Ceará e Fortaleza geram novas receitas e comemoram modelo de gestão da Arena Castelão

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Leão e Vovô operam a Arena Castelão em dias de jogos e elogiam o modelo (Foto: Deborah Cinthia/Fortaleza EC)
Leão e Vovô operam a Arena Castelão em dias de jogos e elogiam o modelo (Foto: Deborah Cinthia/Fortaleza EC)

Por Afonso Ribeiro

Sob gestão do Governo do Estado desde os últimos dias de 2018, a Arena Castelão passou a ser administrada por Ceará e Fortaleza em dias de jogos na atual temporada. Com maior liberdade, os clubes conseguem explorar novas áreas e promover ações com os torcedores, o que gera receitas extras. Em contrapartida, a bilheteria das partidas não tem dado grandes recursos – muitas vezes, termina com prejuízo. No balanço final, os rivais cearenses se mostram satisfeitos com a atual situação do estádio e projetam melhorias.

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Após a reforma da praça esportiva para a Copa das Confederações de 2013 e Copa do Mundo de 2014, a Luarenas passou a ser responsável pela administração. A relação entre as partes, no entanto, azedou cedo por problemas estruturais, contratuais e financeiros e transcorreu até o final desagradando a todos os envolvidos – Estado, clubes, torcidas e a própria empresa.

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O vínculo chegou ao final no dia 13 de dezembro do ano passado. A partir do dia seguinte, o Governo do Estado, por meio da Secretaria do Esporte e Juventude (Sejuv), reassumiu as chaves do estádio e entrou em acordo para os clubes se tornarem responsáveis pelo equipamento nos jogos. Em paralelo, dá andamento à elaboração do processo de licitação (veja nota da Secretaria mais abaixo).

Em abril, o governador Camilo Santana e o titular da Sejuv, Rogério Pinheiro, receberam Robinson de Castro, presidente do Ceará, e Marcelo Paz, mandatário do Fortaleza, para reunião que selou o acerto até o final deste ano e definir outras questões, como a taxa de aluguel, que gira em torno de 13%. Donos do estádio em seus respectivos jogos, os clubes elogiam o modelo atual e torcem pela sequência.

Presidentes de Ceará e Fortaleza se reuniram com o governador Camilo Santana para selar acordo sobre o estádio (Foto: Carlos Gibaja/Governo do Ceará)
Presidentes de Ceará e Fortaleza se reuniram com o governador Camilo Santana para selar acordo sobre o estádio (Foto: Carlos Gibaja/Governo do Ceará)

"Esse modelo agora, para nós, está muito bom. Não sei na visão do Estado como é que eles estão entendendo. Se o Estado entender que o modelo está bom, acho que vai ser desnecessário fazer a licitação e deixa como está. É uma decisão do Governo do Estado, mas claro que eles deverão consultar os clubes também, fazer um diagnóstico. O modelo anterior foi muito ruim para todo mundo. Todo mundo estava infeliz: torcedor, Estado e os clubes. No final, todo mundo ficou com prejuízo. Esse modelo agora me parece que está todo mundo feliz. Por que não continuar com ele?", ponderou Robinson de Castro em entrevista exclusiva ao Yahoo Esportes.

"Está sendo mais satisfatório e mais justo do que o modelo anterior. No modelo que vigorava até dezembro, nós tínhamos toda a responsabilidade do espetáculo, o risco, e boa parte dessa receita não vinha para o clube, que era dos bares e estacionamento. Hoje, o clube tem essa receita. Vou lhe dar um número aproximado que entrou no clube esse ano, em torno de R$ 600 mil com repasses de bares e estacionamento nos jogos até aqui. É um dinheiro que não existia até ano passado que vale e ajuda, faz a gente investir dentro do clube. E a tendência é que isso aumente, até com a questão da liberação da venda da bebida alcoólica, porque tem um consumo maior, isso é natural, e grandes jogos que podem vir no segundo semestre com casa cheia. É um modelo mais justo", analisou Marcelo Paz ao blog.

Veja a nota da Sejuv ao blog:

"O modelo de gestão atual, no qual os clubes estão responsáveis pelo funcionamento do equipamento em dias de jogos, tem funcionado bem e passa por constante avaliação buscando a exploração do completo potencial do equipamento. Porém, em paralelo, o Governo do Ceará elabora licitação para nova concessão administrativa.

