'Cadê o Cristovão, o Andrade', questiona Marcão, único técnico negro da Série A

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SANTOS, SP (FOLHAPRESS) - Marco Aurélio de Oliveira, o Marcão, 49, não esconde o largo sorriso quando citados os números que construiu até aqui como técnico do Fluminense.

Aposta caseira do clube carioca para repor a saída de Roger Machado -demitido em 21 de agosto, após a eliminação para o Barcelona de Guayaquil nas quartas de final da Libertadores-, ele já possui credenciais de respeito.

Desde que assumiu, foram quatro vitórias e três empates em sete jogos pelo Brasileiro. Quinze pontos de 21 disputados, 71,4% de aproveitamento. Nenhum dos outros 19 técnicos da Série A fez mais do que ele no mesmo período.

O time, consequentemente, quase dobrou de desempenho. Antes de Marcão, alcançava 37,7% de aproveitamento na competição e ocupava a 14ª colocação, próximo do grupo dos quatro rebaixados. O time encerrou sua participação na 22ª rodada do Brasileiro na oitava posição -o jogo que seria disputado neste domingo (3) contra Santos, pela 23ª, foi adiado.

Ele ainda detém um último recorde para chamar de seu. É o técnico com maior invencibilidade na competição nacional na história do clube: 16 jogos, superando a proeza de Muricy Ramalho em 2010, ano em que o Fluminense foi campeão brasileiro -no seu caso, somam-se, no entanto, partidas das edições 2019, 2020 e 2021.

"Aqui [no Brasil] há uma cobrança muito grande. A internet acaba influenciando, incita os torcedores e gera pressão ao clube. A responsabilidade precisa ser melhor dividida. Como técnico, tento dividir tudo com minha comissão e com os jogadores. Falo que não tenho uma ciência exata, preciso ouvir o que querem, o que podem fazer. Muitas vezes eles me convencem de tentarmos outras coisas", conta.

Marcão, contudo, também preenche uma última estatística, essa desfavorável. É o único técnico negro em toda elite do futebol brasileiro. Somadas as duas divisões, em quarenta clubes, somente ele e Felipe Surian, do Sampaio Corrêa, figuram como exceções.

"Há algo que sempre falo: se capacite. Não adianta dizer que alguém precisa de espaço e não se capacitar, não buscar. Mas vejo vários treinadores que são negros, altamente capacitados, sem oportunidade ou que não recebem a chance que muitos têm. Por isso, digo que meu clube é maravilhoso. O Roger esteve aqui, mas isso precisa tocar mais os outros clubes, também. Não é pela cor da minha pele que devo ser excluído ou colocado. Olharam para mim e me viram capaz", explica.

Marcão foi o alicerce de Roger Machado durante os quase oito meses do treinador à frente do clube. Antes do trabalho conjunto, um encontro entre eles ficou eternizado em outubro de 2019.

Roger treinava o Bahia, enquanto Marcão tentava salvar a equipe carioca do rebaixamento, mas ambos vestiam a mesma camisa, preta, com os dizeres "#ChegaDePreconceito". Eram os únicos técnicos negros na Série A, enquanto Hemerson Maia, no Botafogo-SP, o exemplo solo na Série B.

Na ocasião, Roger usou o espaço para pedir por igualdade de oportunidades a profissionais da categoria. Também fez um discurso emocionado sobre democracia racial. "Negar é silenciar, é confirmar o racismo", disse Machado.

"Realmente, ficamos muito felizes por termos representado tão bem essa questão. Hoje me alegro de ser um representante negro [na Série A], falo com orgulho sobre o assunto, mas por outro lado precisamos pensar. Cadê o Cristóvão [Borges]? O Andrade, que foi campeão brasileiro e não teve mais oportunidade? Não faz sentido. Em qualquer outra situação, estaria dirigindo uma outra equipe. Por que isso acontece? Por que somos negros?", questiona Marcão.

