Caixa-preta do BNDES: a fake news que custou R$ 48 milhões

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Foto: Luiz Souza/NurPhoto via Getty Images
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Se você estava vivo nas últimas eleições, você provavelmente defendeu ou ouviu alguém defender o voto em Jair Bolsonaro com o argumento de que alguém com coragem precisava abrir a “caixa-preta do BNDES”, que supostamente usava dinheiro do trabalhador para patrocinar esquemas esquerdistas por aí.

O hoje presidente passou a campanha repetindo o mantra. 

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A missão dada era a missão a ser cumprida na lista de prioridades que prometia livrar o Brasil das garras do comunismo, dos ativismos, do politicamente correto, dos pardais de rodovias, das cadeirinhas para bebê e da pornografia dos filmes nacionais.

Pois bem.

Terminada a eleição, e com a espada dos templários afiada para caçar todo tipo de fantasma que habitavam embaixo das camas e tapetes estatais, os novos gestores do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social contrataram uma auditoria para abrir trazer à luz os negócios entre a instituição e o grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista -- ou, segundo os grupos de WhatsApp, do filho do Lula.

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Em oito páginas, que custaram R$ 48 milhões ao banco, os escritórios de advocacia Levy & Salomão e Cleary, Gottlieb Steen & Hamilton, com sedes no Rio e em Nova York, analisaram oito operações realizadas entre 2005 a 2018. A ideia era saber se houve suborno ou corrupção entre as partes durante o período. Nada foi constatado.

“As decisões do banco parecem ter sido adotadas após considerações de diversos fatores negociais relevantes e ponderações dos riscos e potenciais benefícios para o banco”, diz o relatório do escritório americano.

Joaquim Levy, primeiro presidente do banco na gestão Bolsonaro, já havia declarado que não havia indícios de irregularidades nas transações. Fritado em praça pública, ele foi substituído por Gustavo Montezano, engenheiro e economista de 38 anos amigo que em sua posse prometeu dar prioridade ao mantra do presidente. Uma vez empossado, mudou de assunto e disse que “não há nada, nenhum evento a mais, que requer esclarecimentos”.

Isso porque a auditoria constatou (não com esses termos, claro) que a tal da caixa-preta era fake news. 

Em nota, o presidente da Associação dos Funcionários dos BNDES (AFBNDES), Arthur Koblitz, afirmou que as conclusões são convergentes com os fatos apurados em CPIs sobre o BNDES, em comissões de apuração interna e no primeiro posicionamento da Justiça sobre uma denúncia do Ministério Público contra empregados do BNDES. “Estes recentes fatos desconstroem de vez a fantasiosa ‘caixa-preta’ do BNDES, que políticos demagogos, com objetivos eleitorais mesquinhos, e alguns atores do mercado financeiro, que visam obter vantagens com a redução de tamanho do BNDES, lamentavelmente ainda tentam incutir na opinião pública.”

Ex-presidente do BNDES, o economista Luciano Coutinho, réu em uma ação movida pelo Ministério Público Federal sobre as relações entre o banco e o frigorífico, declarou à Folha de S.Paulo que o relatório expõe “a inconsistência e a falta de fundamentos da denúncia”.

Para ele, “vivemos um período complicado no Brasil, em que alguns direitos fundamentais da cidadania foram atropelados em processos em que a presunção de culpa substituiu a presunção de inocência.”

Esse “período complicado” é alimentado diariamente por meias verdades ou mentiras inteiras. A auditoria do BNDES mostra que a brincadeira custa caro. Quem paga por isso?

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