Campeã olímpica, Sarah Menezes vive dupla jornada: ser mãe de Nina e técnica da seleção brasileira de judô

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Dos cerca de 50 minutos de entrevista com Sarah Menezes, de 31 anos, a novatécnica da seleção feminina de judô e mãe de Nina, de 8 meses, uns 40 foram dedicados à maternidade e ao desafio da transição alimentar da bebê. A ex-judoca, campeã olímpica há exatos dez anos, em Londres-2012, não teve tempo nem de respirar nos últimos anos. Tentou vaga para Tóquio-2020, engravidou durante os treinamentos, se aposentou em 2021 assumiu a seleção para Paris-2024. Casada com o judoca francês Loic Pietri, adiou o sonho de finalmente morar com ele na França para se manter no judô, do jeito que ela gosta: orientando os atletas.

Sarah comentou que não foi fácil convencê-lo. Nina é a única neta da família paterna. Ela e Loic se conheceram no Mundial de Kazan, na Rússia, e noivaram em 2018.

— Ele até falou assim: 'nossa você disse que vinha morar aqui e já aceitou um emprego'? O que respondi? Tenho de pagar as minhas contas — brinca Sarah, que estava morando em Paris, desde outubro — Achamos que a mudança de país aconteceria agora, mas eu voltei. Já queria ser treinadora, acho que tenho jeito e não abriria mão de um convite como esse.

Sarah conta que não havia procurado emprego em Paris pois se sentiu insegura, com uma bebê pequena e sem falar a língua fluentemente. Convenceu o marido a embarcar com ela nesse desafio com o seguinte argumento:

— Ele poderá se dedicar exclusivamente aos treinos, sem ter de acordar de madrugada. A fase inicial foi difícil. E se tudo der certo, estaremos em Paris-2024. Ele competindo em casa e eu, com o Brasil. Neste ciclo, que é curto, ficaremos lá e cá.

Nina permaneceu ao lado de Sarah durante a entrevista. Ficou no colo da vovó Olindina, de 67 anos, enquanto a treinadora contava sobre as decisões tomadas, a gravidez tranquila mesmo após contrair Covid, e como se prepara para a primeira separação da bebê. Sarah viajará com a seleção para Portugal e ficará o mês de fevereiro longe dela. Olindina e Nina a acompanharão nos treinos e concentração no Brasil. Foi o único pedido feito à Confederação Brasileira (CBJ).

— Minha mãe vai me mandar vídeo toda hora... não sei se será bom fazer chamada — fala Sarah, que conversou com outras mamães do judô, como Rosicléia Campos, ex-técnica e coordenadora da CBJ que engravidou de gêmeos (Matheus e Ana Clara) no ciclo Rio-2016, e com a nutricionista Roberta Lima, que foi para Tóquio-2020 sem Júlia que tinha 7 meses. — Me disseram que nesta fase quem vai sofrer mesmo sou eu. Minha mãe está cheia de netos e a Nina terá sempre a companhia de crianças, inclusive com idade próxima.

Nina tem cinco primos: Arthur (2 anos), filho de João Vitor (21); Camila (2), filha de Samara (36); Pedro (7), Gabriela (5) e Caio (1), filhos de Sâmia (39). Fora os “agreagados”, frisa Sarah.

Olhar técnico

Segundo Ney Wilson, gestor de alto rendimento da CBJ, o nome de Sarah foi fortemente defendido para o posto tanto por atletas como por dirigentes. Diz que era reconhecida como atleta observadora, com visão de luta, inteligente para encontrar saídas técnicas, paciente e tranquila. Por isso, no final da carreira como judoca, já era procurada por companheiros para aconselhamentos.

Ney se viu pressionado a mudanças após os resultados do judô em Tóquio. Esporte que mais medalhas olímpicas garantiu ao Brasil, 24 (quatro ouros, três pratas e 17 bronzes), o judô teve dois bronzes (Daniel Cargnin e Mayra Aguiar). A pior campanha desde Atenas-2004 e por isso, a entidade receberá em 2022 cerca de meio milhão a menos de repasse da Lei Agnelo Piva (R$ 7 milhões). Em 2021, o valor foi de R$ 7,5 milhões.

À época, Ney admitiu que o ciclo marcado pela pandemia não possibilitou intercâmbio aos jovens e que faltou melhor preparação.

— Revigorar e trazer ideias novas já era uma meta. E o nome da Sarah veio com muita evidência — disse ele.

Além de Sarah que substitui Mario Tsutsui, Andréa Berti deixou a seleção júnior para assumir o posto de coordenadora técnica feminina. No masculino, assumiu Antonio Carlos Pereira, técnico da Sogipa, maior vencedor do judô brasileiro nas últimas décadas, no lugar da japonesa Yuko Fujii agora, coordenadora do masculino).

No tatame, também teve mexidas. Apenas os medalhistas olímpicos e os que chegaram às quartas de final em Tóquio e no Rio garantiram vaga na seleção em 2022. Uma seletiva completou o grupo.

No caso do feminino, das 18 atletas, oito são estreantes. O grupo participará de etapas do Circuito Mundial em busca da classificação para o Mundial de 2022, que acontecerá em agosto.

Mas, a chegada de mais uma variante do novo coronavírus preocupa. Assim, como ocorreu no ciclo passado, Sarah teme cancelamentos das competições.

— A Covid tem de permitir a rodagem. Se não, estamos lascados. Uma equipe jovem, sem rodar, terá mais dificuldade de apresentar resultados. É preciso pegar no quimono do rivais para ter confiança. Ainda bem que tenho uma paciência infinita. Sou muito calma, não me estresso. Estou pensando até em fazer o segundo filho — brinca.

A entrevista acabou com Nina pedindo o peito para mamar. O que Sarah atendeu prontamente.

— Minha mãe disse que quando eu voltar de viagem ela não vai querer mais o peito. Mas eu vou tentar. Ela não nega nada, aceita tudo. Uma coisa que aprendi é que tem muito mito na maternidade. Cada uma tem uma história. Eu tive uma excelente gravidez mesmo com o susto da Covid. Ela nasceu prematura, após cirurgia de emergência, e não tínhamos nem lavado as roupas da bebê.

Sarah comenta que quer ser uma treinadora técnica. E se compara a Rosicléia, mais emotiva.

— Eu sou mais calma, minha emoção é contida. Fico nervosa? Difícil. Choro? Pouco. Tenho muita tranquilidade e controle. Até quando fui campeã olímpica. Tenho de mostrar o caminho, mesmo duro, e encarar os obstáculos junto dos atletas. No final das contas, o que quero é ouví-los, entender o que estão passando. Ajudar na parte psicológica também. Quero ser uma mãezona.

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