Chile respira violência e saída para crise fica mais distante

Foto: Claudio Santana/Getty Images
Foto: Claudio Santana/Getty Images

Saques, incêndios e confrontos constantes por todo Chile entre manifestantes e uma polícia cansada e questionada elevam a tensão e enfraquecem o governo de Sebastián Piñera após seis semanas de protestos.

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Na noite desta quarta-feira, dezenas de manifestantes - a maioria jovens - invadiram o shopping Parque Arauco, um dos maiores e mais frequentados de Santiago.

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Alguns manifestantes roubaram extintores para apagar um incêndio em um dos pátios do setor onde estão as lojas de grife do shopping, no bairro de Las Condes.

Guardas e clientes do shopping se uniram para enfrentar os manifestantes, o que gerou brigas, segundo imagens divulgadas nas redes sociais.

Manifestantes acionaram extintores em meio aos gritos contra o governo, e tentaram entrar nas lojas, enquanto funcionários baixavam as portas metálicas.

Durante a noite de terça e a madrugada desta quarta (27) uma centena de "eventos graves", segundo o governo, foram registrados em várias cidades do país, com incêndios e ataques a ônibus, estações do metrô, escritórios de um jornal e um hotel tradicional em La Serena (norte), o que levou Piñera a advertir que "em muitos lugares a ordem pública foi quebrada".

"A violência está causando danos irreparáveis", acrescentou o presidente, em um pronunciamento no palácio do governo, na qual pediu ao Congresso para que sejam aprovadas leis para aumentar as sanções para aqueles que causam desordem pública, anunciando em seguida, que a partir da próxima segunda-feira, 2.500 novos policiais serão integrados ao trabalho de controle.

A nova noite de fúria afastou a tentativa do presidente de avançar em um plano de "reconstrução" do país, mergulhado desde 18 de outubro na pior crise social desde o retorno à democracia, em 1990.

Nenhuma medida social - como um aumento de 50% no valor básico da aposentadoria para todos os beneficiários em dois anos - nem o acordo político histórico para mudar a Constituição herdada da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) conseguiram baixar os níveis de tensão no país, onde 23 mortos, milhares de feridos e danos gigantescos no comércio, patrimônios históricos e edifícios públicos foram relatados desde o início dos protestos.

"Chegou a hora de dizer basta; o governo está fazendo seu trabalho com todos os instrumentos da democracia", alertou Piñera.

Cresce o vandalismo

Após 40 dias de protestos, o vandalismo ganhou novo impulso. Na cidade de La Serena, a cerca de 480 km de Santiago, homens encapuzados saquearam e queimaram o tradicional hotel Costa Real.

Na cidade portuária de San Antonio, na região de Valparaíso, ocorrem novas cenas de desordem. A sede do jornal local El Mercúrio de Valparaíso, o mais antigo do pais, foi incendiada.

Mais ao sul, em Concepción, uma grande manifestação - reunida no meio da greve de dois dias convocada pelo principal sindicato do Chile (CUT) - terminou com incidentes entre os encapuzados e a polícia.

Em Santiago, duas estações de metrô foram danificadas novamente, gerando problemas à rede ferroviária metropolitana, o primeiro alvo do início da revolta com mais de 70 estações danificadas.

No início do dia, o movimento "No + Tag" - que exige a redição nos preços do pedágio e a anistia nas dívidas dos usuários - voltou a ocupar as principais vias de acesso de Santiago.

Enquanto isso, o sindicato dos caminhoneiros alertou que, se os Poderes do Estado "não puderem garantir direitos básicos, como a livre circulação ... a democracia deixará de existir de fato".

O sindicato dos caminhoneiros ganhou relevância no colapso democrático de 1973, incentivando uma greve que complicou o governo do socialista Salvador Allende, derrubado naquele mesmo ano por Pinochet.

Polícia questionada e esgotada

Com a missão de manter a ordem pública, os Carabineros (a Polícia do Chile) vagam entre os questionamentos de organizações internacionais que alertam sobre violações "sérias" dos direitos humanos e o cansaço causado por mais de quarenta dias de árduos dias nas ruas.

"Os atos de violência que os Carabineros estão sofrendo, os confrontos com essa multidão de pessoas muito violentas que nunca experimentamos, tornam a ação complexa, somados ao cansaço e exaustão", que as tropas sentem, disse o porta-voz da corporação, Julio Santelices, à AFP.

Quatro das 23 mortes nos protestos são apontadas como de autoria dos militares -que patrulharam as ruas durante nove dias no início da crise-, e uma foi provocada por um membro dos Carabineros.

Milhares de pessoas ficaram feridas nesses confrontos, incluindo cerca 300 com lesões nos olhos causadas por fragmentos de balas não letais disparadas pelas forças de segurança.

Piñera anunciou no domingo que os Carabineros serão orientados por policiais da França e de outros países europeus, mas nesta quarta-feira os franceses informaram que não irão colaborar.

Uma reestruturação policial "exige um acordo político transversal que permita mudanças profundas no curto e no longo prazo, os Carabineros não poderão ter um dia seguinte sem grandes mudanças em sua estrutura", disse à AFP Lucia Dammert, professora da Universidade de Santiago.

Entrando numa nova etapa da crise, os mercados reagiram desvalorizando o peso, com o dólar atingindo uma alta histórica, sendo negociado por 812 pesos.

***Por Giovanna Fleitas, da AFP

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