Christopher Nolan vai tentar salvar o cinema com Tenet. Mas que cinema?

Thiago Romariz
·3 minuto de leitura
Christopher Nolan dirige John David Washington no set de Tenet. Foto: Warner Bros.
Christopher Nolan dirige John David Washington no set de Tenet. Foto: Warner Bros.

Inglaterra, França e Espanha registram os primeiros sinais da segunda onda do coronavírus. Os três países foram acometidos por milhares de mortes, relaxaram as condições de isolamento e agora sugerem um retorno. O Brasil está perto das 100 mil mortes e há dias segue uma média de mil por dia. Qualquer número, porém, parece não assustar Tenet, o novo filme de Christopher Nolan, que chega aos cinemas selecionados ao redor do mundo em agosto. O motivo para essa pressa em lançar o filme? Difícil saber.

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Dono de um orçamento de US$ 200 milhões, o longa tem atores famosos, nomes conhecidos, mas nenhum chega perto da grandeza do diretor, que quieto no seu canto parece comandar os esforços para o lançamento na tela grande.

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Desde o primeiro adiamento, Tenet é tratado na indústria como o filme que, mesmo sem vacina ou recuo do vírus, faria as pessoas voltarem ao cinema. E daí surge a primeira possível resposta para a pressa: conseguir o selo de transformador cultural em dias tão difíceis.

Ainda que não haja uma autoridade sanitária sã que aconselhe a volta, Hollywood parece apostar as fichas no "salvador" Nolan – para que, com isso, ninguém lembre-se do absurdo que é incentivar as pessoas se juntarem durante uma pandemia. A memória ficará com a provável boa qualidade da obra, as discussões na internet e a felicidade momentânea trazida por um escapismo em tempos tão aflitivos. Não é tão diferente com o futebol, por exemplo, que voltou mesmo no meio de milhares de óbitos, com hospital de campanha ao lado do estádio, jogadores contaminados ou recorde de mortes.

À parte as (fortes) teorias que sugerem Tenet como sequência de A Origem, o vácuo de blockbuster deixado pela covid-19 deixará o filme como único do tipo e com grandes chances de protagonizar a temporada de prêmios. Se imaginarmos que A Origem, Dunkirk e até Interestelar ganharam muitas indicações, é inevitável apostar na presença do filme no Oscar.

Com tal feito em mãos, não só o prestígio entre os pares virá, como também uma nova oportunidade de um relançamento no início do ano que vem. No fim, é tudo pelo lucro, sabemos, mas até que ponto vale ir atrás disso?

Mesmo que aos poucos, até o sistema capitalista promove uma consciência social emergente para marcas, empresas e mercados. Quem não se põe contra racismo é perseguido nas redes, companhias com quadros desiguais são denunciadas e expostas, quem promove gasto de energia e não se preocupa com o meio ambiente também tem seus louros questionados. E por que o cinema (ou o futebol) não deveria ser também?

No fundo, o alvoroço em cima de Tenet é só mais um exemplo do egoísmo de toda uma geração em busca de satisfação própria, da realização de desejos pessoais acima do bem-estar comunitário. Hoje, Nolan é tido como um herói, mas pode ser que viva o suficiente para se tornar um vilão.

*Thiago Romariz é jornalista, professor, criador de conteúdo e atualmente head de conteúdo e PR do EBANX. Omelete, The Enemy, CCXP, RP1 Comunicação, Capitare, RedeTV, ESPN Brasil e Correio Braziliense são algumas das empresas no currículo. Em 2019, foi eleito pelo LinkedIn como um dos profissionais de destaque no Brasil no prêmio Top Voice.

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