Campeão aos 42, Nicholas Santos tenta se acostumar à vida fora da piscina

***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 05.05.2017: Nicholas Santos. (Foto: Mauro Pimentel/Folhapress)
***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 05.05.2017: Nicholas Santos. (Foto: Mauro Pimentel/Folhapress)

SANTOS, SP (FOLHAPRESS) - O nadador Nicholas Santos, 42, pela primeira vez em muitos anos assegura ter parado de contar o tempo.

"Nadei um pouco esses dias, mas foram uns 800m só para soltar. Antes, era no limite da exaustão, da quase lesão. Hoje, não tenho mais essa necessidade de contar o tempo", disse à reportage.

No último dia 14 de dezembro, ele precisou de exatos 21s78 para vencer a prova dos 50m estilo borboleta no Mundial em piscina curta (25 metros), em Melbourne, na Austrália.

O resultado quebrou o recorde do campeonato, que era dele mesmo. Foi a sexta vez que ele atualizou a própria marca de nadador mais velho da história do esporte a ir ao pódio de um Mundial.

Logo após a conquista, em entrevista concedida ainda no próprio complexo e retransmitida para todo o mundo, ele anunciou a aposentadoria.

"Estou ficando velho e deixando isso para os jovens", afirmou na despedida.

Nicholas se tornou uma referência em matéria de desafiar o tempo, mas precisou da resiliência para superar dificuldades na longeva carreira.

Ele tinha só metade da atual idade quando participou do primeiro mundial da carreira, em 2001, em Fukuoka, no Japão.

Terminou a prova dos 50m estilo borboleta com um modesto 28º lugar geral, eliminado com o tempo de 24s8, e ainda a um abismo de distância da marca de 23s50 do australiano Geoff Huegill, medalhista de ouro na ocasião.

"Aprendi a ser resiliente, acho que essa é a minha maior marca", diz Nicholas.

"Pensando na minha carreira, sinceramente, até passei do prazo. Há alguns anos a aposentadoria já passava pela minha cabeça. Poderia ser agora, ou ano que vem, mas fiquei muito feliz pela forma como aconteceu."

Dois anos depois da estreia, em Barcelona, o desempenho foi ainda pior: a 40ª colocação e um tempo de 25s15. Em 2004, em Indianápolis, faturaria as duas primeiras medalhas em mundiais.

Em Melbourne, ficou próximo do recorde mundial, que é dividido entre ele e o húngaro Szebasztian Szabo, 21s75, e deixou para trás o suíço Noe Ponti, 21 anos mais novo.

De forma individual, foi a quarta medalha de ouro em mundiais de piscinas curtas, a nona se somadas a mais uma prata, além de outras três pratas e um bronze em piscinas longas.

Também tem no currículo medalhas nos revezamentos 4x100m livre e 4x50m medley masculinos, além dos 4x50m medley misto. Agora, sobra tempo para recomeçar.

"Será um recomeço, agora, porque foi uma vida inteira na natação. Sei que tinha condições de continuar competitivo para, por exemplo, bater de frente com o Caeleb Dressel (dono de oito medalhas olímpicas e atual recordista olímpico dos 50m livre), mas precisaria estar 100% nisso. Não queria entregar 80% ou menos", explica.

Nicholas ainda não sabe ao certo como será a vida longe das piscinas. Horas depois da conquista, após longo tempo entre premiação, controle antidoping e locomoção para o hotel, ele dormiu somente três horas e voltou para a piscina para um treinamento antes de nadar o revezamento 4x50m livre ao lado de Pedro Spajari, Gabriel Santos e Lucas Peixoto —o país terminou em oitavo.

Depois disso, ainda se reuniu com representantes da Fina (Federação Internacional de Natação) e aceitou o convite para ser embaixador internacional da entidade.

"Recebi um convite direto do presidente, achei interessante. No Brasil, por enquanto, não vejo chances de ser treinador porque não tenho formação para acompanhar um atleta. Talvez possa ajudar como gestor de uma equipe, mas a borda da piscina ainda não."

Desde 2021, ele concilia a carreira nas piscinas com funções como manager da Oxygen, plataforma de treinamento para atletas de alto rendimento que conta com nomes como Léo de Deus e Guilherme Basseto, mas trabalha principalmente com a formação de jovens potenciais da modalidade.

"Vou me reunir com os meus sócios para falarmos sobre isso. Existem projetos da Lei de Incentivo ao Esporte para melhorar a estrutura em que treinamos, ter mais auxílio para os profissionais envolvidos. Hoje tiramos do próprio bolso para pagá-los", afirma.

Apesar da aposentadoria, a alimentação regrada –sem glúten, lactose e açúcar–, além de momentos de meditação, seguirá normalmente.

"As pessoas têm dificuldade de entender o que é um estilo de vida, acham que faço por sacrifício, mas gosto de ser assim. Estudei para isso e isso, para mim, é viver feliz", explica.

Estarão de fora da nova rotina os temidos tempos e muitos detalhes fundamentais para a construção de novos recordes.

Para chegar ao ouro em Melbourne, ele se classificou em 14º lugar na primeira eliminatória sem se depilar técnica utilizada para melhorar o deslizamento do corpo na água. Foram somente 16 classificados.

Depois, na semifinal, depilou e mudou de estratégia e terminou em quarto entre os oito finalistas. Na final, nova tática para encarar os nove graus na Austrália.

"Eu sabia que tinha acabado antes de encostar na borda. A aposentadoria é uma situação bem clara e definida para mim".

Nicholas conquistou ao todo 54 medalhas na carreira e desafiou o tempo. Aos 42 anos, pode, enfim, parar de olhar para o relógio.