Brasileiras ajudam a reestruturar futebol feminino no Equador

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Camila Aveiro e Emilly Lima aceitaram desafio de reformular futebol feminino no Equador (Arquivo pessoal)
Camila Aveiro e Emilly Lima aceitaram desafio de reformular futebol feminino no Equador (Arquivo pessoal)

Semifinal da Copa Libertadores da América, 2 de outubro de 2019. Grande expectativa para o encontro entre os brasileiros Grêmio e Flamengo, em solo gaúcho. Bola vai, bola vem e, Pepê para o Tricolor e Bruno Henrique para o Rubro-Negro, em 1 a 1 a peleja termina. Enquanto muita gente, pós-jogo, teoriza como será a disputa decisiva, Camila Aveiro, em São Lourenço da Mata-PE, que assistia despretensiosamente ao embate, a 3.637km do local do confronto, recebe uma mensagem inesperada. “Posso te ligar?” O remetente é a treinadora Emilly Lima, ex-comandante da Seleção Brasileira Feminina, atual técnica da modalidade no Equador.

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“Levei um sustaço”, conta Camila. “A gente só se falava por mensagem e era algo muito pontual. Eu tinha uma admiração absurda por ela, só faltava chamar de vossemecê.”

Aveiro tem 26 anos, nasceu em Guarulhos, São Paulo, e migrou para Pernambuco ainda cedo, aos dois anos. Em São Lourenço da Mata, município da região metropolitana do Recife, notou apreço pelo futebol desde muito miúda. “Eu morava na frente de uma praça e, por isso, vivia brincando com os meninos da rua. Sempre gostei de futebol e de esportes em geral, mesmo proveniente de uma família sedentária. Não sei como aconteceu, mas desde pequena eu já preferia bola em vez de boneca”.

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Naquela quarta-feira, o pedido de ligação de Emilly representaria o ápice, até então, de uma caminhada extenuante de busca por inserção no mundo do futebol. Sem cerimônia, telefone ao pé do ouvido, a pergunta foi direta: “Você está pronta para trabalhar sendo a minha analista de desempenho?” Camila não deveu na sinceridade: “Não estou, mas vou.”

Naquele momento, Emilly era a mais cotada a liderar uma reestruturação do futebol feminino equatoriano. A partir do convite, Camila iniciou a elaboração de uma série de estudos sobre a modalidade no país, dando suporte ao processo que a treinadora vinha passando por parte da federação local. Ao fim, com tudo confirmado e contrato assinado, o trabalho seria árduo, aglutinando as categorias Sub-17 e Sub-20, além da principal.

“Tudo o que eu tinha eram algumas convocações impressas, só com o nome da menina, posição e o clube. Nada mais. A gente conseguia pouquíssimos jogos. A Superliga Feminina Equatoriana não existia nas principais plataformas como InStat e WyScout”, conta Camila.

Não havia qualquer trabalho a ser dado continuidade. Emilly, Camila e Felipe Menezes, assistente, teriam que dormir poucas horas, acelerar a adaptação e buscar transformações de forma imediata.

“Criei tudo do zero. Hoje, tenho um banco de dados. O controle da menina que passou pelas convocações, quantas já fizemos, controle da superliga (competição local da modalidade), minutagem, cartões, gols. Tudo isso, fui criando com as minhas ideias no Excel", detalha Aveiro. "Temos um registro com foto de todas as meninas que passaram pela gente, além de um banco de dados mais descritivo. Catálogo de treinos, de amistosos que fizemos, jogos em cada convocação, quantidade de clubes que já convocamos. Até a análise de mercado eu também faço. De quem foi para onde, se está jogando numa posição diferente. Hoje, o banco de dados consta com mais de 350 jogadoras e já passaram por nós um pouquinho mais de 180, nas três categorias".

A trajetória de Camila: o início e a frustração

Dentro da família, a única relação de incentivo quanto ao futebol que Camila teve partiu do irmão, Diego, 33 anos. Não que fosse da maneira mais natural, já que a jovem garota era "forçada" (de forma carinhosa, claro) a assistir partidas do Corinthians. Inevitavelmente, aliando isso às peladas de rua, uma paixão no esporte se iniciava.

