Centenário, Jair Rosa Pinto inspirou nome de Bolsonaro

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***ARQUIVO*** SAO PAULO - SP - BR, 17-01-2019: Ficha do jogador Jair Rosa Pinto.  (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)
***ARQUIVO*** SAO PAULO - SP - BR, 17-01-2019: Ficha do jogador Jair Rosa Pinto. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nos últimos anos de vida, Jair Rosa Pinto gostava de ficar em casa, no bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Quando questionado do motivo para não querer mais estar envolvido com o futebol, dizia que o mundo da bola tinha muita política. Estava cansado daquilo.

Nascido há exatos 100 anos, o craque de Vasco, Palmeiras, Santos (entre outros clubes) e seleção brasileira morreu aos 85, em 28 de julho de 2005. Quis o destino que nos últimos tempos ele seja mais lembrado por causa da política, a mesma sobre a qual afirmou estar farto. A história já é bastante conhecida.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem este primeiro nome por causa de um dos maiores meio-campistas do futebol nacional.

"Nos treinos, quando ele ia cobrar faltas, tinha jogador que não queria ficar na barreira de jeito nenhum. Acontecia de ele bater sem barreira porque ninguém desejava o risco de levar a bolada", afirma Pepe, 86, ponta esquerda histórico do Santos e segundo maior artilheiro do clube da Vila Belmiro, com 403 gols.

Eles foram companheiros em 1956, quando o técnico santista Luis Alonso Peres, o Lula, percebeu que aquele elenco de garotos precisava de um líder. O receio dos outros atletas era por causa do chute forte do camisa 10.

A potência impressionava os observadores porque Jair media apenas 1,68 m e tinha as pernas finas. A força no chute o fez ser apelidado de "Coice de Mula".

Pepe lembra ter aprendido a arrematar com efeito graças aos conselhos do veterano, que odiava ser chamado de Jair da Rosa Pinto. Ele morreu contrariado com isso porque mesmo naquela época, assim como hoje, já era chamado assim, com duas letras indevidas ("da") que entraram no meio do nome.

"Todos nós admirávamos muito o Jair. Ele não era de falar muito mas, quando falava, todos ouviam. O Pelé mesmo aprendeu muito com ele", diz o ponta direita Dorval, 86, na época com 21 anos.

Edson Arantes do Nascimento tinha 16 e havia chegado meses antes à Vila Belmiro para defender o Santos.

A imagem de liderança é a mesma que ele deixou nos outros clubes ou na seleção brasileira. Mesmo que fosse discreto, calado até.

"Ele não era de muita conversa. Ficava mais quieto. Mas era um bom amigo, um bom companheiro", se recordou o goleiro palmeirense Oberdan Cattani (1919-2014).

Jair não ficou de boca fechada na final do Campeonato Paulista de 1950. Indignado com a atuação dos companheiros de Palmeiras na derrota parcial para o São Paulo por 1 a 0, deu-lhes uma bronca no intervalo que ficou na memória de todos os presentes.

Na etapa final, marcaram diante dos rivais e o empate em 1 a 1 deu o título ao clube do Palestra Itália.

Ser líder discreto não se encaixa na descrição do presidente que herdou seu nome. Segundo Clóvis Saint-Clair, no livro "Bolsonaro: o Homem que Peitou o Exército e Desafia a Democracia", o nome Jair Messias Bolsonaro foi a junção de vontades do pai Percy Geraldo Bolsonaro e da mãe, Olinda Benturi Bolsonaro.

Ela queria Messias para representar o milagre do nascimento. Ele, palmeirense, escolheu Jair, meia do time paulista. E o atual presidente do país nasceu no mesmo dia do ídolo paterno, 21 de março, mas 34 anos depois, em 1955.

Desde sua eleição para a presidência, em 2018, Bolsonaro tem aparecido vestido com a camisa de vários times nacionais, às vezes modelos piratas.

Palmeirense declarado, levantou com os jogadores alviverdes a taça de campeão brasileiro daquele ano. Tem usado o futebol como arma para fustigar a Rede Globo, empresa que considera sua inimiga. Apresentou Medida Provisória para mudar as regras dos direitos de transmissão e atrapalhar os negócios da emissora. A proposta caducou sem ser votada pelo Congresso Nacional.

Na Copa América de 2019, Bolsonaro entrou em campo na semifinal do torneio, no Mineirão, diante da Argentina, e na decisão, contra o Peru, no Maracanã. A presença teve aprovação da maioria dos jogadores da seleção, mas encontrou contrariedade no técnico Tite.

Jair Bolsonaro também segurou o troféu continental e no mesmo estádio em que Jair Rosa Pinto sofreu sua maior decepção na carreira. O meia era titular da equipe brasileira em 1950 e atuou no que ficou conhecido como Maracanazo: a traumática derrota no jogo final da Copa do Mundo daquele ano, de virada, para o Uruguai. Ao Brasil, bastava o empate com os uruguaios para a conquista do título.

"Quando ele chegou ao Santos, a gente sabia que estava ali um professor. Todo mundo lembrava que ele tinha jogado com a seleção na Copa de 1950. Mas ele não comentava muito sobre isso", completa Pepe, que seria depois duas vezes campeão mundial pelo Brasil (1958 e 1962) e pelo Santos (1962 e 1963).

Jair, o jogador, se aposentou aos 42 anos, em 1963. A Ponte Preta foi seu último clube na carreira de atleta. Teve trabalhos esporádicos como técnico até meados da década de 1970, quando se cansou de ter de fazer política, algo que faria do outro Jair presidente da República.

Voltou para o Rio de Janeiro, mesma cidade onde começou a carreira profissional no Madureira, em 1938, quando formou trio ofensivo com Lelé e Isaías, que foi apelidado de "os três patetas", por causa do sucesso dos filmes em preto e branco do trio de comediantes Moe, Larry e Curly.