Cigarro eletrônico | O que é e como ele pode ser prejudicial para sua saúde

O cigarro eletrônico não é uma novidade no Brasil. O dispositivo ganhou popularidade em meados de 2007, quando chegou às prateleiras dos Estados Unidos e foi regulamentado no Reino Unido.

Acontece que, recentemente, doenças pulmonares estão sendo associadas ao uso do cigarro eletrônico, através de pacientes que relataram usá-lo com frequência e, em casos mais extremos, esses problemas levaram a óbito. Afinal, o cigarro eletrônico é mocinho ou vilão?

A história por trás do cigarro eletrônico não é nova e data dos anos 60, quando Herbert Gilbert desenvolveu o primeiro mecanismo de vaporização de nicotina através de mecanismos elétricos e com uso de bateria. O experimento não foi lançado no mercado por falta de recursos e investimento, mas quarenta anos depois, em 2003, o projeto inicial foi revisado, aprimorado e lançado comercialmente pelas mãos do farmacêutico chinês Hon Lik.

Diferenças entre cigarro convencional e eletrônico

O cigarro convencional que conhecemos funciona à base da combustão, ou seja, o usuário precisa queimá-lo para que a fumaça seja produzida e possa ser inalada por ele ou por pessoas próximas, os famosos fumantes passivos. Ao ser acendido, o fogo que queima suas propriedades e produz uma fumaça altamente tóxica, que contém até 4 mil substâncias diferentes.

Entre as mais famosas, estão: monóxido de carbono (gás proveniente da queima do cigarro, que não é eliminado pelo corpo e diminui a capacidade das células vermelhas do sangue de transportar oxigênio), alcatrão (substância com efeito cancerígeno com mais de 3 mil compostos químicos) e a nicotina (princípio ativo do tabaco, que é responsável por dar ao usuário a sensação de prazer, mas também de dependência em curto prazo).

Cigarro eletrônico (à esquerda) e opção convencional (à direita) / Foto: Anvisa
Cigarro eletrônico (à esquerda) e opção convencional (à direita) / Foto: Anvisa

Já o cigarro eletrônico, por sua vez, não precisa da queima para funcionar, visto que seu mecanismo dispõe de uma bateria de lítio capaz de vaporizar o componente líquido que é inserido pelo usuário em um compartimento. Esse líquido é geralmente formado por glicerina, álcool, nicotina e acompanha essências — geralmente de frutas ou folhas frescas — que tornam sua inalação mais agradável.

Segundo pesquisadores da Universidade King's College, de Londres, em um levantamento feito em 2015 e publicado pela Public Health England (PHE), uma agência do Serviço de Saúde do Reino Unido (NHS), apesar do cigarro eletrônico não gerar uma fumaça tão nociva à saúde como acontece com o cigarro tradicional, a presença da nicotina líquida causa o mesmo efeito de dependência para o usuário que temos na versão convencional.

Exemplos de essências saborisadas para cigarros eletrônicos / Foto: Reprodução/Internet
Exemplos de essências saborisadas para cigarros eletrônicos / Foto: Reprodução/Internet

Neste mesmo relatório, o cigarro eletrônico é citado como uma alternativa ao adesivo e à goma de mascar à base de nicotina, indicados para pessoas em processo de tratamento de dependência química. O estudo prevê que o "e-cigarro" (abreviação para cigarro eletrônico) possa ser usado no futuro como uma recomendação válida e eficiente para saúde pública, após estudos que comprovem sua real eficiência.

“Atualmente, 80 mil pessoas morrem na Inglaterra a cada ano em consequência do tabaco. Se todos os fumantes passassem aos e-cigarros reduziríamos para quatro mil o número de mortes. Essa é nossa estimativa atual, mas o número poderia ser mais baixo ainda”, descreve Ann McNeill, autoria do relatório da Universidade King's College.

Cigarro eletrônico faz mal?

Assim como qualquer dispositivo de fumo, como cigarro convencional, charutos, cachimbos e até mesmo o narguilé, o cigarro eletrônico pode gerar impactos negativos à saúde. O problema é que não existem estudos ou pesquisas que mostram o cigarro eletrônico como o principal fator de risco ou de óbito, incluindo casos mais recentes que foram registrados em prontos-socorros dos Estados Unidos e associados ao uso prolongado deste dispositivo.

Segundo Alexandro Lucian, publicitário, empresário e criador do projeto Vapor Aqui — site com informações sobre a cultura do vape (termo usado para denominar a "vaporização" dos e-cigs —, há um aumento no consumo de substâncias "falsificadas" que são colocadas em cigarros e canetas eletrônicas. Esses líquidos carregam, segundo ele, uma quantidade maior de agentes psicotrópicos e óleos sintéticos, como o THC (tetrahidrocanabinol, componente psicoativo da maconha), que deixa a pessoa alterada e até inconsciente.