Aos 13 anos, Aveiro conseguiu entrar pela primeira vez numa escolinha. Jogou por dois anos pelo futsal do Sport Recife. Por diversos fatores, acabou saindo e, para não ficar parada, continuou treinando num projeto local de São Lourenço da Mata, chamado Sensação. Sem muito rigor metodológico ou um calendário de competições, a passagem serviu para criar vínculos com outros jovens da cidade. Mas ela queria mais.

Pesquisou e resolveu partir para São Paulo, junto com a mãe, e participou de peneiras no Santos, Centro Universitário Sant'Anna e Guarani. Três negativas. No retorno ao Nordeste, disputou um Campeonato Pernambucano Sub-20, pelo Instituto Federal de Pernambuco (IFPE). A passagem findou sem que o time fosse além da fase de grupos, naquela que foi a última competição de Camila como atleta. Ainda houve um teste pela equipe do Vitória de Santo Antão-PE, de cidade homônima, à época sob comando de Aline Pellegrino, mas o chance coincidiu com o desligamento da técnica e as coisas acabaram não fluindo. “Na verdade, depois disso eu desisti real de futebol. Por um período grande eu não assistia mais e nem jogava, nem por brincadeira. Tive essa frustração.”

Na época do último teste no Vitória, Camila já cursava Educação Física, na Universidade de Pernambuco (UPE). Ali poderia ser a oportunidade de se inserir no futebol de alguma forma. Dentro da academia, aceitou o desafio de ser treinadora da equipe feminina de futsal da instituição. Foram dois anos na função até decidir se aprofundar nos estudos sobre o esporte, a fim de fazer e publicar análises.

“Quando me formei, não consegui trabalhar com futebol. Por não conseguir, fui para o que é mais convencional na área de educação física, que é academia de musculação. Depois de um tempo, o Sport feminino jogou o Brasileiro na A1 e eu fui para todos os jogos em casa. Ia com caderno e caneta e com a ideia de anotar o que estava acontecendo. Desmembrar o modelo de jogo. Uns quatro jogos depois, eu já tinha entendido muita coisa e achei que estava pronta para mostrar para alguém", detalha.

A fim de encontrar alguém que avaliasse o que ela vinha fazendo, entrou em contato com Eduardo Cecconi, que na época era analista de desempenho do Grêmio. “Perguntei por DM: ‘Se eu mandar uma análise, tu me daria um feedback?’ E aí ele falou que sim. No dia seguinte fui para um jogo do Sport, com o celular, caderno e caneta. Tirei fotos de alguns momentos, editei de maneira extremamente rústica, e não quis mostrar só ao Cecconi. Publiquei a análise no site (Sou Sport Brasil) e mandei para ele, já o link.”

O retorno do profissional foi positivo, e Camila sentiu que deveria continuar nesse caminho.

As buscas por oportunidade

Em 2017, desempregada, Camila passou a buscar estágios dentro do futebol masculino em Pernambuco. Foi atrás dos três maiores, Sport, Náutico e Santa Cruz. Só não conseguiu espaço no Rubro-Negro. As passagens pelo Alvirrubro e Tricolor representavam uma bagagem volumosa para quem queria seguir no meio, mas ainda tinha muito a se fazer.

O retorno ao mercado de trabalho veio, mas ainda sem envolver o campo e bola. “Trabalhava com ginástica laboral e o que eu fazia era juntar dinheiro. Tirava o da passagem e não gastava mais com nada, ia todo para poupança”. O motivo era conseguir estágios por clubes paulistas, mais abertos ao futebol feminino. Conseguiu – e bancou tudo sozinha.

“No início de 2019, eu tinha um ‘coleguismo’ com Ana Lorena, que até então era coordenadora da Ferroviária de Araraquara. Fui atrás dele por uma rede social que nem lembro e perguntei para ela se não haveria a possibilidade de eu fazer um estágio lá. A Lorena me oportunizou esse estágio e a Ferroviária até então estava sem treinador, e eu não sabia que a Tatiele iria para lá na época. Só descobri assim que cheguei.”

Relação com técnica Tatiele Silveira foi mais uma conquista para Camila (Arquivo pessoal)
Relação com técnica Tatiele Silveira foi mais uma conquista para Camila (Arquivo pessoal)

No mesmo período, através da lateral Rosana, que lia textos de Camila no portal MW Futebol, surgiu a chance de estagiar com Emilly Lima no Santos. “Uma semana depois que eu fechei a data para ir para a Ferroviária, a Emilly autorizou a minha ida para o Santos. Fui verdadeira e falei que tinha conseguido na Ferroviária. Pedi para ir depois a e a Emilly aceitou. Peguei os primeiros 15 dias de pré-temporada na Ferroviária e os últimos 15 dias no Santos”.

