Caio Bonfim superou preconceito e doping para lutar por medalha em Tóquio

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LONDON, ENGLAND - AUGUST 13:  Caio Bonfim of Brazil, bronze, celebrates after the Men's 20 Kilometres Race Walk final during day ten of the 16th IAAF World Athletics Championships London 2017 at The Mall on August 13, 2017 in London, United Kingdom.  (Photo by Julian Finney - British Athletics/British Athletics via Getty Images )
Caio Bongim comemora a medalha de bronze no Mundial de 2017 (Julian Finney - British Athletics/British Athletics via Getty Images )

A vida do brasiliense Caio Bonfim, de 30 anos, o reservava um destino no esporte muito antes de nascer. É que o representante brasileiro da marcha atlética na Olimpíada de Tóquio tem DNA do atletismo familiar. Seu pai João Sena é técnico da modalidade. E a mãe, Gianetti Bonfim, foi campeã ibero-americana na marcha de 20 km. Aliás, pai e mãe o treinam.

Por definição, esta modalidade executa uma progressão de passos, de modo que o atleta sempre mantenha contato com o solo com pelo menos um dos pés. A perna que avança tem de estar reta desde o momento do primeiro contato com o solo até que se encontre em posição vertical. As provas são disputadas na distância de 20 km femininos, e de 20 km e 50 km masculinos. Acontecem em circuito de rua de no mínimo 1 km e no máximo 2,5 km.

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Resistência e técnica são habilidades fundamentais neste esporte que levaram às conquistas de Bonfim. Além de ter exigido dele amplo suporte emocional. Isto se explica: ao fazer os movimentos da marcha e que impedem de correr (voo), há algo semelhante a um rebolado. Nesta movimentação, o atleta teve de conviver com xingamentos homofóbicos no país.

“Já superei o preconceito e levo experiência de tudo”, desconversa o atleta que em 2016 quase conquista medalha nos Jogos do Rio de Janeiro, chegando em quarto na prova dos 20 km (cinco segundos atrás do medalha de bronze). Disputou ainda os 50 km e obteve o nono lugar.

Classificado antecipadamente desde 2019 para a distância de 20 km dos Jogos em Tóquio, Caio Bonfim estreou em Olimpíada apenas com o 39º lugar em Londres-2012, com a marca de 1h24min45s.

O brasileiro será um dos 60 competidores entre homens e mulheres a defender as cores nacionais na distância de 20 km. Nesta, que briga por medalha, terá como companhia o catarinense Matheus Correa, de 21 anos. O atleta da cidade de Blumenau obteve o índice este ano com o tempo de 1h20min49s13, novo recorde sub-23 do continente. Na mesma prova, ao competir no Torneio Cidade de Bragança, no interior paulista, Bonfim comemorou a quebra do recorde sul-americano do equatoriano Cristian Chocho, ao fazer a melhor marca da vida com 1h20min13s48.

Entre as mulheres, a pernambucana Erica Sena participa da prova de 20 km. A atleta do Esporte Clube Pinheiros, de São Paulo, vive em Cuenca, no Equador, e conquistou dois quarto lugares nos mundiais de Londres 2017 e Doha 2019.

No Brasil, o primeiro recorde reconhecido desta modalidade pertence ao marchador Ricardo Nuske, em 1973. Ele marcou 1h41min12s em prova em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. O primeiro brasileiro a participar da marcha atlética foi o paulista Marcelo Palma. Ele disputou os Jogos de Seul-1988 e terminou em 45º lugar entre 49, registrando o tempo de 1h31min42. Participou ainda da Olimpíada espanhola de Barcelona em 1992, com o 32º lugar.

Superação

Para que Bonfim, natural da cidade-satélite de Sobradinho (a 22 km da capital Brasília), chegasse à atual condição para os Jogos, a palavra superação encaixou-se com luva nos vários momentos de dificuldade até entrar para a história nacional ao ganhar medalha de bronze no Mundial de Londres, em 2017.

Na infância, teve meningite e problema de falta de cálcio nos ossos que necessitou fazer uma cirurgia. Além disso, um ano após faturar a medalha em 2017 na prova dos 20 km, vieram os baques: foi flagrado no doping por uso de substância Bumetanida. O caso de doping foi confirmado pela Unidade de Integração de Atletas (AIU), órgão da Associação Internacional da Federação de Atletismo (IAAF). O diurético é proibido pela Agência Mundial Antidoping (WADA) e ele recebeu seis meses de punição.

