Censura, moralismo e abstinência: o que falta para o Brasil se transformar em uma teocracia?

Cena do filme Fahrenheit 451. Foto: Reprodução
Cena do filme Fahrenheit 451. Foto: Reprodução

Quem abriu os jornais na manhã desta quinta-feira (9) poderia imaginar que na véspera dormiu no Brasil e acordou em alguma teocracia distante no tempo e no espaço. Ou que finalmente chegou aos anos 20 - do século passado, no caso, um traiçoeiro lapso entre duas grandes guerras.

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Numa página nobre de artigos e debates, um deputado que dias atrás chamava os bailes funks de “versão moderna de Sodoma e Gomorra” e fazia troça das nove pessoas pisoteadas em uma ação policial em Paraisópolis atacava o “hedonismo militante que prega o prazer irresponsável, diariamente metralhado em suas mentes na programação da TV Globo”. O artigo defendia a campanha “Eu decidi esperar”, que prega abstinência sexual entre jovens, que o governo federal está prestes a colocar na rua.

Na mesma edição, o leitor ficava sabendo detalhes da decisão de um desembargador do Rio que determinou a retirada do ar do episódio de Natal do Porta dos Fundos, como pediam os neointegralistas que jogaram bombas na sede da produtora como forma de protesto.

Segundo o magistrado, a suspenção (assim mesmo, com ç) era adequada e benéfica não só para a comunidade cristã, mas para a sociedade brasileira, majoritariamente cristã”.

O magistrado só não falou na necessidade de “justiçar os anseios de todo o povo brasileiro contra a atitude blasfema, burguesa e antipatriótica” do canal Porta dos Fundos porque isso os autores do atentado já fizeram em sua manifestação. Ou terrorismo no Brasil só se manifesta quando alguém leva vinagre na ação?

Não se sabe exatamente quem exatamente foi impedido de exercer sua fé ou frequentar a igreja após a veiculação do especial de Natal na Netflix, mas os ventos não estão para coerência. 

Em 2017, o mesmo desembargador relatou um processo no qual o hoje presidente Jair Bolsonaro havia sido condenado a pagar indenização por dano moral em ação movido por grupos de defesa dos direitos LGBT que o acusavam de fazer declarações homofóbicas e racistas. O magistrado livrou o então deputado sob o argumento de que, em uma democracia, não poderia promover “censura”.

Com 12,4 milhões de desempregados, metade da população sem acesso a esgoto, aumento de 66% no número de moradores de rua apenas em São Paulo, maior cidade do país, e explosão de casos de feminicídio e crimes movidos por homofobia, setores do Legislativo, do Executivo e do Judiciário elegeram a abstinência (sexual e de expressão) como motor para transformar o país em uma potência moral.

Outras moralidades, como uso de dinheiro público para abrilhantar bocas privadas, manutenção de ministros investigados por uso de candidatos laranja, rachadinhas e outras estratégias em favor das famílias (de bem, claro), não entram na conta.

Em tempos de miséria intelectual, o moralismo é o recurso de quem não tem nada melhor a apresentar se não nomear inimigos e combater moinhos de vento para ganhar claque.

O recurso é antigo, e a essa altura do século passado levava líderes autoritários a vestirem a fantasia de moralistas fanáticos para atacar condutas desviantes, “excessos” nas condutas humanas e a chamada arte degenerada. Em nome desta moral, produziram a guerra e a destruição.

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