Atualmente, o processo encontra-se na fase de ajustes às recomendações do Tribunal de Contas do Estado (TCE), para em seguida ser encaminhado à Procuradoria Geral do Estado (PGE), para a abertura do processo licitatório de concessão da Arena Multiuso.

No que se refere ao contrato com a antiga gestora, a Luarenas, que encerrou-se em 13/12/2018, ainda existem pendências no quesito manutenção, mas não estruturais"

Ativações geram novas receitas

Com a gestão completa da arena, Ceará e Fortaleza passaram a faturar de outras formas além da venda de ingressos. Os clubes exploram a esplanada do estádio e alguns setores para realizar fan fests, espaço para crianças e vendas de produtos oficiais. Além disso, as receitas de bares – agora com venda de cerveja – e estacionamento também entram nos cofres alvinegros e tricolores.

Com telão e shows, Fortaleza realiza fan fest na esplanada do estádio (Foto: Fortaleza EC)
Com telão e shows, Fortaleza realiza fan fest na esplanada do estádio (Foto: Fortaleza EC)

"Trabalha-se um pouco mais, lógico, mas a gente não tem medo de trabalhar. Hoje, um jogo para a gente é um grande evento e um evento que mobiliza toda a diretoria. Foi-se o tempo aqui que o diretor ia para o jogo assistir privilegiado no camarote. Hoje, todo mundo tem uma função dentro do jogo. Tem loja, tem financeiro funcionando, tem jurídico ativo, operação de jogo, administrativo, futebol, o representante na Federação, ouvidor que está trabalhando em dia de jogo também, o pessoal do patrimônio, que está no projeto Leão 100... Então, todo mundo, de alguma forma, está envolvido no jogo, entendendo que o jogo é um dos eventos que o clube faz, talvez o principal. Não estou nem falando de futebol, estou falando do entorno: loja, fan fest, acesso do torcedor, sócio torcedor entrar confortavelmente... Nós temos dois setores no estádio em que não vendemos mais ingressos, que são o Bossa Nova e a Especial, privilegiando o sócio-torcedor, que acredita no clube e paga o valor mensal. Com o novo modelo da Arena, a gente teve também mais liberdade de acolher melhor o nosso torcedor, botar pontos de apoio, fazer a fan fest e acho que isso se reflete na experiência que o torcedor tem em dia de jogo", explica o presidente do Leão do Pici.

"Nós terceirizamos. Basicamente, o que existe de diferença entre o que era antes e agora: a gente passou a administrar o estacionamento e os bares. O estacionamento nós terceirizamos com uma empresa especializada, é como se a gente fosse uma espécie de sócio dessa empresa, temos uma participação no resultado daquela receita, e nos bares a mesma coisa. O que a gente faz é exigir a qualidade, o feedback do torcedor, trabalhar um pouco o preço, para não afastar o torcedor por estar vendendo acima da média. Foi muito mais uma condição que foi dada para a gente organizar melhor o espetáculo, envelopar melhor o produto. Nesse momento, acho que está melhor. E a agenda é nossa. Diferente de quando o estádio estava na mão de uma empresa privada, e a gente estava à mercê da agenda... Às vezes tinha muito conflito de interesse em relação a data, à utilização de um espaço para fazer uma ativação para um patrocinador ou com a torcida. Sempre era um processo desgastante, porque do outro lado tinha uma empresa privada que estava querendo valorar tudo. Agora não. A gente recebe o estádio de porteira fechada, entra lá, faz as ativações que quiser, coloca uma lojinha nossa para vender produtos do clube, participa da receita do bar e do estacionamento, pode botar uma banda para tocar em um setor específico, fazer algumas ações em uma área mais VIP...", pontuou o mandatário do Vovô.

Com diversas atrações, Ceará promove a Vila Alvinegra na área externa da arena em dias de jogos (Foto: Mauro Jefferson/cearasc.com)
Com diversas atrações, Ceará promove a Vila Alvinegra na área externa da arena em dias de jogos (Foto: Mauro Jefferson/cearasc.com)

Com novos recursos, os clubes também tentam cortar custos. Em alguns jogos, por exemplo, somente o anel inferior do estádio é aberto para os torcedores. Para Paulo Zago, sócio da Stadiumetric, empresa que atua na área de entretenimento e presta serviços para São Paulo e Juventus/SP, o equilíbrio entre despesas e receitas na gestão do estádio será importante para investimentos nos elencos de Ceará e Fortaleza.