Caio perdeu a medalha, mas interrompeu a sequência da carreira brilhante. E mais: se recuperara de contusão recente no quinto metatarso do pé esquerdo. Fatos que o afastaram de integrar a equipe da marcha que disputaria a Copa do Mundo.

Na época, contou para sua defesa com o advogado carioca Marcelo Franklin, maior autoridade em direito desportivo. E que atuou em casos de doping no país – como, por exemplo, dos nadadores Cesar Cielo e Etiene Medeiros, além de Ana Cláudia Medeiros, do atletismo. A alegação diante da ocorrência de Bonfim foi de que o atleta foi vítima de suplemento alimentar contaminado. Ele poderia ter pego quatro anos e seis meses, mas foram apenas seis meses. A substância é utilizada para atletas perderem peso.

Caio não teria usado para melhorar a performance. Ele pesa 60 kg e mede 1,74 cm. Foram anexados ao processo de defesa 12 exames de dopagem de urina e três passaportes biológicos, todos com resultados normais. O que, junto com outros dados periciais, foram reunidos fortalecendo o argumento contra a possibilidade de uso de diurético para mascarar outras substâncias, conforme esclarecimento detalhado em nota de Franklin no caso.

Superar o momento negativo foi benção que o cristão da igreja Assembleia de Deus Caio Bonfim pode agradecer a Deus. Teve conquistas importantes depois do problema, vencendo provas do circuito mundial e o sul-americano em 2020.

Antes do presente vitorioso no atletismo, o passado é relembrado pelo ex-boleiro. Hoje, casado e pai, ele fala dos tempos de adolescente no qual teve a opção de escolha pelo futebol (jogou dos seis aos 16 anos) atuando nas categorias de base do Gama e Brasiliense, equipes de Brasília. No entanto, a influência dos pais já integrados na marcha foi decisiva.

Favoritos

Apesar de forte concorrente à prova, Bonfim não citou nenhum nome em particular como favorito na distância dos 20 km. Existem orientais, europeus e sul-americanos candidatos a medalhista. Curiosamente, os norte-americanos nunca conquistaram nada nesta modalidade.

Entre os destaques em Tóquio estarão os donos da casa, representados por Toshikazu Yamanishi, ganhador da prova do Mundial de Doha em 2019, com a marca fantástica de 1h26min34s. A China tem na equipe dois campeões em diferentes edições olímpicas, Wang Kaihua e Cai Zelin. Entre os europeus, os olhos se voltam ao sueco Perseus Karlströn, bronze no último mundial, e Vasiliy Mizinov, prata no mundial de 2019 e bronze no europeu. Listando ainda fortes nomes como o italiano Massimo Stano e o espanhol Diego Garcia.

Já entre os latino-americanos, Caio Bonfim tem rivais de peso como o guatemalteco Erick Barrondo, prata em Londres 2012, o equatoriano Andrés Chocho e o colombiano Eider Arevaldo. E pela Oceania, o australiano Dane Bird-Smith, que conquistou o bronze no Rio em 2016.

Yahoo Esportes – Como você se encontra para disputa da terceira Olimpíada?

Caio Bonfim – Em Londres, na minha primeira vez, era novo e tinha qualidade. No Rio veio mais experiência. Agora em Tóquio, estou bem física e psicologicamente. E muita bagagem.

Você aponta favoritos para a medalha na marcha atlética?

Há gente forte como japoneses, suecos, russos (sem bandeira) e espanhóis.

Você tem ídolos no esporte?

Não sou muito de me basear em ídolos. Tenho meu foco. É claro que gosto de gente do esporte como a humildade e o trabalho de Ayrton Senna e o exemplo do Michael Jordan no basquete. Aliás, vi o documentário sobre Jordan, Last Dance (Arremesso Final).

Você fala em missão no esporte, qual é?

Além de popularizar a marcha, levo dentro de mim uma mensagem positiva de Deus. Tudo isto tenho de agradecer ao senhor pelos pais que proporcionaram este caminho.

Além de atleta, você é formado em Educação Física. Pensa em trabalhar na área?

Ainda respiro o melhor momento da carreira, penso sim em continuar os estudos e fazer pós-graduação.

Como você viu a pandemia?

Na verdade mexeu com minha logística diária dos treinos, mas o que fica é uma grande tristeza pelos doentes e mortos. Parece uma guerra.

Como você aborda seu período mais difícil da carreira com caso de doping?

Momento chato, todo atleta tem de tomar muito cuidado. Fazemos muitos testes. Tive suplemento contaminado, e recebi punição educativa. Depois inocentado. Tive grandes resultados na sequência, recorde brasileiro, medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos. E saí mais forte para conseguir fazer de tudo exemplo de fortalecimento.

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