Algoz de Guardiola nasceu na Venezuela, jogava handebol e defendeu 'cantos de torcidas' na tese da faculdade

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Por Bruno Andrade

Tudo começou em Barcelona. Não a turística capital da Catalunha, mas sim uma cidade portuária no norte da Venezuela. De lá saiu o treinador que eliminou o badalado Manchester City de Pep Guardiola nas oitavas de final da Liga dos Campeões. Filho de emigrantes portugueses, Leonardo Jardim viveu pouco tempo na América do Sul, tendo, logo aos três anos, mudado para Portugal, onde passou a morar na Ilha da Madeira.

Apesar de apaixonado por futebol, o "reconstrutor" do Monaco também levou a sério a prática do handebol durante toda a adolescência. Perto de atingir a maioridade, resolveu dedicar-se apenas ao primeiro. Não chegou a ser profissional, mas nem por isso desistiu do sonho de fazer sucesso no esporte preferido. Formou-se em Educação Física com direito a tese que defendia e cobrava mais "cantos de torcidas" nos estádios. Na ocasião, usou como principal exemplo as (poucas) músicas nas arquibancadas da Eurocopa de 1996, na Inglaterra.

Aos 24 anos, Jardim finalizou o curso profissional de treinador e começou a trabalhar na comissão técnica das categorias de base do modesto Santacruzense. Passou ainda pelo desconhecido Portosantense antes de chamar a atenção no Camacha, outro clube com pouca expressão dentro do futebol lusitano. 

"O Jardim era fissurado em futebol, via todos o jogos e lia todos jornal. Vivia intensamente o futebol", lembra Ronaldo Marczinsk, ex-atacante brasileiro do Camacha, ao Blog Ora Bolas.

Com o lema "Deus gosta de todos, mas gosta mais daqueles que ganham", o jovem comandante, então com 33 anos, recebeu a primeira grande oportunidade na carreira em 2007, no Chaves, da segunda divisão. Usou como cartão de visita o filme "300" no vestiário e rapidamente ganhou a confiança dos jogadores e dirigentes. Fez questão de mostrar que, juntos, poderiam chegar longe.

Leonardo Jardim, de fato, chegou longe. Treinou em seguida Beira-Mar, Braga, Olympiacos e Sporting, o clube de coração de toda a família. Trabalhou somente uma temporada em Alvalade, é verdade, mas o período foi suficiente para garantir o vice-campeonato nacional e recolocar o time na Liga dos Campeões - os leões haviam ficado na melancólica sétima colocação na temporada anterior, atrás até mesmo de Rio Ave, Paços Ferreira e Estoril.

Apesar da boa fase em Lisboa, o treinador, hoje com 42 anos, teve problemas internos com o presidente Bruno de Carvalho. Uma tentadora proposta do Monaco, que buscava um substituto para ocupar o cargo de Claudio Ranieri, selou a despedida do Sporting em maio de 2014. Chegou ao milionário clube do Principado curiosamente numa altura de "vacas magras". Na primeira temporada, viu James Rodriguez e Falcao García saírem. Na segunda, perdeu Ferreira Carrasco, Martial, Kondogbia, Abdennour e Kurzawa.

Após altos e baixos, Jardim vive a terceira (e grande) temporada na França. Com futebol rápido e envolvente, resultado da juventude de Jemerson, Sidibé, Mendy, Fabinho, Lemar, Bakayoko, Bernardo Silva e Kylian Mbappé, todos com menos de 24 anos, aliado ao toque especial do veterano Falcao García, que, aos 31 anos, voltou para ser decisivo, o treinador português de origem venezuelana colhe os frutos da persistência. Está na mira do Arsenal, lidera o campeonato nacional com três pontos de vantagem para o PSG e, ao deixar o Manchester City para trás, tem motivos de sobra para sonhar com o título da Liga dos Campeões.