No Catar, torcedores preferem corrida de camelos e falcões

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Falcões expostos em mercado no centro de Doha; falcoaria é uma grande tradição no Qatar (Tiago Leme)
Falcões expostos em mercado no centro de Doha; falcoaria é uma grande tradição no Qatar (Tiago Leme)

Por Tiago Leme (@tiago_leme), de Doha, no Catar

Era uma segunda-feira à noite, Al Gharafa e Al Sadd disputavam um dos grandes clássicos de futebol de Doha, duas equipes que brigavam pelas primeiras posições da Liga do Catar. Nas arquibancadas do estádio com capacidade para 20 mil pessoas, menos de 500 torcedores assistiam ao duelo, e a maioria dos setores estava fechado e vazio. Dois dias antes, no sábado, o Liverpool superou o Flamengo e foi campeão do Mundial de Clubes da Fifa na mesma cidade, diante de 45 mil espectadores, que praticamente lotaram o estádio Khalifa. No entanto, o público era formado basicamente por brasileiros e outros estrangeiros, com poucos Cataris presentes. Enquanto isso, na mesma semana acontecia a poucos quilômetros dali um campeonato de falcoaria, esporte que é paixão nacional neste país do Oriente Médio e tem total destaque local.

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E o futebol não perde apenas para os falcões por lá. Corrida de camelo é outra atividade exótica, bem incomum na maior parte do mundo, que atrai maior interesse no Catar do que a bola rolando nos gramados. Enquanto acompanhava a goleada do Al Sadd, time treinado pelo espanhol Xavi, sobre o Al Gharafa por 5 a 1, o time do Yahoo Esportes conversou com alguns torcedores e jornalistas para entender melhor a situação e essa diferença cultural.

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Em uma das arquibancadas populares das laterais, com ingressos vendidos ao preço de 10 rials, pequenas torcidas organizadas das duas equipes ficavam em pé em degraus de concreto, gritavam e faziam barulho com instrumentos de percussão. Ganhando o clássico com tranquilidade, os fãs do Al Sadd cantavam músicas provocando os rivais. “Um, dois, três, quatro, cinco, lá vem o sexto gol” e “Por que vocês estão sentados? Vão embora”, diziam em árabe, de acordo com o torcedor indiano Sunil Singh, que conversou em inglês com o Yahoo Esportes e traduziu os cantos.

“Eu moro perto daqui e vim com amigos assistir à partida. Eu venho da Índia, estou no Catar há quase dez anos, e no meu país o principal esporte é o cricket. Mas eu também gosto de futebol, torço para o Barcelona, e por isso é um prazer ver o Xavi de perto aqui, primeiro como jogador e agora como treinador. Mas a verdade é que os cataris não gostam de futebol. A principal tradição aqui é a falcoaria, mas tem também corrida de camelo e outros esportes que eles gostam mais do que futebol. Aqui no estádio agora, os únicos cataris são aqueles que estão lá no outro lado”, disse Sunil, apontando para a área VIP na lateral oposta do campo.

Neste setor mais caro, com ingressos por 50 rials, cerca de 50 pessoas acompanhavam o jogo praticamente sem torcer, com tranquilidade e sentadas em cadeiras mais confortáveis. Um jornalista do Catar, que preferiu não se identificar, contou que a elite local que frequenta os estádios não se mistura com os estrangeiros de baixa renda. Ele explicou também que muitos imigrantes que estavam nas arquibancadas torcendo são pagos ou recebem bilhetes gratuitos na tentativa de impulsionar o futebol no país.

