Com Ceni, Fortaleza explora mercado sul-americano e aposta em estrangeiros

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Xerifão, colombiano Juan Quintero se firmou na defesa tricolor e virou xodó da torcida (Pedro Chaves/FCF)
Xerifão, colombiano Juan Quintero se firmou na defesa tricolor e virou xodó da torcida (Pedro Chaves/FCF)

Por Afonso Ribeiro

Nas conversas entre os atletas, o sotaque diferente não passa despercebido. No vestiário, o sertanejo e o funk ganharam a companhia do tradicional reggaeton. Nas entrevistas, um pontunhol já mais compreensível após alguns meses no Brasil, mas ainda com auxílio de tradução nas respostas. A receita de sucesso do Fortaleza na atual temporada inclui um ingrediente especial: jogadores estrangeiros.

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Desde que Rogério Ceni assumiu o comando da equipe, em 2018, já foram contratados quatro sul-americanos: dois argentinos, um colombiano e um uruguaio. A busca por jogadores nos países vizinhos é explicada, sobretudo, pelas dificuldades no mercado nacional – tanto no aspecto financeiro quanto em relação às características dos atletas.

"É a única saída pelo mercado que a gente tem, onde a gente pode trazer um jogador que consiga inserir na folha salarial. Tem bons jogadores estrangeiros, claro que tem a dificuldade da língua, em alguns lugares eles se adaptam mais fácil, outros não. Nós temos, por exemplo, o Quintero, que foi um grande achado para a gente como zagueiro, agora nós temos a chegada do Mariano. O Atlético (Mineiro) tem cinco ou seis jogadores estrangeiros e praticamente todos os times no Brasil têm. É onde você consegue, apesar da moeda, atletas que ganham um valor salarial abaixo e é uma chance para eles se colocarem no futebol para a Europa. E os clubes têm o poder de contratação, porque hoje um jogador de qualquer clube grande custa uma fortuna, não tem como. Lá fora você ainda consegue encontrar bons jogadores por um valor que tem condições de inserir na folha de pagamento", ponderou o treinador.

No ano passado, o Leão do Pici apostou no meia-atacante argentino Germán Pacheco, que estava no Alianza Lima, do Peru. O jogador, no entanto, não caiu nas graças do comandante e disputou apenas duas partidas antes de rescindir contrato.

Argentino Germán Pacheco entrou em campo apenas duas vezes pelo Leão do Pici e durou pouco no clube (Leonardo Moreira/Fortaleza EC)
Argentino Germán Pacheco entrou em campo apenas duas vezes pelo Leão do Pici e durou pouco no clube (Leonardo Moreira/Fortaleza EC)

Em 2019, o departamento de futebol do Tricolor olhou com mais atenção para o mercado sul-americano. Trouxe Juan Quintero, do Deportivo Cali-COL, e Santiago Romero, do Nacional-URU, no início da temporada. Durante a pausa da Copa América, acertou com o armador Mariano Vázquez, ex-Deportivo Pasto-COL, que ainda não estreou. Ainda buscou nomes como Gastón Campi, Diego Buonanotte e Alejandro Guerra ao longo do ano.

"Nós estamos tendo dificuldade de jogadores brasileiros no mercado nacional. Os caras estão saindo daqui muito cedo. Com 19, 20 anos de idade, os atletas já estão buscando o mercado estrangeiro. Diante dessa escassez no mercado nacional, a gente tem que buscar uma alternativa, que é o mercado sul-americano, colombiano, argentino e uruguaio, que, na minha ótica, são os três com mais possibilidades de oferta", explicou o diretor de futebol Daniel de Paula Pessoa, em entrevista exclusiva ao Yahoo Esportes.

As opções partem tanto do Centro de Inteligência do clube (CIFEC) quanto do próprio mercado, oferecidas por empresários. Os nomes são observados pelos analistas de desempenho, avaliados pelos dirigentes e só então chegam ao técnico Rogério Ceni, em caso de aprovação – tanto técnica quanto financeira.

"É um conjunto de fatores. Evidentemente existem jogadores que você não tem como monitorar. Um jogador como o Mariano Vázquez, que jogava no Fortaleza, que não é um time tão conhecido, de grande porte na Colômbia... Então, nessas situações, às vezes há uma oferta e, depois da oferta, você vai analisar com calma o perfil, se enquadra ou não. Mas em alguns casos é pesquisa mesmo do departamento de futebol, através da análise de desempenho, que faz a pesquisa e traz para discussão. Passa pelo crivo meu, do (executivo de futebol Sérgio) Papellin e do Marcelo (Paz, presidente) e depois de ter uma filtragem feita por nós, leva o nome para o Rogério. No caso do Quintero, especificamente, foi um nome oferecido ao Rogério por intermédio do Paulo Autuori. Depois que o Paulo Autuori fez essa oferta, a gente fez a análise e, em cima do que foi oferecido, percebeu o perfil e as condições do atleta para vir jogar no Fortaleza", completou o dirigente.

