Isolado e pressionado, Rogério Ceni se vê na berlinda no comando do Cruzeiro

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Sem respaldo e sem clima no clube, Rogério Ceni deve ter curta passagem à frente da Raposa (Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)
Sem respaldo e sem clima no clube, Rogério Ceni deve ter curta passagem à frente da Raposa (Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)

Por Afonso Ribeiro (@afonsoribeiro_)

Cinco jogos sem vencer, salários atrasados, problemas internos, proximidade da zona de rebaixamento... A lista de problemas do Cruzeiro em 2019 parece não ter fim e pode ganhar outro ingrediente em breve: uma nova troca no comando técnico. Sem apoio de dirigentes e jogadores e cobrado pelos resultados ruins, Rogério Ceni já vê próximo do fim o vínculo com a Raposa, como apurou o Yahoo Esportes.

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Na última terça-feira, a Raposa realizou o último treino antes de enfrentar o Ceará na sede do Fortaleza, clube comandado pelo treinador por um ano e nove meses e de onde se despediu de forma emocionada na primeira quinzena de agosto. Tanto o ex-goleiro quanto os membros de sua comissão técnica – os auxiliares Charles Hembert e Nelson Simões e o preparador físico Danilo Augusto – conversaram com dirigentes, funcionários e jogadores do Tricolor antes e depois da atividade e falaram sobre a situação do clube mineiro.

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O Yahoo Esportes apurou que o quarteto admite a possibilidade de deixar o time celeste ainda durante o Campeonato Brasileiro em caso de novos tropeços – a diretoria, inclusive, chegou a sugerir um pedido de demissão. Mas os resultados não seriam o fator principal. A relação entre Ceni e o elenco azedou cedo, e a comissão técnica também não vê respaldo dos principais dirigentes do clube. Além disso, a situação administrativa ainda conturbada e agitada incomodou o comandante.

"Nós vamos buscar. Nós vamos buscar o que for necessário para tirar o Cruzeiro dessa situação. O meu objetivo, eu vim aqui para tirar o Cruzeiro dessa situação. Podendo trabalhar, eu vou fazer o Cruzeiro dessa situação. Vou fazer", avisou o treinador, após o empate sem gols com o Alvinegro cearense, na última quarta-feira.

Relação entre treinador e elenco azedou após a saída de alguns medalhões do time titular (Vinnicius Silva/Cruzeiro)
Relação entre treinador e elenco azedou após a saída de alguns medalhões do time titular (Vinnicius Silva/Cruzeiro)

Tanto pelo rendimento quanto pelo modelo de jogo, o treinador optou por sacar alguns atletas experientes da equipe. A primeira vítima foi o lateral-direito Edilson, na derrota por 3 a 0 para o Internacional, pela semifinal da Copa do Brasil, o que gerou reclamação do meia Thiago Neves. A comissão técnica identificou que a insatisfação ocorreu por ter tirado um dos pilares do elenco e que os medalhões preferem atuar juntos.

"Ele viu um amigo no banco de reservas", explicou o treinador sobre a opinião do experiente armador.

A crítica pública do camisa 10 irritou Rogério Ceni, que optou por comprar a briga e escalar a equipe conforme suas análises. A goleada por 4 a 1 diante do Grêmio agravou o cenário e provocou novas mudanças: Fred virou reserva contra o Flamengo e Thiago Neves também deixou a equipe no duelo com o Ceará. O camisa 9 só foi a campo contra o Vovô porque Pedro Rocha se lesionou ainda na primeira etapa. Já o meia apenas assistiu do banco, o que gerou reclamação do zagueiro Dedé após a partida, segundo a Rádio Itatiaia.

"O Thiago é uma opção. Já falei que é um bom jogador, de muita qualidade técnica, mas naquele momento a preferência era por dar mais velocidade. O Maurício é um jogador com boa chegada, entrou naquele jogo contra o Vasco, decidiu o jogo para nós, fez o gol, todo mundo pede o garoto. E eu estou aqui para tentar dar oportunidade para quem tem mais brilho no olho. E eu levo muito em conta o treinamento da semana, o último jogo. Eu levo muito em consideração tudo isso. O momento é muito importante. O momento do clube é muito difícil, e eu tento fazer o melhor pelo Cruzeiro. Eu trabalho aqui pelo melhor do Cruzeiro", disse Ceni, em entrevista coletiva na Arena Castelão.

