Campeão Sul-Americano, Carlos Amadeu defende essência do futebol brasileiro e explica trabalho na base

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Toques rápidos, triangulações, verticalidade e muita habilidade. Em março, a Seleção Sub-17 encantou o mundo na conquista do título Sul-Americano da categoria. Mais do que levantar uma taça, os jovens brasileiros fizeram os mais saudosistas lembrarem do futebol que consagrou a Canarinho como a dona do futebol arte. Um grande trabalho do baiano Carlos Amadeu e sua comissão técnica que conduziram os atletas numa campanha impressionante. Foram sete vitórias, dois empates, 24 gols marcados e apenas três sofridos.

As boas exibições da Canarinho chamaram tanto à atenção, que o técnico da seleção sub-17 da Colômbia, Carlos Restrepo, chegou a comparar com o futebol apresentado pelas seleções de 70 e 82. Em entrevista exclusiva à Brasil Global Tour, Carlos Amadeu, falou sobre o trabalho de base que vem sendo feito no Brasil e defendeu o estilo ousado como essência.

"Eu acho que esse é o estilo do futebol brasileiro, eu cresci vendo as Seleções Brasileiras, cresci vendo grandes times do futebol brasileiro jogando dessa forma e nem por isso deixando de ser competitivo. O grande desafio é a gente jogar da melhor maneira possível, agradando aos olhos do nosso torcedor e sendo competitivo. A gente por não ter ganho a copa de 82, de 86, parece que a gente foi para um outro lado e tudo começa do zero, acho que a gente tem que preservar o que a gente tem de positivo, corrigir as dificuldades que tivemos naquele processo mas não negar, aquilo que a gente sempre foi bom, imitado, respeitado e valorizado pelo mundo todo. O futebol brasileiro tem essa forma de jogar, triangulações, futebol ousado sendo competitivo, sem perder a sua essência".

Carlos Amadeu


(Foto: Sebastián Martínez/Carlos Muga/Conmebol)

Carlos Amadeu tem vasta experiência com categoria de base, esteve desde o início, quando os clubes brasileiros começaram a desenvolver um trabalho mais profissional e direcionado para a formação de atletas, envolvido nesse processo. Soma títulos por clubes como Bahia e Vitória e na própria Seleção, onde também conquistou o título Mundial sub-15. Com propriedade, Amadeu analisou o trabalho feito para o desenvolvimento dos técnicos que trabalham com a base.

"Apesar de todas as contestações eu acho que a gente vem numa crescente muito positiva, sobretudo pelo cuidado que está tendo com a formação dos treinadores da base, é muito novo, muito recentemente o curso de formação de treinadores da CBF. Começamos em 2009 e ganhou força a partir de 2012/2013 e esse curso de formação veio a fundamentar toda a prática que nós tínhamos. Nós tínhamos um conhecimento muito empírico e com esse respaldo dos cursos, ouvindo várias escolas do mundo todo a gente pode aprofundar ainda mais o nosso conhecimento e isso vai contribuindo cada dia que passa com a formação desses jovens atletas".

Comissão técnica Seleção Sub-17


(Foto: Gregório Fernandes / CBF / Divulgação)

Nessa mesma linha, Amadeu defende uma maior aproximação entre os clubes brasileiros e os europeus com a intenção de integrar ainda mais as escolas.

"O que a gente precisa é trazer para esse jovem atleta um nível de competitividade semelhante ao que a Europa vem fazendo. Na Europa eles estão jogando muito, eles tem feito muitos torneios entre eles e a Seleção Brasileira tem participado, mas os clubes brasileiros precisam convidar mais esses clubes e também vistar mais outras escolas para que aconteça esse intercambio e a gente entenda mais de perto o que está acontecendo no futebol mundial".

Hoje, um grande problema na formação do futebol brasileiro é a pouca valorização do treinador que trabalha com a base. Com salários baixos, a busca pela visibilidade se torna constante fazendo com que muitos profissionais se preocupem mais em conquistar títulos para ter o reconhecimento do que propriamente entregar um atleta pronto. Amadeu entende que é preciso criar uma estrutura equilibrada para consertar essa questão.