"Levantem o treinador que foi campeão de qualquer país [e que tenha sumido]. Cadê o homem [o Andrade]? Esses detalhes que percebemos deixam claro que há uma resistência [contra técnicos negros], mas meu clube é exemplo, luta contra isso", completa.

O Fluminense apostou em 2014 em Cristóvão Borges, que teve justamente Marcão como auxiliar. A passagem durou quase um ano, sendo encerrada em março de 2015 devido aos maus resultados no estadual.

Nas Laranjeiras, técnicos negros não são novidade. Gentil Cardoso, entre 1945 e 1948, o bicampeão mundial Didi, em 1975, e o ex-zagueiro Altair, sempre como interino entre 1992 e 1998, são os casos mais marcantes. Cardoso foi o único negro a comandar a seleção brasileira, mas se queixava de não ter tido a chance de chegar a uma Copa. "Eu sou preto. Escolheram o [Vicente] Feola", reclamou.

O clube luta para se desvencilhar do termo "pó-de-arroz", atrelado historicamente a necessidade de jogadores negros passarem maquiagem para embranquecerem os rostos e serem aceitos no futebol.

Em 2019, em vídeo publicado nas redes sociais, o Fluminense explicou que o termo foi associado de forma errada e era uma provocação da torcida do América-RJ a um jogador da equipe que costumava usar talco.

Como jogador, Marcão conta nunca ter sofrido diretamente preconceito racial. Mesmo assim, em 2007, na passagem pelo Juventude, viu a esposa e o filho sofrerem constrangimento em uma padaria em Caxias do Sul.

"Por conta da cor deles acharam que estavam pedindo favor, pedindo coisas. Tivemos que conversar com as crianças e mostrar que deveriam sentir orgulho da cor delas. Meu filho queria alisar o cabelo, não deixei. Falei: 'você precisa respeitar o que você é'", conta.

Ex-volante conhecido pela volúpia em marcar e, principalmente, pela liderança, foi capitão por anos no clube, entre 1999 e 2006. Como treinador, Marcão investe, desde 2017, em qualificação.

Em 2019, já havia concluído todas as etapas da licenciatura para técnicos da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), iniciou o curso de Educação Física e passou a fazer aulas de inglês.

O maior aprendizado, segundo conta, foi adquirido em viagens para a Europa, onde foi recebido por jogadores e amigos pessoais como Marcelo, lateral do Real Madrid, e Thiago Silva, então no Paris Saint-Germain e hoje no Chelsea. São comuns as ligações para trocas de informações.

"Consegui ver jogos em Madri, treinos. Estive em Paris, fui para Liverpool, Newcastle, e ainda consegui ir no Ajax. Gosto do jogo de transição do Paris e da formação de um meio de campo com três volantes, uso isso para mim, embora critiquem no Brasil. Era muito comum falar com o Thiago após os jogos, questionar sobre o que fizeram. Ele me explicava os movimentos. Tem feito isso no Chelsea, agora", relata.

A carreira fora das quatro linhas começou em 2011, no Bangu, clube que o formou como jogador. Ele passou ainda por Bonsucesso-RJ e River-PI até receber o convite para voltar ao Fluminense. "Quando me ligaram, falei: onde é que eu assino?", ri ao lembrar.

No clube, é considerado o principal responsável por fazer o time, recheado de jovens, como Nino, Callegari, Martinelli, Luiz Henrique, jogar um bom futebol sobe a liderança do experiente Fred, 37 anos. "Tive a oportunidade de carregar a faixa por muito tempo. Ele me ajuda a organizar tudo, essa parceria tem sido fundamental", afirma.

Em alta, Marcão sonha ser efetivado no cargo, mas com os pés fincados no chão. A promessa do Fluminense é de permanência, ao menos, até o final da temporada. "Sabem que prefiro sempre viver o momento. A priori, vamos ficar até dezembro".

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