Caso de percussionista vítima de racismo em padaria de São Paulo pode ser arquivado pela justiça

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Beth Beli, criadora do bloco afro Ilú Obá de Min, e a deputada estadual Leci Brandão (PCdoB). Foto: Alemão/Alesp
Beth Beli, criadora do bloco afro Ilú Obá de Min, e a deputada estadual Leci Brandão (PCdoB). Foto: Alemão/Alesp

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões

Cinco meses após ser vítima de racismo em uma padaria na região central de São Paulo, a mestre de percussão e arte educadora Beth Beli, criadora do bloco Ilú Obá de Min, ainda não teve seu caso solucionado pelo sistema de justiça.

De acordo com a advogada de defesa da artista, as investigações e os relatos de testemunhas não sustentam uma acusação contra o dono do estabelecimento. O proprietário, inclusive, processou a percussionista por ter levado o caso ao conhecimento do público.

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“Não houve indiciamento e foi relatado de uma maneira neutra o resumo do que as pessoas disseram”, explica Leny Oliveira, advogada representante de Beth.

Segundo a advogada, o caso aguarda um parecer do Ministério Público, que tem um prazo de aproximadamente dez dias para responder. O promotor pode encaminhar a denúncia ou solicitar o arquivamento.

Em maio, ao perguntar para o atendente do caixa da Padaria Palmeiras, no bairro Santa Cecília, se o estabelecimento vendia fermento, Beth foi ofendida diante de outros clientes e de empregados no estabelecimento. Segundo o relato dela, o dono do estabelecimento gritou “Sai daqui” e fez gestos negativos.

“No relatório, a delegada escreveu que ‘a vítima, Beth, teria sido impedida de ingressar, acreditando na ocorrência de preconceito racial’. A defesa do dono da padaria diz que ele não impediu ela de entrar. Porém, as imagens mostram os gestos dele”, afirma a advogada.

Em nota enviada ao Alma Preta, o advogado Carlos Correia de Sousa, que representa o dono da Padaria Palmeiras, afirmou que na época do ocorrido um dos sócios tentou contatar Beth Beli, mas não teve resposta. Paralelamente a isso, segundo a defesa do estabelecimento, a percussionista denunciou o caso nas redes sociais.

Ainda segundo o advogado, existem dois inquéritos distintos, um na 77 DP e outro no DECRADI. “Frise-se, os dois inquéritos encontram-se relatados e foram remetidos ao Ministério Público, aguardando manifestação do mesmo. Entendemos que a via eleita pela Sra. Elisabeth para dirimir a questão é de fato a via adequada e, assim como ela, a Padaria aguarda o deslinde da questão”, diz a defesa do estabelecimento.

Homenagem na Alesp

Beth Beli recebeu por dois anos seguidos duas importantes honrarias de reconhecimento no combate ao racismo e valorização das matrizes africanas. No final de junho, a percussionista foi homenageada em uma sessão solene na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), junto a um tributo póstumo ao advogado abolicionista Luiz Gama. Em março de 2019, a percussionista também recebeu a medalha Theodosina Ribeiro, em sessão organizada pela deputada Leci Brandão (PCdoB)

Neste ano, a sessão contra o racismo e a LGBTfobia na casa legislativa, organizada virtualmente pela deputada Erika Hilton, da Bancada Ativista (PSOL), lembrou o caso de racismo sofrido pela criadora do Ilú Obá de Min na padaria da região central da capital paulista.

“Essa força que a Beth carrega, ela e tantas outras mulheres negras que vieram antes da gente, nos inspira, nos ensina e nos conduz. Que a gente possa pegar as violências que são atiradas contra os nossos corpos diariamente e enfrentá-las de uma forma tão segura, tão tranquila e tão em paz como a Beth tem enfrentado”, reforçou Erika Hilton.

* Texto atualizado às 11:22 de 14 de outubro de 2020 para inclusão do posicionamento da defesa da Padaria Palmeiras.

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