Chapecoense e o copo meio cheio

Por Rosa SULLEIRO
(Janeiro) Alan Ruschel (d) brinca com Wellington Paulista após um treino em Chapecó

Alan Ruschel diz que ouvir o amigo Jackson Follmann celebrar a vida mesmo tendo perdido uma perna o fez sair do impacto do acidente aéreo sofrido, mas, para Neto, não houve melhor terapia do que voltar de muletas ao campo.

Como os jogadores, a Chapecoense poderia ter desabado para sempre, mas escolheu outro caminho.

Na tarde desta quinta-feira chuvosa, o Verdão do Oeste vai receber o Lanús, em sua primeira partida em casa pela Libertadores. Até pouco tempo atrás, um luxo reservado a outros times da região sul do Brasil, que nunca vai esquecer a terrível noite de 28 de novembro, mas que se nega a ficar estagnado no passado.

Superada a paralisia inicial, o clube se refugiou em construir um futuro que não escolheu, mas decidiu viver à fundo. A outra escolha era se render, mas isso nunca foi uma opção.

Assim conta Alan Ruschel, um dos seis sobreviventes do acidente aéreo que chocou o mundo do futebol no fim do ano passado. O avião que levava a delegação da equipe catarinense caiu nas montanhas próximo à Medellín. Setenta e uma pessoas morreram, a maioria delas atletas, técnicos, jornalistas e membros do clube, que sempre funcionou como uma família.

"Quando fiquei sabendo de tudo o que aconteceu, da gravidade da situação, o que eu queria realmente era só ficar vivo e poder andar. Eu sabia que tinha feito uma cirurgia muito complicada na coluna, então a minha vontade era primeiro voltar a andar, depois era voltar a jogar", contou à AFP na Arena Condá.

- A perna pela vida -

O zagueiro gaúcho passou 18 dias internado e as graves lesões preocuparam o atleta sobre sua mobilidade. Apesar de vencer a batalha, a imagem frágil, de um jovem consumido depois de perder 13 quilos, voltou a comover o mundo no dia em que recebeu alta, já em Chapecó.

Mas aquele rapaz machucado e com o olhar perdido parece ter ficado para trás. Na véspera da partida contra a Lanús, o jogador veste o uniforme do Furacão e esbanja sorrisos.

Três meses depois, centenas de horas de trabalho físico e mental, sete quilos a mais e a revelação que demonstra o motivo que separa as duas imagens de Ruschel.

"O que me motivou a mais a reagir mesmo também teve a ver com Follmann. A partir do momento em que eu soube que ele perdeu a perna, eu fiquei meio aéreo. Minha esposa falou para mim: 'você precisa reagir porque o Follmann perdeu a perna dele e está cantando, está celebrando a vida porque ele está vivo'. Ele falou que daria a perna dele pela vida e é o que ele está fazendo", afirmou o zagueiro, enquanto sorria ao ver o amigo praticar idiomas com os jornalistas estrangeiros.

Neto - terceiro jogador sobrevivente - brinca com eles e responde tranquilo à expectativa de sua milagrosa história, que atrai as atenções de todo o mundo. No início do treino, os zagueiros deram voltas correndo no gramado e acompanharam o resto da preparação com Follman, à beira do campo.

Os três vão retomar os exercícios de reabilitação na quinta-feira, um compromisso diário com a dor dos novos corpos, que estão aprendendo a viver outra vez. No caso dos zagueiros, o objetivo é voltar o quanto antes ao campo, enquanto Follmann decide seu futuro, mas sempre pensando em continuar como atleta.

- Sempre à frente -

Marcados para sempre pela tragédia, a dura luta dos sobreviventes para seguir adiante se converteu num símbolo de um clube que prefere sempre ver o copo meio cheio.

Existem sombras, momentos de recaída, dúvidas e fantasmas, mas ninguém que falar sobre isso. Apenas o futuro interessa.

"Os três representam muito a superação. Só de vê-los fazendo exercícios faz com que a gente veja que toda a dificuldade na vida pode se superada", afirmou orgulhosamente o técnico Vagner Mancini.

"Contra a Lanús vamos ter uma grande dificuldade, mas que pode ser superada com determinação, vontade e garra. É o que pede a Libertadores e o que transmitem esses três atletas", acrescentou.

Todos vão assistir ao jogo da arquibancada, equilibrando a profunda dor das ausências que voltarão a ser sentidas esta noite, na Arena Condá.

"Eu não coloco prazo, mas acredito que em 60 a 90 dias vou poder estar ajudando. Mas tenho que respeitar o meu corpo, o que dizem os fisioterapeutas, os médicos. Se dependesse só de mim, já queria estar jogando amanhã", afirmou Ruschel, sorridente.