Centenário e longe da Série A, Cruzeiro celebra seu passado

FERNANDA CANOFRE
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BELO HORIZONTE, MG (FOLHAPRESS) - Pouco mais de um ano após ser inaugurado, o estádio Mineirão, em Belo Horizonte, virou cenário de um jogo histórico. No dia 30 de novembro de 1966, o Cruzeiro, campeão mineiro, atropelou o Santos de Pelé com uma goleada por 6 a 2. A reportagem do jornal Folha de S.Paulo, no dia seguinte, descreveu a partida dos mineiros com um primeiro tempo perfeito, em que a equipe não apresentou pontos fracos e funcionou como uma máquina de jogar futebol. No jogo de volta, dia 7 de dezembro, no Pacaembu, apesar de o Santos largar com dois gols à frente, o Cruzeiro conseguiu a virada e venceu por 3 a 2, interrompendo o ciclo de cinco anos de vitórias na Taça Brasil do time paulista. Embora a história do Cruzeiro já tivesse 45 anos --o Palestra Itália, sua origem, fora criado pela colônia italiana na capital mineira em 2 de janeiro de 1921 e trocou de nome nos anos 1940 devido à posição do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial--, foi o título conquistado por um time de jovens que colocou a equipe no cenário nacional e ajudou a expandir de vez os horizontes do futebol brasileiro para além do eixo Rio-São Paulo. As memórias daqueles dias e de mais três títulos brasileiros, duas Libertadores e seis da Copa do Brasil, entre outros troféus, embalam a comemoração dos 100 anos do clube, neste sábado (2). Um evento no Mineirão a partir das 19h21 reunirá ídolos do passado, atletas do presente e terá transmissão ao vivo nas redes sociais. A festa, porém, será contida devido à pandemia e à situação do time: praticamente sem chances de voltar à Série A em 2021, um ano depois do primeiro rebaixamento de sua história, em meio a uma crise dentro e fora de campo. Com o empate contra o Cuiabá no último jogo antes do centenário, na terça-feira (29), as chances de a equipe treinada por Luiz Felipe Scolari subir para a primeira divisão, segundo cálculo do Departamento de Matemática da UFMG, são de menos de 1%. Dois dos craques em campo no icônico campeonato de 1966, Tostão e Dirceu Lopes seguem como os maiores artilheiros celestes --Tostão com 245 gols, Dirceu com 228, segundo o clube. "O futebol mineiro, assim como o gaúcho, era um futebol caseiro", relata Dirceu, que marcou três vezes na goleada no Mineirão e uma no jogo de volta. "Esse título mudou tudo, despertou a curiosidade, e o Brasil inteiro queria conhecer o Cruzeiro." O entrosamento entre ele e Tostão marcou época. "Eles tinham um entendimento absurdo. O Tostão mais gênio, de inteligência tática, o Dirceu mais instinto, aquela coisa garrinchiana", diz o jornalista Cláudio Arreguy, autor de "Os dez mais do Cruzeiro" (Maquinária, 2010). "Nos primeiros treinos, parecia que a gente jogava juntos há mil anos. As coisas que me faltavam, o Dirceu tinha de sobra, e as coisas que ele não tinha, eu tinha de sobra", lembra Tostão. "A verdade é que nós dois fomos perfeitos um para o outro. Porque o Tostão foi o jogador mais inteligente que eu conheci na minha vida, uma inteligência fora do normal, e eu era velocidade. Um completava o outro", recorda Dirceu. Os dois ídolos, que viveram a primeira grande era de títulos do clube, usam a palavra tristeza para descrever o cenário atual. "Não foi só um momento ruim do time, foi um momento péssimo do clube. Juntou as duas coisas, que são graves. O Cruzeiro tem que resolver seus graves problemas financeiros, não basta voltar à Série A. Serve de alerta para outros clubes brasileiros que estão mal financeiramente e no campo", diz Tostão. "Não estou preocupado se o Cruzeiro não voltar para Série A. Claro que torço para que volte, mas se não voltar, vai ter o tempo de respirar", avalia Dirceu Lopes, convidado pela atual gestão para assumir um trabalho junto às categorias de base. Em novembro, a Justiça aceitou denúncia do Ministério Público de Minas Gerais contra nove pessoas, entre dirigentes e empresários, por crimes como lavagem de dinheiro, apropriação indébita, falsidade ideológica e organização criminosa. Segundo a Promotoria, o prejuízo causado foi de cerca de R$ 6,5 milhões. O atual presidente do clube, Sérgio Santos Rodrigues, diz que a dívida que girava em torno de R$ 950 milhões quando assumiu foi reduzida, e a expectativa era encerrar 2020 entre R$ 700 e 750 milhões. O montante é um acumulado de dívidas tributárias, com atletas, bancos, empréstimos e passivo trabalhista. "Infelizmente, a gente colhe o que planta", diz o presidente, em referência às gestões anteriores. "Chegamos a praticamente tudo o que queria. Desportivamente, claro que ainda não, porque óbvio que o sonho de qualquer um é que estivéssemos em primeiro, classificados para a Série A." O Cruzeiro largou no campeonato com seis pontos negativos, devido a uma punição imposta pela Fifa por dívida em contratação de jogador. "Pesa para caramba. Você não tem margem de erro e tem que ganhar, ganhar e ganhar", afirmou o goleiro Fábio a jornalistas após o último empate, que praticamente sacramentou a permanência na segunda divisão. O jogador de 40 anos é quem mais vestiu a camisa do Cruzeiro, com 917 jogos na conta. "Independente de onde o Cruzeiro vai estar, eu vou estar junto", afirmou. Em outubro, Felipão, que treinou o clube antes de assumir a seleção brasileira que se tornaria pentacampeã mundial em 2002, voltou para o atual desafio. O acordo prevê, além da função de técnico, ajuda na busca por parcerias e no trabalho de base. O vínculo vai até o final de 2022. Após o último empate, Felipão disse que assumiu para tirar o Cruzeiro da zona de rebaixamento à série C (meta ainda não consumada) e fez uma análise crítica da trajetória do clube em 2020, sob comando de outros técnicos. "Não sai da Série C só com camisa, sai com jogadores", afirmou. "Tudo isso é uma questão que temos de estudar para o ano que vem." "O Cruzeiro continua respeitado como um grande do futebol brasileiro, mas precisa resolver as coisas e não vai resolver rapidamente. É uma incógnita o que vem pela frente", completa Tostão.