"Isso é uma questão estrutural, enquanto a gente não mudar essa valorização, essa pirâmide não for invertida, ou a gente criar uma estrutura mais equilibrada entre a valorização desse profissional e quando a gente fala da valorização, fala de visibilidade, fala de plano de carreira, de políticas salariais, para que esses profissionais sejam reconhecidos e valorizados profissionalmente para que eles entendam que são muito bons ali e que vão permanecer ali e nem por isso vão se desmotivar. Eu trabalho na base desde 92, eu tenho muitos anos de base, e lógico que já subi, já fui até o profissional e se aparecer uma proposta que eu entenda como sustentável, que entenda que seja algo muito positivo eu posso ir, mas para mim não me diminui em nada trabalhar com a formação, trabalhar com jovens atletas e entender que a remuneração no nosso país não vai ser tão grande como a profissional mas que consigo sobreviver e sustentar a minha família de forma digna e que para mim cada atleta revelado, cada atleta que desponta é um upgrade no meu salário".

Carlos Amadeu


(Foto: Leandro Lopes / CBF / Divulgação)

Ainda falando sobre o desenvolvimento, há uma grande discussão nas categorias de base do futebol brasileiro a respeito de formação x resultados. É evidente que a formação tem que ser o objetivo  principal, mas por questões culturais, nem sempre isso funciona aqui porque há grande pressão por títulos independente de idade. Amadeu lembrou uma conversa com um treinador do La Masía, divisão de base do Barcelona, e destacou o fato da necessidade de "tranquilizar" o dirigente.

"Certa vez eu estava disputando um torneio na Alemanha e eu trabalhava no Vitória e enfrentamos o sub-20 do Barcelona, na semifinal derrotas eles por um a zero e fomos para a grande final e em conversa com o treinador do Barcelona eu perguntei se isso repercutia para eles negativamente e ele falou que ele seria avaliado pelos conceitos de jogo, se estava tudo sendo cumprido e o resultado foi negativo em termos números estava tudo bem, mas se ele ganhasse o jogo e ganhasse de uma forma que não agradasse a filosofia de jogo do clube ele seria questionado e seria cobrado por isso"

"A gente tem uma cultura no Brasil do resultado imediato, a gente quer tudo ao mesmo tempo e isso as vezes atrapalha, mas eu acredito que um treinador que já tenha uma certa vivência, que conheça o caminho e que possa tranquilizar o dirigente para que ele entenda que não vai ganhar todas mas tem um trabalho sendo construído de forma sólida para revelar jogadores para o time profissional e conquistar títulos. Não adianta ele botar um monte de jogador desqualificado, apenas com um nível de força muito grande e apenas conquistar o título, mas que a gente possa ter jogadores qualificados, conquistar títulos e revelar jogadores. Dá para fazer as duas coisas juntas, um trabalho bem feito, pode transformar jogadores com qualidade, competitivos e organizados. Time que trabalha só pelo resultado, ou time que trabalha só para formação, dá para fazer as duas coisas".

Vinicius Junior Brasil


(Foto: Lucas Figueiredo / CBF / Divulgação)

Carlos Amadeu também foi enfático ao defender a continuidade de trabalho para que o resultado lá na frente seja positivo e que diminuam o número de promessas que ficam pelo caminho. A conquista do Sul-Americano sub-17, por exemplo, começou em 2015, quando esta geração, a geração 2000, comandada por ele, disputou o Mundial sub-15 e apesar de ter conquistado o título, o treinador acredita que é preciso respeitar o que já foi construído mesmo quando as conquistas não aparecem.

"Não é porque não conquistou o título que vai começar tudo do zero, a gente no Brasil tem mania de começar tudo de novo, não respeitar o que já foi construído.  Nem sempre vamos ter gerações tão talentosas, a gente vai ter sempre as entre safras, um time vai ser melhor que o outro. Mas nem tudo é maravilhoso e nem tudo é péssimo, a gente tem sempre um equilíbrio".