Al Gharafa e Al Sadd fizeram um dos clássicos de Doha com pouquíssimos torcedores nas arquibancadas. Foto: Tiago Leme
Al Gharafa e Al Sadd fizeram um dos clássicos de Doha com pouquíssimos torcedores nas arquibancadas. Foto: Tiago Leme

Enquanto o futebol no país da Copa do Mundo de 2022 é praticamente ignorado, a falcoaria é uma tradição milenar. Desde criança, os cataris são acostumados a acompanhar esse esporte. Nas competições, o falcão fica no braço de seu adestrador com a visão tampada e, após o sinal de partida, precisa voar o mais rápido possível em direção a um pedaço de carne preso em uma corda sendo rodada no ar. O que antigamente era um ato necessário de caça, hoje é uma atividade esportiva. O emir Tamim bin Hamad Al Thani, autoridade máxima do governo no país, é um dos amantes da modalidade.

Um falcão que disputa esta prova pode custar até perto de R$ 1 milhão, mas existe uma grande variedade de preços. No centro de Doha, ao lado do Souq Waqif, um tradicional mercado árabe, existe também o Souq Falcon, mercado com várias lojas que vendem falcões, onde os animais ficam expostos ao público, e turistas podem tirar fotos com essas aves no braço. Ali também fica um moderno hospital de falcões.

As corridas de camelos, que movimentam milhões em prêmios, também são outra preferência dos torcedores locais em detrimento ao futebol. Os principais eventos são realizados no complexo Al Shahaniya, localizado no deserto a 40km de Doha, contam com transmissão de TV e grande repercussão. Antes, muitas crianças montavam em cima dos animais, por causa do peso leve, mas em em 2005 o Governo do Catar proibiu a presença de jóquei menores de 15 anos. Atualmente, há o uso de tecnologia em muitas provas, com jóqueis-robôs sendo monitorados por controle remoto pelo donos dos camelos.

Al Gharafa e Al Sadd fizeram um dos clássicos de Doha com pouquíssimos torcedores nas arquibancadas (Tiago Leme)
Al Gharafa e Al Sadd fizeram um dos clássicos de Doha com pouquíssimos torcedores nas arquibancadas (Tiago Leme)

Morando em Doha há nove anos, o meia Rodrigo Tabata, ex-Goiás e ex-Santos, que atualmente joga pelo Al Rayyan, se naturalizou Catari em 2015 e já jogou pela seleção de futebol do país. Ele admite que os torcedores locais não têm o costume de ir aos estádios, mas acredita que a Copa do Mundo pode dar um incentivo e mudar esse hábito.

“Eu acho que é uma questão de cultura. O pessoal não tem o costume de ir no estádio no dia do jogo, eles costumam se reunir nos “majlis”, que é uma parte que eles fazem ao lado da casa com toda estrutura, com essas TVs gigantescas e são bem servidos. Eles acompanham os jogos, mas em casa. Mas eu acho que é uma coisa que vem melhorando. Da época que eu cheguei aqui até agora, eles estão indo mais ao estádio”, disse Tabata, que na sequência deixou claro que atualmente os públicos das partidas ainda são realmente bem pequenos, mesmo com esse leve crescimento.

“Ontem mesmo no nosso jogo (Al Rayyan contra Al Wakrah), que foi à noite e nessa época está frio aqui (20 graus), a gente esperava que desse um número bem reduzido. Meu time é um dos que tem mais torcida, e foi bem reduzido, mas bem melhor do que a expectativa. Não acredito que tenha dado mil pessoas, mas é bem mais do que a gente esperava”.

O Mundial é uma aposta para fazer o futebol cair no gosto dos torcedores do Catar, mas é improvável que aconteça uma mudança radical no cenário atual, até porque mais de 80% da população de 2,7 milhões de habitantes do país é de estrangeiros. Com a presença de craques em campo e turistas vindos de todas as partes do mundo, a expectativa de arquibancadas cheias durante a Copa do Mundo de 2022. Com oito modernos estádios, construídos ou reformados para o torneio, o objetivo é deixar um legado, mas evitar os chamados “elefantes brancos”. Por isso, um estádio será totalmente desmontado e outros seis terão sua capacidade reduzida após o evento. Se em termos de estrutura física o Catar não parece ter problemas, o desafio é fazer com que o clima de Copa contagie os cataris para o desenvolvimento do futebol no país.

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