Caso Dudu e violência doméstica: machismo faz vítimas serem duvidadas

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Jogador Dudu foi denunciado pela ex-esposa. Foto: Reprodução/Facebook
Jogador Dudu foi denunciado pela ex-esposa. Foto: Reprodução/Facebook

Após ser denunciado por agressão pela ex-esposa, o jogador Dudu, atacante do Palmeiras, prestou depoimento na última terça-feira (23) sobre o caso. Mallu Ohana fez o registro formal de sua acusação e o atleta negou que tenha cometido o crime. Porém, em meio à investigação da polícia, um verdadeiro tribunal foi montado na internet.

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Algumas pessoas ficaram do lado da ex-companheira do jogador e a apoiaram em relação à denúncia. Outras, preferiram acreditar na versão de Dudu. A lei brasileira garante que uma pessoa seja considerada culpada ou inocente somente após todos os trâmites judiciais. A nossa legislação também garante que, em caso de falsa acusação de crime, a pessoa seja responsabilizada.

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Mas, por qual motivo a internet se sente no direito de dizer se alguém está ou não fazendo uma falsa acusação, principalmente quando se trata de supostos casos de violência contra a mulher? De acordo com a advogada Valéria Santos, isso acontece pelo fato de esse tipo de violência acontecer, geralmente, em ambiente íntimo e que poucas pessoas têm acesso.

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“A violência doméstica ocorre em um ambiente íntimo e reservado, ou seja, não há uma exposição. Existe uma grande dificuldade para a vítima sustentar a veracidade dos fatos e atos da agressão física e até mental. Pesquisas demonstram que, na maioria dos casos, as mulheres relatam que sentem vergonha em declarar que passam por um relacionamento de abuso”, explica a advogada.

No caso da denúncia contra Dudu, a ex-mulher diz que, na última segunda-feira (22), ele foi até a casa dela levar um computador para um dos filhos deles. No local, eles teriam brigado e o jogador teria puxado o cabelo dela e dado socos na cabeça e no peito de Mallu. Para se defender, o jogador disse que imagens de câmeras do condomínio iriam provar sua versão.

Sendo assim, a polícia está fazendo seu trabalho: ouvindo as pessoas envolvidas e buscando informações que possam elucidar o caso. Mas, algumas pessoas que souberam do caso já escolheram não acreditar na suposta vítima. De acordo com Valéria, esse tipo de reação da população faz parte do machismo enraizado em nossa sociedade.

“O sistema patriarcal machista atribui à vítima o motivo para o comportamento agressivo ou abusivo do macho alfa”, diz. A psicóloga Luana Alves, militante do coletivo Juntas, concorda com a advogada e diz que esse tipo de comportamento estrutura toda a cultura. “Existe toda uma ideologia, que corre sem a gente perceber, de que as mulheres são menos confiáveis”, afirma.

“Quando a gente fala de patriarcado, esse tipo de abuso não está fora da norma. Ele é a norma. E quando a mulher tenta colocar isso como uma coisa errada, obviamente, uma série de operadores culturais vai tentar calar”, diz a psicóloga lembrando que, muitas vezes, mulheres que denunciam violências em decorrência do gênero são tidas como pessoas que são “interesseiras” ou que estão “destruindo a vida do homem”.

No entanto, a advogada Valéria diz que a palavra da vítima é sempre valorizada dentro do ambiente do tribunal que irá dar o veredito sobre o caso. “A mulher nunca deve deixar de denunciar a violência doméstica, mesmo no caso de ela não conseguir constituir provas. A autoridade policial não pode deixar de lavrar o boletim de ocorrência, isso é a lei que determina”, explica.

Caso contrário, ela explica que o delegado, o escrivão e qualquer outro agente da delegacia pode responder pelo crime de prevaricação (crime cometido por funcionário público quando, indevidamente, retarda ou deixa de praticar ato de ofício, ou pratica-o contra disposição legal expressa, visando satisfazer interesse pessoal).

Sendo assim, a advogada recomenda que a mulher denuncie o seu agressor por meio dos canais de denúncia do 180 (Central de Atendimento à Mulher) e do 190 (Polícia Militar). De acordo com ela, a Lei Maria da Penha determina que toda mulher tenha assessoramento ou acompanhamento jurídico por meio de um advogado particular ou um defensor público.

Além disso, ela afirma que é importante que a vítima informe se irá precisar de algum tipo de medida protetiva já na delegacia. Isso é importante pois, se o agressor descumprir a medida, ele poderá ser preso preventivamente. A advogada também indica que mulheres procurem se informar mais e melhor por meio do canal Direito Delas, no YouTube.

A rede Justiceiras, que dá orientação jurídica, psicológica, socioassistencial e médica para mulheres vítima de violência também lançou uma campanha para ajudar vítimas a saírem do ciclo de agressões no período de isolamento social que acontece devido à pandemia de coronavírus. As voluntárias fazem atendimentos por meio do WhatsApp. O número é (11) 99639-1212.

De acordo com Luana, os coletivos feministas são importantes exatamente para poder dar esse apoio psicológico e judicial para mulheres que sofreram algum tipo de violência dentro de suas casas. “A função da gente é acolher a mulher não só no sentido de estar próxima, mas no sentido de fortalecer a denúncia”, explica.

Segundo ela, apesar de existirem vários casos de jogadores de futebol envolvidos em casos de violência contra a mulher, esse tipo de agressão não se restringe a esse meio. Para ela, isso é algo que acontece em todas as esferas da sociedade e é cometido por homens que têm diversas profissões. “O que acontece é que as mulheres que vivem com jogadores de futebol talvez sintam que têm mais possibilidade de apoio, que essa notoriedade pode protegê-las, de que podem receber mais apoio”, explica.

O Palmeiras se posicionou sobre o ocorrido e afirmou que irá acompanhar o caso e se posicionar depois de as investigações serem concluídas pelas autoridades. Além disso, o time também disse que é contra qualquer ato que atente contra a dignidade humana.

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