jogadores dos dois times ficaram perfilados no meio-campo, reconhecendo o momento especial.

O camisa 10 chorou, celebrou e deu a histórica declaração em que pedia para as autoridades cuidarem das crianças do país. 

“Depois ele reconheceu que foi perfeito ter saído o pênalti. Deu aquele suspense para que todos pudessem assistir, sem perder a atenção, o milésimo gol. Se você pensar bem, tinha de ser de pênalti mesmo”, concorda Clodoaldo.

Mas houve algum jogador daquele Santos que pensou seriamente em aceitar a oferta de Pelé, bater o pênalti e adiar o milésimo gol?

“Eu quase aceitei. Pô, se o Rei não queria cobrar (risos)… Mas eu logo caí em mim e percebi que  não tinha como. A torcida iria me matar. Todo mundo querendo ver o gol mil e vai um moleque de 20 anos pegar a bola para bater? O momento era do Rei”, relembra Edu.

O Yahoo Esportes tentou falar com Pelé sobre o assunto, mas de acordo com seu assessor, ele não poderia dar declarações. 

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