"É possível dimensionar, de forma bastante precisa, as despesas referentes a quadro móvel, bilheteria, segurança e demais custos operacionais acessórios a um determinado jogo, além de saber em quais jogos se deve utilizar a configuração Prédio Central + Anel Inferior e em quais jogos se deve utilizar a configuração total da Arena. Como consequência, a Arena Castelão passa a ser uma efetiva e importante fonte de receita a Ceará e Fortaleza, e não uma fonte de despesas, a qual consome recursos que deveriam ser alocados em atletas e infraestrutura de qualidade aos clubes, de forma que figurem de forma constante na principal divisão do futebol nacional", explicou.

Públicos altos, rendas baixas

De acordo com levantamento do GloboEsporte.com, os dois clubes cearenses figuram no top 11 de média de público da atual temporada: o Fortaleza é o sexto, com média de 22.824 pessoas em 18 jogos, enquanto o Ceará é o 11º, com 18.622 presentes em média em 16 jogos como mandante.

No entanto, neste mesmo grupo dos 11 primeiros, os arquirrivais locais têm as menores rendas brutas (R$ 4.342.639 dos tricolores e R$ 4.264.806 dos alvinegros) e os tickets médios mais baratos (R$ 10 do Leão e R$ 14 do Vovô). Segundo o jornal O Povo, em nove jogos dos dois clubes no Brasileirão antes da pausa, somente três não deram prejuízo: Ceará x Santos, Fortaleza x São Paulo e Fortaleza x Vasco.

Na visão dos clubes, além de promoções realizadas para atrair mais torcedores, um dos fatores é a entrada franca dos sócios, que pagam os planos mensalmente, não compram ingresso e entram no borderô das partidas a R$ 1.

Rivais cearenses acumulam prejuízos em jogos do Brasileirão e tentam gerar novas fontes de receitas (Foto: Stephan Eilert/cearasc.com)
Rivais cearenses acumulam prejuízos em jogos do Brasileirão e tentam gerar novas fontes de receitas (Foto: Stephan Eilert/cearasc.com)

"A principal razão do ticket médio baixo é o sócio-torcedor, porque entra no borderô a R$ 1. Por exemplo, na final da Copa do Nordeste, que nem entra nessa estatística da Série A, nós tivemos 38 mil pessoas no Castelão e 21 mil eram sócios. Então, a conta foi paga por 17 mil pessoas, a conta do evento jogo. Só que aqueles 21 já tinham pago, porque a receita já tinha entrado para o clube. Por isso o ticket médio cai muito. De 38 mil pessoas, 21 mil entraram a R$ 1. E é uma equação complicada, porque a gente quer que o evento jogo seja lucrativo, mas a gente quer ter cada vez mais sócios também. Por isso que nós criamos, em dias de jogos, outras fontes de receita: as lojas, que vendem produtos oficiais do clube, os bares, estacionamento... Para equilibrar essa operação de jogo. Nem me preocupa tanto o ticket médio, de verdade. Me preocupa mais oferecer uma boa experiência de jogo a quem vai lá. Claro que se, com isso, a gente conseguir ainda ter lucro grande, melhor ainda", afirmou Marcelo Paz.

"Eu acredito que seja possível, sim, encontrar o equilíbrio entre público e renda. Sabemos que não é apenas preço que define o maior ou menor interesse dos torcedores em relação aos jogos de Ceará ou de Fortaleza. Cobrar ingresso barato ou praticar preços populares não é garantia de casa cheia. Eu entendo que os clubes devem sempre buscar uma relação mais justa na precificação de seus ingressos e aproveitar as oportunidades de aumentarem suas receitas para conseguirem investir em atletas e estrutura, melhorando de forma contínua e estruturada a qualidade do espetáculo ofertado as suas apaixonadas torcidas", pontuou Paulo Zago, da Stadiumetric, que desenvolve estudos de precificação de ingresso para os jogos do São Paulo.

"A chamada gratuidade aos sócios não necessariamente é prejudicial aos clubes que a adotam. Caso exista equilíbrio entre a gratuidade no ingresso e o valor de mensalidade cobrado, a renúncia da receita de bilheteria é compensada pela receita mensal do associado. Este resultado será mais positivo ou mais negativo em função de uma série de variáveis. O acordo entre clubes e federação local para contabilização do sócio no borderô da partida é uma dessas variáveis", completou.

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