No primeiro treino do Santos, Camila entrou e permaneceu calada. A admiração por Emilly era tamanha que gerava receio em se expressar. “Mas ela veio, me chamou e disse que eu perguntasse tudo”, conta Aveiro. Certa vez, um susto: do nada, Emilly pede que Camila dê um feedback de todo o treinamento para a roda de atletas. “Assisti ao treino como qualquer outro dia, e aí quando as meninas se sentaram, ela falou: ‘Quem vai falar como foi o treino é você’. Imagina, minha situação naquele meio. Eu com essa cara de menina e as jogadoras começaram a rir, porque todo mundo viu que eu me assustei na hora”. Ali era o início do vínculo que colocaria a jovem analista no radar da técnica e, futuramente, numa seleção nacional de futebol.

“Quando voltei para Pernambuco, em 4 de março de 2019, não mandava mensagem para a Emilly. Tinha um receio muito grande. Até que ela, dias depois, mandou um ‘oi, sumida’. Exatamente assim. E aí a gente trocou uma ideia, ela perguntou como eu estava e tudo o mais, e aí falou que me tinha nos planos dela. Até então, eu não sabia quais planos eram esses. Ela ainda estava no Santos, era a maior referência que a gente tem de futebol feminino no Brasil e eu não imaginava que ela pudesse me chamar para trabalhar com ela.”

A euforia após o convite

Depois da ligação da Emilly com a proposta e o aceite por parte de Camila, a empolgação bateu forte.

“Eu surtei nesse dia. Queria gritar, mas todo mundo estava dormindo. Era uma e pouca da manhã quando voltei para mim, após o choque de adrenalina. Lembro que a primeira pessoa que contei foi ao meu irmão. Mandei uma mensagem dizendo que tinha conseguido. Eu tenho muito do meu irmão na referência futebolística que eu consegui criar na cabeça, de estar assistindo jogo comigo, jogando Playstation.”

Além de Diego, a mãe também dava suporte ao sonho da filha. A resistência mesmo partia da avó. “‘Futebol nunca vai lhe dar nada. Você nunca vai ser ninguém na vida se não parar de estudar futebol. Não adianta de nada ficar indo para jogos’. Era só frase massa, motivacional da parte dela”, enumera, em ironia, Camila.

Emilly, Aveiro e o restante da comissão foram apresentados no dia 5 de dezembro de 2019. O contrato vai até o final de 2022, com possibilidade de prorrogação até o fim da Copa de 2023, em caso de classificação. Na incipiente jornada, certas mudanças já são notadas – e louvadas – pela equipe de trabalho.

“Temos muitos talentos no Equador. Muitos. Meninas que jogariam aqui no Brasil facilmente. Temos uma categoria Sub-17, por exemplo, que é muito fácil de trabalhar. O processo mais difícil é a mudança de comportamento, no sentido de que elas não acreditam nelas. Elas olhavam para a gente perguntando o que estávamos fazendo ali. A Emilly foi treinadora da Seleção Brasileira, por que estava no Equador? Tinham esse olhar desacreditado. Hoje a gente já vê esse balanço de que há sangue nos olhos de algumas jogadoras, sabe. Tem muita gente já incomodada por estar perdendo, porque conseguiu enxergar dentro do processo que a gente pode, sim, conquistar alguma coisa. Essa mudança foi o principal.”

Hoje no lugar onde queria estar, Camila rememora o momento em que contou para a mãe e a avó que iria para o Equador.

“Sentei as duas na cama, no período da noite, e falei: ‘Eu sabia que ia conseguir, e consegui. Hoje é o futebol que vai dar o meu sustento. Mas preciso ir para o Equador, porque a Emilly me achou para trabalhar com ela’. Aí foi comoção total, muito choro.”

E avó, reticente por toda uma vida sobre a ideia, não hesitou em reconhecer o feito neta.

“Ela não a é pessoa que pede desculpas, até hoje nunca pediu, mas foi a primeira vez que disse que tinha orgulho de mim por ter conseguido trabalhar com futebol, coisa que ela achava que seria impossível.”

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