Chile: entenda a delicada situação um mês depois do início dos protestos

(AP Photo/Esteban Felix)
(AP Photo/Esteban Felix)

Milhares de pessoas se concentraram em Santiago nesta segunda-feira (18) para comemorar um mês de um turbilhão de protestos no Chile que exigem uma melhor distribuição da riqueza e reformas sociais, diante dos "abusos" de um modelo econômico considerado próspero só para alguns.

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Uma concentração na praça Itália - centro nevrálgico dos protestos em Santiago - reuniu cerca de 4.000 pessoas, uma cifra distante do 1,2 milhão que ocupou o mesmo local em 25 de outubro, uma semana depois de iniciada uma convulsão social.

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Tudo começou em 18 de outubro com estudantes do ensino médio que se negavam a pagar o bilhete do metrô, dando origem à mais profunda crise social desde o retorno à democracia após a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), que mudou a face do país e modificou por completo a agenda do direitista Sebastián Piñera e do Parlamento.

O protesto foi realizado em um clima pacífico e festivo e se repetiu aos gritos de "O Chile despertou", transformado em lema dos manifestantes.

"Quis vir para lembrar um mês que mudou o Chile para sempre. Eu acho que o governo poderia fazer as mudanças que estão pedindo muito mais rápido e não estão fazendo como queremos. Não acredito em todas as ofertas de agenda social que (o presidente) Piñera fez", disse à AFP Susana, uma contadora de 51 anos.

Alguns encapuzados com escudos de latão protagonizaram incidentes isolados e foram dispersados por policiais da tropa de choque, que responderam com bombas de gás lacrimogênio nas imediações da Praça Itália.

O metrô de Santiago retomava a normalidade com a abertura de sete estações, uma delas em Puente Alto (sul de Santiago), que abriu depois de permanecer fechada por um mês e deixar praticamente sem transporte público os quase 800.000 habitantes deste bairro popular, e que depois de algumas horas voltou a ser fechada por protestos.

Após um mês de convulsão, o país se divide entre os que querem voltar à normalidade os que querem continuar pressionando por mudanças maiores.

Os funcionários públicos realizarão uma greve nacional nos próximos dois dias, anunciou a Central Única dos Trabalhadores (CUT), o maior sindicato do país.

- O Chile mudou -

Antes de 18 de outubro, os efeitos das mudanças climáticas no país e a organização da cúpula internacional sobre o clima (COP25) - posteriormente cancelada - dominavam a agenda, mas hoje se discute uma nova Constituição que substituirá a herdada pela ditadura, juntamente com uma profunda reforma ao sistema previdenciário, de saúde e educação, que preocupam os chilenos.

Depois de intensas negociações, o Congresso chileno aprovou na sexta-feira um acordo para convocar um plebiscito em abril do ano que vem para decidir mudar ou não a Constituição e escolher o mecanismo por meio do qual seria feita a mudança: uma assembleia Constituinte ou uma convenção mista, integrada em partes iguais por constituintes e congressistas.

"Nas últimas quatro semanas, o Chile mudou; os chilenos mudaram, o governo mudou; todos mudamos. O pacto social sob o qual tínhamos vivido rachou", disse Piñera, em mensagem ao país na noite de domingo, na qual celebrou o acordo político que permitiria a mudança constitucional.

Em 30 anos de democracia não prosperou nenhuma tentativa de reformar a Constituição redigida pela ditadura em 1980 e que o regime conseguiu aprovar em um questionado plebiscito, com dispositivos que asseguraram o poder dos grupos conservadores, inclusive uma vez restaurada da democracia.

Uma pesquisa publicada nesta segunda-feira pela consultoria privada Cadem revelou que 67% dos chilenos avaliam como bom ou muito bom o acordo constitucional a partir do qual se uniram os partidos do governo e da esquerda opositora, que até antes dos protestos não conseguiam ter um consenso sobre suas posições.

Neste cenário, o Congresso apressava a discussão para aumentar em 50% a pensão básica solidária, fixada hoje em 133 dólares, uma opção que para o governo não pode se concretizar de forma imediata.

"Não há dinheiro. Quero ser responsável e muito claro em dizê-lo. Isso significa um bilhão de dólares que o Chile não tem (...) Não estamos em condições de ter acesso a isto", afirmou o ministro da Fazenda, Ignacio Briones.

- Violento despertar -

Foi um despertar drástico para um país considerado um dos mais estáveis da América Latina e com um modelo econômico elogiado: 30 dias de protestos que resultaram em 22 mortos, 79 estações do metrô de Santiago atacadas - algumas completamente incendiadas - e quase 15.000 detidos no país.

No que constitui uma marca indelével dessas manifestações, mais de 200 pessoas sofreram lesões oculares graves após serem atingidas por projéteis de chumbo disparados pela Polícia.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) enviou uma equipe técnica ao Chile, que vai recolher informações preliminares sobre denúncias de violações dos direitos humanos cometidas por agentes durante as manifestações.

"São dias em que nós realizamos um amplo processo de escuta", disse Paulo Abrão, secretário-executivo da CIDH.

Um balanço policial detalhou nesta segunda que desde 18 de outubro foram contabilizados mais de 15.000 detidos, 3.500 deles por saques registrados em todo o país.

A rede americana Walmart apresentou uma série de ações judiciais contra o Estado por ataques a suas lojas: 128 saqueadas, 34 incendiadas e 17 totalmente destruídas.

"Nunca tínhamos visto esses níveis de violência na democracia. Agradecemos o trabalho dos Carabineros, mas abusos não serão tolerados", disse a porta-voz oficial do governo, Karla Rubilar.

Da AFP

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