Em países onde o cigarro eletrônico é legalizado, como no Reino Unido, existe uma campanha de conscientização para que adeptos e ex-fumantes de tabaco façam uso consciente do dispositivo, que tem sua venda controlada.

O objetivo de regularizações semelhantes é controlar o consumo da nicotina e de agentes nocivos à saúde, e em alguns casos, há ainda a substituição da nicotina por miligramas do CBD (canabidiol) medicinal, que é uma propriedade ativa da Cannabis sativa, planta da maconha, que combate ansiedade e ajuda no tratamento de doenças genéticas, como o Parkinson.

O canabidiol é a propriedade medicinal da maconha, na imagem ele parece como um óleo / Foto:Growroom
O canabidiol é a propriedade medicinal da maconha, na imagem ele parece como um óleo / Foto:Growroom

Não há uma ligação direta e comprovada do cigarro eletrônico com mortes ou relatos de doenças pulmonares, problemas coronários ou cardíacos que se tornaram crescente nos Estados Unidos desde o início de 2019. O que tem acontecido é o uso inapropriado deste dispositivo para vaporização de substâncias ilícitas, como o óleo THC sintético, que pode causar inflamações no pulmão em curto prazo, resultando em falta de ar, dores pulmonares e náuseas frequentes.

Para Alexandro Lucian, o Vape não é o problema maior, mas sim as canecas vaporizadoras de THC, que são proibidas de serem comercializadas e que cumprem uma função similar ao do cigarro eletrônico. Em alguns desses dispositivos já foram encontrados até 1000 miligramas dessa substância altamente nociva.

O óleo de cannabis modificado, fornecido ilegalmente nos estados da Califórnia e do Colorado, foi o principal responsável pelas complicações de saúde que um jovem de 18 anos teve no início deste ano no NYU Winthrop Hospital em Mineola, Nova York. O jovem desenvolveu um quadro avançado de pneumonia lipoide, causada pela aspiração de partículas oleosas do canabidiol para dentro dos pulmões.

O paciente negou fazer uso de cigarros eletrônicos quando deu entrada no pronto-socorro do hospital, mas seu irmão encontrou uma caneta vaporizadora em sua mochila quando retornou para casa. O caso serviu como base para um estudo que está sendo conduzido pela Virginia Commonwealth University, que investiga os problemas relacionados à presença de óleos nocivos e compartilhamento dessas canetas "vaping" entre usuários.

Cigarro eletrônico e compartimentos onde os óleos são colocados
Cigarro eletrônico e compartimentos onde os óleos são colocados

Thomas Eissenberg, que conduz parte desse estudo, verificou que grande parte desses óleos não está descrita no rótulo do produto pelo fabricante e que já existe um mercado paralelo de drogas líquidas disponíveis para serem usadas em compartimentos de canetas eletrônicas, como Spice, K2, High Legal, Black Mamba e Cannabis Blends, que são misturas de ervas e químicos sintéticos que causam efeitos alucinógenos. Esses "blends de ervas" são diluídos no "juice" (ou essência) para serem vaporizadas.

Essas drogas, também são conhecidas como "maconha falsa" ou "maconha sintética", estiveram presentes em 6 a cada 8 diagnósticos de casos registrados em hospitais nos Estados Unidos, nos quais pacientes relataram problemas de saúde após o uso excessivo de canetas eletrônicas.

É seguro usar o cigarro eletrônico?

Saudável o cigarro eletrônico não é, mas ele pode ser uma alternativa menos nociva para aqueles que querem largar o vício no cigarro convencional e suas substâncias tóxicas. Ele ainda não teve sua eficiência real comprovada, mas especialistas acreditam que o dispositivo pode ser um caminho efetivo para o tratamento de dependentes quando devidamente regularizado.

Acontece que sua regulação é complicada e são poucos os países que conseguiram controlar o que os usuários injetam no compartimento de seus e-cigarros, como o Reino Unido. No caso dos Estados Unidos, apesar de seu uso ser legal, a falta de controle resultou na ascensão de um mercado paralelo de substâncias nocivas, que encontraram nos cigarros a vapor um caminho para sua proliferação.

Aqui no Brasil, o comércio de cigarro eletrônico é proibido, mas a lei não é clara quanto ao consumo do mesmo através de compra por importação ou pela internet. Se você não fuma ou nunca fumou, o melhor é se manter longe de qualquer tipo de cigarro.

Fonte: Canaltech

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