E se Fernando Cury tivesse apalpado a parte íntima de um homem do plenário?

Matheus Pichonelli
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Pouco antes de se aproximar e apalpar os seios da deputada Isa Penna (PSOL), sua colega na Assembleia Legislativa de São Paulo, o deputado Fernando Cury (Cidadania) conversou por alguns segundos com outro parlamentar no plenário. Falava ao pé do ouvido como se compartilhasse algum segredo ou intenção. Respeitosamente, pousava a mão no ombro do confidente.

Nas imagens gravadas pela câmera dos fundos da Alesp, é possível ver o amigo tentando demovê-lo de alguma ideia ruim. Segura-o pelo antebraço, em vão.

Cury chega por trás da deputada e coloca a mão direita em seu seio na frente do presidente da Casa, Cauê Macris (PSDB). O amigo com quem falava havia pouco sai de cena coçando a testa.

O vídeo deixa claro que não era só um abraço, como Cury tentou explicar mais tarde diante dos pares. Não havia sequer contexto para abraços, um gesto de amizade em que os amigos estão sempre de frente, nunca de costas um para o outro. Penna sequer o conhecia.

Isa está em seu primeiro mandato como deputada. É feminista e defende, em seu mandato, as reivindicações de mulheres negras e pessoas LGBTs.

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Cury, eleito pela primeira vez em 2014, é o filho mais novo do ex-prefeito de Botucatu Jamil Cury. Em sua página na Assembleia, faz questão de se descrever como homem casado e pai de dois filhos.

Mesmo herdeiro de uma família com mais de 3 décadas na política, não havia conseguido notoriedade, ao menos no noticiário, até a quinta-feira 17. Chamavam pouca atenção dos colegas seus projetos para o estado, entre os quais a denominação de uma passarela da Rodovia Marechal Rondon, de um viaduto na João Lázaro de Almeida Prado, um projeto de reconhecimento do rodeio e da vaquejada como patrimônio imaterial, a declaração de utilidade pública de uma associação espírita em Avaré e a instituição da “Semana Estadual do Rock” no calendário cultural.

Para orgulho da família, o caçula dos Cury agora é referência nacional.

O país inteiro viu o momento em que ele assedia uma deputada, que o repele e vai à tribuna relatar o assédio.

“Eu fui apalpada na lateral do meu corpo. O que dá o direito a alguém encostar em uma parte do meu corpo, íntima? O meu peito é íntimo. É o meu corpo”, disse a parlamentar.

A resposta está implícita em outra pergunta. E se Cury tivesse apalpado alguma parte íntima do colega de Assembleia sobre quem colocou a mão no ombro pouco antes de apalpar a colega deputada? No mínimo, acordaria num hospital.

Penna diz que, até então, não conhecia o deputado. E que debatia sobre orçamento com o presidente da Alesp no momento em que foi assediada, uma violência de quem tenta deixar claro que ali não era o seu lugar.

Em entrevista à CNN Brasil, a deputada contou que, pouco antes da sessão, tinha ouvido uma série de gracejos de colegas da Casa a respeito de um vídeo que postou, em seu Instagram, dançando funk. Como se uma deputada não pudesse dançar o que quer e vice-versa.

Em 2018, o número de mulheres eleitas na Assembleia paulista subiu de 11 para 18 deputadas. É um número que tende a crescer ano a ano.

A violência contra uma de suas representantes é só a parte visível, pois gravada e difundida, de uma realidade descrita em relatos de vítimas sem a mesma projeção e que coloca em evidência as discussões sobre representatividade dos espaços de poder, dos quais os grupos hegemônicos --no caso, homens e brancos-- reagem como se vissem um direito, e não um privilégio, ser estendido a quem eles desprezam.

Nos relatos de assédio em ambientes corporativos, entre os quais o mais recente e notório é o caso do diretor Marcius Melhem envolvendo a atriz Dani Calabresa, é na hierarquia da relação entre patrões e empregados e na ambiguidade de quem confunde, propositadamente, carinho com paternalismo, que essa violência se retroalimenta.

Recentemente, entrou em cartaz na Netflix uma série documental sobre os crimes de Dominique Strauss-Kahn, todo-poderoso chefe do FMI envolvido em escândalos sexuais até contra a camareira de um hotel onde era servido e tratado como deus.

A subalternidade, quase sempre construída abaixo de uma liderança masculina, com poder e influência, é a tampa de um bueiro onde todas as opressões são fabricadas e escondidas.

Cury teve a audácia de assediar, diante de todos, uma deputada como ele, eleita pelo voto popular assim como ele. Mas ele, ao não reconhecer a deputada como uma igual, usa as ferramentas do constrangimento para dizer quem pode e quem não pode ocupar aquele espaço. Quem está “acima” e quem não deveria estar lá.

Cury não entendeu que homens como ele é que estão com os dias contados.

Pode até se esforçar em, agora, fingir demência, mas terá de responder por seu ato, como adulto, diante dos pares e da opinião pública. Se os nobres deputados não virem problemas na atitude de um dos seus durante a análise do caso no conselho de ética, que os eleitores, daqui em diante, o façam.