Casa de acolhimento a pessoas trans faz campanha emergencial para doações na pandemia

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Mais de 56% do público atendido pela instituição são pessoas negras; campanha já distribuiu 900 cestas de alimentos e forneceu auxílio moradia para 70 pessoas
Mais de 56% do público atendido pela instituição são pessoas negras; campanha já distribuiu 900 cestas de alimentos e forneceu auxílio moradia para 70 pessoas

Texto: Flávia Ribeiro Edição: Nataly Simões

Desde 2018 no acolhimento da população transvestigênere, composta por pessoas transgênero, transexuais e travestis, a Casa Chama, de São Paulo, lançou o “Fundo Emergencial de Apoio para Pessoas Trans afetadas pela Covid-19”. A iniciativa se trata de uma campanha de financiamento online para apoiar esse segmento durante o período da pandemia.

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Segundo Matuzza Sankofa, diretora da Casa Chama, muitas pessoas assistidas estão desempregadas, não têm moradia fixa e sobrevivem de trabalhos artísticos e prestação de serviços em eventos. “Sabe-se que 90% das pessoas estão no trabalho sexual, mas com a pandemia não seria mais possível estar na rua, ou seja, a sobrevivência delas seria muito prejudicada. Então, a casa percebeu que seria importante auxiliar essas pessoas com alimentação. Elas já são vulnerabilizadas pelo Estado e pela sociedade, mas sabíamos que se agravaria nesse momento”, afirma.

Em três meses, o financiamento proporcionou a entrega de cerca de 900 cestas de alimentos na capital paulista e na região metropolitana, além do envio de cestas para a Bahia. Cerca de 70 pessoas também receberam um auxílio moradia no valor de R$ 250 para ajudar nos custos do aluguel. Há ainda 260 pessoas atendidas mensalmente com cestas de alimentos e que já estavam incluídas no planejamento anual.

“Estamos tentando diminuir o processo de vulnerabilidade, com isso ainda conseguimos atrair mais pessoas. Algumas, não nos conheciam, passaram a conhecer e ter como referência de cuidado, proximidade e articulação política”, analisa a diretora. Matuzza informa que uma pesquisa é realizada na instituição e que 56% das pessoas assistidas são negras.

Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

A Casa Chama é uma organização civil que surgiu no período das eleições presidenciais de 2018 com o objetivo de fortalecer a comunidade trans.  “A gente percebeu que o novo cenário político nos tornaria ainda mais vulneráveis”, comenta a diretora.

Em 2019, foram realizadas 344 ações pela Casa, com protagonismo das pessoas assistidas, abrangendo atendimentos de saúde, projetos culturais e assistências jurídicas, atingindo cerca de 4.000 pessoas diretamente.

Atualmente, cerca de 50 pessoas trans são assistidas de forma presencial pela organização. Em paralelo, cerca de 210 pessoas trans são acompanhadas remotamente: 90% delas residem na cidade de São Paulo  e 85% se encontram em situação de profunda vulnerabilidade social.

Além dos alimentos, a campanha de financiamento também fornece produtos de higiene pessoal e limpeza, além de frascos de álcool gel, medicamentos e máscaras protetoras para essas pessoas atravessarem a quarentena com o mínimo de necessidades básicas.

“Estamos vivendo um momento de reorganização. A casa vai passar a ser uma associação e teremos uma atuação mais ampla. Este é o momento em que precisamos de apoio e que chamamos as pessoas cis-aliadas para nos ajudem a continuarmos crescendo e apoiando mais pessoas. Temos um lema na casa que é: quem acolhe é colhido e quem é acolhido acolhe, foi assim que cheguei na Casa Chama e assim me tornei diretora”, pondera Matuzza.

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