Capitã do Taboão quer ser escudo e voz das mais jovens no futebol feminino

ALBERTO NOGUEIRA E BRUNO RODRIGUES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A faixa no braço direito é mais do que um apetrecho que a identifica como líder de sua equipe. No caso de Alieni Baciega Roschel, capitã do Taboão da Serra, sua braçadeira é um escudo, e suas palavras, um manifesto. O placar já marcava 17 a 0 no intervalo do confronto com o São Paulo, pelo Campeonato Paulista feminino, na última quarta-feira (21), quando a volante fez um desabafo sobre a falta de estrutura profissional do clube para encarar um compromisso diante de um adversário que está no topo da pirâmide. A entrevista, concedida à FPF TV, foi uma espécie de anestesia para preparar o ambiente do pós-jogo, que terminou 29 a 0 a favor das são-paulinas e escancarou o desequilíbrio que ainda há entre times que disputam competições de elite na modalidade. Nini, como é conhecida a atleta, tem 32 anos. Professora de educação física da rede estadual, joga bola por prazer. Mas faz questão de ser a voz de protesto para meninas mais jovens, que almejam a possibilidade de viverem profissionalmente do futebol. "A gente não gosta de perder nem no par ou ímpar. Mas o que me motiva sempre é saber que tem muitas meninas lutando pelos sonhos delas, e nós, mais experientes, precisamos manter esse sonho aceso. Não podemos deixar elas desmotivarem. Eu tenho isso como uma obrigação. Poder ajudar outra pessoa a realizar um sonho que eu não realizei [viver só do futebol] é o que me motiva a não desistir nunca", diz Nini, emocionada, em entrevista à reportagem. Criada em Itapecerica da Serra, município da região metropolitana de São Paulo, a jogadora tem uma história que é comum a tantas outras atletas de sua idade. Cresceu jogando com os meninos, em um campo de grama natural cuidado por seu avô. "Eu sempre joguei com os meninos. E sempre tive na minha cabeça que eu gostava de futebol, mas não imaginava que seria jogadora profissional", conta. Aos 17 anos, recém-admitida na faculdade de Educação Física, disputou os Jogos Regionais e conheceu Sandra Santos, hoje coordenadora das categorias de base femininas e auxiliar técnica do Santos Futebol Clube. Foi Sandra a responsável por despertar na jovem o interesse em jogar profissionalmente. Entretanto, com familiares atuantes na área de educação, ela decidiu investir principalmente em sua formação acadêmica, conciliando os estudos com passagens por clubes como Pindamonhangaba, Botucatu, Embu das Artes e Juventus-SP. Formada em educação física e pedagogia e com pós-graduação na área de deficiência intelectual, se tornou professora da rede estadual e trabalha dando aulas para crianças em escolinhas de futsal. Seu sonho é montar uma equipe feminina. Também professora de futsal da Prefeitura de Itapecerica da Serra, ela trabalha com turmas mistas de meninos e meninas. No início do ano, havia reunido cinco garotas para dar início ao projeto de um time feminino, que foi interrompido pela pandemia. A paralisação geral, porém, lhe deu uma nova oportunidade no futebol profissional. Nenê, técnico do Taboão da Serra, convidou Alieni para fazer parte da equipe na disputa do Campeonato Paulista. "Em uma reunião, antes de eu aceitar, vi no olhar das meninas aquela satisfação em estar ali, tendo aquela oportunidade, e aí eu não consegui dizer não", afirma a volante, que se tornou capitã do time montado às pressas, há pouco menos de três meses. O clube não paga salários às atletas, que recebem apenas uma ajuda com transporte e alimentação no dia do jogo. Elas também não têm uniforme de treino. Boa parte do material para treinar, por exemplo as bolas, foi doado pela Federação Paulista de Futebol (FPF). "Algumas levam de duas a três horas para chegar no treino. Mas todas elas têm consciência de que estão brigando por um sonho e que precisam fazer das tripas coração. Se você desistir do seu sonho, as pessoas não vão acreditar que você tem essa capacidade. Então, faça de tudo, faça o que você precisa fazer para estar no treino, pois treinar é importantíssimo para no dia do jogo você ter uma visibilidade maior", afirma Nini. Ela conta que, após a goleada de 29 a 0 sofrida para o São Paulo, as jogadoras do Taboão receberam diversas mensagens de apoio de pessoas ligadas ao esporte. Ela e outras mais experientes do elenco também se reuniram com a diretoria do clube para pedir que o departamento feminino não seja fechado assim que o Paulista terminar. No último domingo (25), o time voltou a campo, desta vez para enfrentar a Ferroviária, outra potência do futebol feminino brasileiro. A partida acabou 14 a 0 para a agremiação de Araraquara. A reportagem procurou membros da direção do Taboão para saber se o time será mantido e receberá mais investimentos, mas não obteve retorno. Logo após o elástico resultado de quarta, em nota, o clube disse que apoia sua capitã e as demais atletas. Nini reconhece que o futebol feminino deu passos importantes nos últimos anos, mas segue cobrando melhorias para que goleadas como a sofrida para o São Paulo e Ferroviária não se repitam. Para ela, mais competições oficiais no calendário do futebol feminino paulista poderiam ajudar a minimizar as diferenças técnicas, mantendo as jogadoras de clubes menores mais tempo em ação durante o ano. "Há competições de base surgindo pela federação e isso é importante, porque incentiva as equipes a montarem os times e assim no futuro, quem sabe, ter uma estrutura para que a menina chegue preparada. Para quando ela bater à porta do alto nível [no profissional], não caia e fique sem ter para onde ir", completa. De 2016 a 2020, a ex-capitã da seleção brasileira Aline Pellegrino comandou o departamento de futebol feminino da Federação Paulista e liderou a criação do primeiro torneio estadual de base, sub-17, além da primeira peneira para meninas organizada pela entidade. Hoje, ela comanda a estrutura de competições da CBF. Quem assumiu suas funções na FPF foi Ana Lorena, ex-dirigente da Ferroviária. A atual coordenadora afirma que a pandemia ajudou a criar disparidades técnicas no torneio e que a criação de uma segunda divisão estadual, com acessos e descensos, está em pauta na FPF. "Certamente algumas rotas precisam ser corrigidas, como um controle mais rigoroso para participação nas competições, mas trabalhamos para o equilíbrio e a excelência máxima da competição", diz Ana Lorena. "Antes da pandemia, havia a previsão do pagamento de cotas de participação para os clubes, além de premiação para campeã e vice-campeã. As premiações estão mantidas, mas as cotas de participação foram revertidas justamente para custear a nova logística de jogos, ambulância extra, credenciamento especial, delegado de partida e testes de Covid-19, medidas que o momento de pandemia exige, sem que os clubes tenham sido onerados", completa. No último domingo (25), quatro dias depois de golear o Taboão, o São Paulo aplicou 12 a 0 no Realidade Jovem, pela terceira rodada do Estadual. O resultado, de novo impressionante, desencadeou novo desabafo, desta vez de Débora, do Realidade. "A gente acordou 3h da manhã para vir jogar. Veio de viagem, chegou e já foi para o aquecimento", afirmou a atleta.