Chama olímpica chegou ao Japão cercada de dúvidas

Por Ursula HYZY
AFP
Tadahiro Nomura e Saori Yoshida exibem a chama olímpica ao chegar ao Japão em 20 de março de 2020
Tadahiro Nomura e Saori Yoshida exibem a chama olímpica ao chegar ao Japão em 20 de março de 2020

A chama olímpica chegou ao Japão nesta sexta-feira em meio a uma recepção discreta, que foi drasticamente reduzida devido à pandemia que levantou questões sobre se os Jogos de Tóquio-2020 poderão afinal ser realizados conforme programado.

A chama aterrissou na Base Aérea de Matsushima, na província japonesa de Miyagi, escolhida como parte dos "Jogos Olímpicos de Recuperação" para mostrar o renascimento da região após o terremoto, tsunami e acidente nuclear de 2011.

Os ex-atletas japoneses Saori Yoshida e Tadahiro Nomura receberam a chama e a conduziram através de uma guarda de honra a um caldeirão em forma de flor de cerejeira em um palco diante de convidados selecionados.

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No entanto, cerca de 200 crianças de escolas locais, que iriam acolher a chama, foram mantidas afastadas, como parte do que os organizadores chamaram de decisão "dolorosa" de reduzir os eventos enquanto o mundo luta contra a pandemia do Covid-19.

"Isso nos entristece muito", havia admitido na terça-feira Toshiro Muto, diretor-executivo do Comitê Organizador de Tóquio 2020, se resignando a anunciar medidas para limitar a propagação do coronavírus durante a viagem da chama por todo o país.

Esse fogo, símbolo da união da humanidade em torno do espírito olímpico, foi aceso sem a presença do público no dia 12 de março nas ruínas de Olímpia, na Grécia. Durante sua curta jornada em solo grego, foi decidido interromper o revezamento devido ao alto fluxo de pessoas, também como uma medida diante da pandemia.

Surgida na China em dezembro, a doença causou quase 9.000 mortes em todo o mundo, forçando o confinamento em países inteiros, enquanto disparam os temores sobre os terríveis efeitos na economia mundial.

Iniciando sua jornada por Tohoku (na região nordeste), a chama devia simbolizar a reconstrução das áreas atingidas pelo gigantesco tsunami de 11 de março de 2011, que também causou a catástrofe nuclear de Fukushima.

- Cerimônias canceladas -

Para Muto, o revezamento é "o evento mais importante antes dos Jogos" e deve ocorrer "aconteça o que acontecer", e para isso serão tomadas medidas de precaução.

No dia 26 de março, haverá uma grande partida da turnê, sem espectadores, na região de Fukushima. Será a partir do J-Village, um grande complexo esportivo transformado por alguns anos na sede dos trabalhadores encarregados da segurança e da readequação da devastada usina nuclear.

Não haverá espectadores nas saídas e chegadas de cada etapa do revezamento. Nem as cerimônias de recepção dos governos locais e as temperaturas de cada portador da chama serão tomadas.

Os espectadores poderão ver os corredores do revezamento na beira da estrada, mas foram convidados a não ir caso apresentem algum sinal mínimo da doença.

"Evite formar multidões", defendem os organizadores no Japão, um país com 900 pessoas infectadas pelo coronavírus, com 31 mortes até agora.

A 10.000 quilômetros, em uma Europa que se tornou o atual epicentro da pandemia, a Grécia entregou a chama ao Japão nesta quinta-feira, no estádio do Panathinaikos, em Atenas, sem público.

Foi Naoko Imoto, nadadora japonesa que participou dos Jogos de Atlanta-1996, quem recebeu simbolicamente a tocha.

Os organizadores japoneses, diante da impossibilidade de viajar para a Europa, recorreram a ela na última hora, já que Naoko mora na Grécia.

- Preocupação crescente -

A chama olímpica deve percorrer todas as regiões do arquipélago japonês até 24 de julho, data prevista para a abertura da Olimpíada em Tóquio.

Mas para muitos, a incerteza sobre o que acontecerá com o evento não para de crescer.

O calendário esportivo está passando por constantes cancelamentos e adiamentos. Entre os grandes eventos que tiveram que mudar de data, na terça-feira desta semana foi decidido o adiamento para 2021 de duas grandes competições do futebol: a Eurocopa e a Copa América.

O torneio de tênis de Roland Garros passou de suas datas habituais (em maio e junho) para setembro e outubro.

Na terça-feira, o Comitê Olímpico Internacional (COI) considerou que agora não havia necessidade de tomar "decisões radicais".

Muitos atletas não hesitaram em manifestar sua preocupação.

"O COI nos pede que continuemos a pôr em risco nossa saúde, a de nossas famílias e a do povo, apenas para treinar todos os dias?", perguntou o saltador com vara grego Ekaterini Stefanidi, que participou nesta quinta-feira da cerimônia de entrega da tocha aos japoneses.

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