Há pouco mais de um mês na Toca da Raposa, o técnico paranaense de 46 anos esperava ter o respaldo da cúpula celeste. O diretor de futebol Marcelo Djian, responsável por contratá-lo, tem ido constantemente aos microfones bancar a comissão técnica, mas o ex-zagueiro ficou esvaziado no clube após o retorno do vice-presidente de futebol Itair Machado, que preferia ter Adilson Batista no comando da equipe. Já o presidente Wagner Pires de Sá é figura ausente no departamento de futebol.

Com apenas duas vitórias em dois jogos, Ceni enfrenta questionamentos e cobranças dentro e fora da Toca da Raposa (Vinnicius Silva/Cruzeiro)
Com apenas duas vitórias em dois jogos, Ceni enfrenta questionamentos e cobranças dentro e fora da Toca da Raposa (Vinnicius Silva/Cruzeiro)

Responsável pelas principais decisões do clube, Itair Machado chegou a promover uma reunião para apaziguar o clima entre Rogério Ceni e Thiago Neves, segundo o blog do Victor Martins, mas a relação próxima entre o dirigente e os medalhões incomoda o treinador. O vice de futebol foi o responsável por tirar Edilson do Grêmio com altos vencimentos e renovar com Thiago Neves até 2020, por exemplo.

A gestão do clube também não agradou ao comandante. Durante as negociações com a Raposa, Ceni questionou acerca da parte financeira e dos problemas políticos decorrentes das denúncias feitas pela TV Globo e foi informado que a situação estava normalizada. A realidade, porém, é outra. O Cruzeiro ainda convive com conflitos nos bastidores e salários atrasados.

Em oito jogos à frente da equipe celeste, Rogério Ceni soma duas vitórias, dois empates e quatro derrotas, entre Brasileirão e Copa do Brasil, com aproveitamento de 33,3%.

"Você tem que fazer o teu melhor todos os dias, independente de contra quem seja. Claro que quando você pega um Palmeiras, um Flamengo, um Grêmio, como nós pegamos em sequência, eu garanto para você que não é a sequência mais agradável que você possa ter. Eu prefiro ter a sequência, por exemplo, que o Mano teve no Palmeiras, que foi mais tranquila, em tese. Mas nós não escolhemos jogo, o jogo já está marcado", ponderou.

Arrependimento, mas sem retorno breve

Na terça-feira, a delegação do Fortaleza se preparava para deixar o Alcides Santos quando o Cruzeiro chegou. Antes do embarque para Curitiba, onde a equipe enfrenta o Athletico-PR, pelo Brasileirão, jogadores e comissão técnica do Tricolor se encontraram com os profissionais celestes.

O presidente Marcelo Paz e o executivo de futebol Sérgio Papellin, por exemplo, trocaram abraços e muitas palavras com Rogério Ceni. Atletas e funcionários também cumprimentaram o ex-treinador e seus auxiliares. Substituto do ex-goleiro, Zé Ricardo também conversou com Ceni e foi elogiado pelo trabalho no Pici.

Em diálogos mais demorados, com diferentes pessoas, o quarteto Ceni, Charles, Nelson e Danilo confessou arrependimento por ter deixado o Leão no decorrer da temporada e que gostariam de ter permanecido diante do ambiente encontrado na Raposa, apurou a reportagem.

Apesar disso, não há grandes possibilidades de um retorno breve do comandante, mesmo em caso de demissão de Zé Ricardo. A avaliação da diretoria é que o desgaste entre o treinador e o elenco tricolor estava no limite e não seria saudável uma volta ainda em 2019.

"Só tenho que agradecer a forma como todos no Fortaleza me receberam, os funcionários, a gentileza do presidente em ceder o centro de treinamento, a forma como nos trataram lá. Pude dar um abraço em quase todos os atletas que vieram ao campo. Para mim, muito especial. Só tenho um agradecimento muito grande. Grandes dias da minha vida, sem dúvida, eu passei aqui, nesse clube, e pude ser muito bem recebido. Quero agradecer também o carinho do torcedor nas ruas", afirmou.

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