Campeãs de taekwondo se sentem derrotadas pelo Talibã no Afeganistão

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A campeã afegã de taekwondo de 2018, Zarghunna Noori, posa com sua medalha em 21 de setembro de 2021 em uma casa na província de Herat (AFP/Hoshang Hashimi)

Zarghunna Noori sempre foi uma lutadora. A campeã de taekwondo, de 22 anos, sonhava em representar o Afeganistão nas Olimpíadas de Paris em 2024. Mas, desde que o Talibã chegou ao poder, ela tem a sensação de ter sido derrotada.

"Todas as nossas vidas foram alteradas", lamenta ela, entrevistada pela AFP em sua casa em Herat, a principal cidade do oeste do Afeganistão.

"No esporte, quando perdemos, nos sentimos terrivelmente mal", analisa. "E fomos derrotadas pelo governo do Talibã", diz ela, referindo-se aos sinais de que o movimento islâmico vai proibir as mulheres de praticar esportes.

Zarghunna Noori conquistou o título nacional em 2018 e treina a seleção feminina, com sede em Herat.

"Todas as integrantes da equipe de taekwondo sonhavam um dia participar das Olimpíadas ou hastear a bandeira afegã em competições internacionais", lembra ela, rodeada de medalhas.

"Mas agora somos todos obrigadas a ficar em casa. A cada dia ficamos mais deprimidas", acrescenta.

O Taekwondo é uma arte marcial coreana na qual os lutadores alternam golpes com as pernas e punhos.

Em 2008, Rohullah Nikpai deu ao Afeganistão a primeira medalha olímpica de sua história ao conquistar o bronze em Pequim na categoria masculina.

Cerca de 130 meninas entre 12 e 25 anos fazem parte da academia afegã da modalidade, localizada em Herat. Mas elas não têm mais permissão para treinar, confessam em entrevista à AFP.

Na semana passada, o novo diretor afegão de esportes e educação física, Bashir Ahmad Rustamzai, declarou que o Talibã vai autorizar "400 esportes". Mas ele não esclareceu se as mulheres podem praticar qualquer um deles.

Os talibãs praticavam uma estrita segregação das mulheres quando assumiram o poder entre 1996 e 2001, excluindo-as de qualquer atividade esportiva. Agora, um mês depois de retomarem o poder no país, eles estão tentando passar uma imagem mais suave para a comunidade internacional.

- Esporte feminino "não é necessário" -

Seu governo parece ter consentido com o retorno às salas de aula para todas as mulheres, do ensino fundamental à universidade, ainda que com restrições, após ter proibido durante seu governo anterior. Mas o esporte é outra questão.

Ahmadullah Wasiq, membro da comissão cultural do Talibã, estimou recentemente que "não é necessário" que as mulheres pratiquem esportes. A sharia, lei islâmica, proíbe, segundo os fundamentalistas, a mistura dos sexos nas atividades da vida pública e obriga as mulheres a disfarçarem as silhuetas de seus corpos.

"Todas nós treinamos e fizemos o nosso melhor. Mas foi inútil", lamenta Zarghunna Noori, que está no quarto ano de Educação Física na Universidade de Cabul.

Muitas atletas se trancam em suas casas por medo de eventuais represálias do Talibã, diz ela. E quando decidem sair, se escondem atrás de uma burca e nem podem usar tênis, continua Noori.

No entanto, a ex-campeã do Afeganistão deseja retomar os treinos, para que "dez anos de muito trabalho não sejam desperdiçados". Embora ela acredite que será forçada a deixar o Afeganistão porque "as circunstâncias são tais que não vemos como progredir no país".

Zarghunna Noori pede ajuda de "todos os atletas internacionais, atletas olímpicos e membros do Comitê Olímpico" para que ajudem suas companheiras e ela mesma a "ir para um lugar melhor".

Zahra, de 22 anos, também membro da equipe nacional de taekwondo, se sente "impotente".

Todos seus colegas de disciplina, homens e mulheres, estão descontentes com a chegada do Talibã ao poder, disse ela à AFP. "Nem os homens têm todas as liberdades", diz Zahra, para quem o Talibã é "igual ao do passado".

"Eles não deveriam atrapalhar as mulheres", reclama.

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