Zagueiro absoluto, volante esquecido e meia aguardado

Até agora, apenas Quintero, de 24 anos, conseguiu se firmar no Tricolor. Titular absoluto da defesa, o camisa 3 soma 30 jogos e um gol marcado na temporada. Com vínculo até o final de 2020, comemora o bom momento na nova casa e pretende fazer história.

"Estou feliz aqui. Fiz um grande semestre até agora e estou focado no restante do ano. Estou contente pela renovação e por tudo que aconteceu aqui no Fortaleza. Por enquanto, meu foco está totalmente aqui, no clube, na cidade e na torcida. Tomara que tudo siga assim para dar muitas alegrias ao Fortaleza e deixar grandes coisas aqui", disse o zagueiro colombiano, que sonha com uma oportunidade na seleção comandada por Carlos Queiroz.

"Estou em um grande torneio, um grande país, um grande futebol, que é uma vitrine muito grande no futebol mundial. Claro que é meu sonho jogar na seleção, é algo que tenho em mente e tenho planejado, mas tudo acontece no momento que Deus quer. Sigo focado no Fortaleza e no Brasileirão. Tudo isso vai chegar no seu momento, então sigo tranquilo. Tenho que pensar no Fortaleza e em fazer bem o trabalho aqui", frisou o defensor, que já defendeu a Colômbia nas divisões de base.

 

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O volante uruguaio Romero chegou cercado de expectativa e elogios de Ceni, mas não conquistou espaço. Atuou em apenas quatro partidas e nos últimos compromissos do Leão, pelo Campeonato Brasileiro, nem figurou entre os reservas. Apesar disso, recebe elogios dos companheiros e dá suporte aos outros estrangeiros.

"Tenho uma relação muito boa com o Santiago, uma boa amizade. É uma grande pessoa e um grande profissional também", disse Quintero. "A linguagem do futebol não precisa desenrolar o português, como a gente brinca com eles. O Santiago e o Quintero ajudam ele (Mariano Vázquez) nas coisas que são mais específicas, mas no dia a dia, no campo, a gente vai conseguindo se entender através de linguagem e gesto", falou o zagueiro Roger Carvalho.

O mais novo estrangeiro no elenco tricolor é o meia argentino Mariano Vázques, de 26 anos. Após 24 partidas e quatro gols marcados pelo Deportivo Pasto, entrou na mira do Fortaleza e assinou contrato até junho de 2021. O apoiador, que já defendeu o Fortaleza da Colômbia, terá a missão de ser o camisa 10 tão pedido por Rogério Ceni nos últimos meses.

Meia argentino Mariano Vázquez terá a missão de assumir a camisa 10 do Fortaleza no Brasileirão (Xandy Rodrigues)
Meia argentino Mariano Vázquez terá a missão de assumir a camisa 10 do Fortaleza no Brasileirão (Xandy Rodrigues)

"Ele tem se enturmado mais com o Quintero e o Santiago, até porque eles se entendem bem, falam a mesma língua. O Mariano ainda não está conseguindo entender muito bem o que a gente fala, mas é um cara que tem muita qualidade, pelo que a gente já viu nessa semana. É um meia canhoto, que gosta de ter a bola e de um duelo um contra um. É um cara que realmente vai nos ajudar muito. Espero que ele possa ser muito feliz assim como estão sendo os meninos, o Quintero, que rapidamente se adaptou, é um líder dentro da equipe, tem nos ajudado muito. Espero que o Mariano possa se adaptar o mais rápido possível", afirmou o atacante Osvaldo.

"Talvez pelo fato de que esse pessoal venha de fora, de um mercado diferente, venha com um senso de profissionalismo maior. Até para provar de que estão saindo do seu país e vindo para uma cultura diferente, um campeonato diferente, talvez tragam consigo essa ideia de profissionalismo maior. E, evidentemente, de abrir um outro mercado de trabalho", analisou Daniel de Paula Pessoa.

Retrospecto ruim de estrangeiros

Procurados pelo Fortaleza sob o comando de Rogério Ceni, os jogadores estrangeiros não têm bons antecedentes no clube. No século XXI, o clube apostou em nomes como o serra-leonês Aluspah (2005), o húngaro András Dlusztus (2007) e os argentinos Marcelo Escudero (2003), Gigena (2007), Sotomayor, Guerazar (ambos em 2009) e Savoia (2012), além do uruguaio Gastón Filgueira.

Este último foi quem conseguiu emplacar o maior número de partidas com a camisa tricolor: foram 13 atuações em 2017, entre Campeonato Cearense, Copa do Brasil e Copa do Nordeste. Atualmente, o uruguaio de 33 anos defende o Vila Nova.

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