O que a censura aos dados da meningite na ditadura ensina sobre os dias atuais?

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No livro “Leleco - Peça ausente”, biografia do jornalista Haroldo Cerqueira Lima que acaba de ser disponibilizado em versão eBook no site da Amazon, os autores Alexandre Costa Nascimento e Eduardo Mariot contam como uma epidemia de meningite em 1974 atrasou os planos de distensão do regime militar e o fim da censura prometidos pelo governo Geisel.

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Em junho daquele ano, sob o pretexto de “não gerar pânico entre a população”, a Ordem de Censura 104/74 determinou que os jornais não deveriam veicular qualquer notícia sobre a doença -- uma infecção que atinge as membranas que recobrem o cérebro (as meninges) e afeta o transporte de oxigênio para as células. 

O documento dizia:

“De ordem superior, atendendo solicitação em virtude de fatos superveniente, fica proibida a divulgação, através dos meios de comunicação social, de entrevista concedida pelo Sr. Ministro da Saúde sobre Meningite, e qualquer divulgação de dados e gráficos sobre freqüência de meningite, notícias sobre quantidade e datas de chegada de vacinas importadas, bem como referências necessidade de previsão (sic). Divulgação de matéria sensacionalista, ou exploração tendenciosa através da imprensa de qualquer assunto relativo a meningite fica igualmente proibido.” 

Parte das vítimas, vale dizer, eram soldados em postos militares.

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Em um dos capítulos do livro, Cerqueira Lima relembra a pressão do governo sobre as Redações para abafar as notícias da epidemia.

Apesar da proibição, a Folha de S.Paulo, por exemplo, furou o cerco ao publicar, em sua primeira página, um anúncio publicitário agradecendo ao governo dos EUA pela doação de diversas doses de vacina contra a meningite.

A publicação levou o então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, a acionar o chefe da Polícia Federal de São Paulo, coronel Lepianni, que intimou o editor Ruy Lopes a depor. 

Eram assim que as coisas funcionavam na época.

O esforço da ditadura em abafar os dados da meningite foi lembrado ao longo da semana após as diversas manobras ensaiadas pelo governo Bolsonaro para dificultar a divulgação dos números relativos ao coronavírus. “Acabou matéria no Jornal Nacional”, debochou o presidente.

No blog Acervo, do jornal O Globo, o repórter William Helal Filho lembrou que a epidemia de meningite começou em Santo Amaro, na Grande São Paulo, e teve um início insidioso até explodir, causando 2.500 mortes só na capital paulista em apenas um ano. Mesmo diante do aumento de casos, e com uma letalidade que chegava a 14% dos infectados, os números eram escondidos da população enquanto o regime negava a existência da epidemia.

A gravidade do problema, lembrou Helal Filho, só foi reconhecida pelos generais quando a doença chegou aos bairros centrais. 

O problema foi assim resumido pela professora Rita Barradas Barata, autora do livro “Meningite: uma doença sob censura?” e que atuou na linha de frente do combate à epidemia: 

“Sem conhecimento do surto, a população não sabia o que fazer. As famílias demoravam para levar as crianças ao hospital. Além disso, como nem os médicos estavam informados, muitos não consideravam a meningite num primeiro exame do paciente. A falta de comunicação retarda o tratamento, o que no caso da meningite pode ser mortal”.

Mais de 45 anos depois, a história só não se repete porque os mecanismos de divulgação, e consequentemente de resistência, são outros -- apesar de episódios vergonhosos promovidos pelo governo federal de tutelar a área médica do Ministério da Saúde, sem ministro com experiência na área há quase um mês, e da tentativa de mudar a regra, e os horários, da divulgação dos números.

Como definiu o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta fritado no meio da pandemia, “não informar significa o Estado ser mais nocivo que a doença, mais nocivo do que o vírus”.

Contra isso alguns veículos de imprensa criaram um consórcio para compartilhar dados mais seguros sobre a pandemia.

No caso do regime militar, o modus operandi seguiu produzindo estragos ao fim da epidemia, como mostram Nascimento e Mariot no livro citado no primeiro parágrafo. 

No ano seguinte, em outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog morreu sob custódia do Estado nos porões do DOI-Codi em São Paulo. Coube ao jornalismo profissional contestar a versão de suicídio apresentada pelos militares. “Não se precisa ser um Sherlock para perceber sua inconsistência”, escreveu Alberto Dines, na Folha.

Os autores lembram que na semana da Pátria de 1977, o cronista Lourenço Diaféria publicou o artigo intitulado “Herói. Morto. Nós.”, em que se referia a Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro, como sendo apenas uma estátua.

A reação do ministro do Exército, Sylvio Frota, foi imediata. No dia seguinte, os leitores do jornal souberam, por uma nota da Redação, que a crônica de Diaféria deixou de ser publicada porque o cronista havia sido preso na véspera.

Em um regime autoritário, primeiro tenta-se abafar a mensagem. Depois, o mensageiro.

Nas contas oficiais, a epidemia de meningite atingiu 18 mil pessoas e matou cerca de 200. Na prática, foram muito mais.

Se dependesse da versão oficial, coronavírus hoje seria chamado de resfriadinho. Teria atingido “apenas” idosos e doentes. E os motivos para a morte teriam sido as doenças pré-existentes, nunca o vírus que faz explodir os casos de internação por insuficiência respiratória no país. É nesses hospitais que estão as pistas do tamanho da tragédia -- e uma ideia um pouco mais precisa do que fazer para combatê-la.

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