Busca por cerveja no país da Copa exige pesquisa e muito dinheiro

DOHA, QATAR (FOLHAPRESS) - O sinal no lado de fora é de uma hamburgueria. A seta aponta para a recepção de um hotel de classe turística, que está longe de figurar entre os mais luxuosos de Doha. Quem entra é recebido com a pergunta na portaria:

"Vai ao bar?".

No segundo andar, o que chama a atenção é um artigo raro no Qatar. A sequência de seis chopeiras, uma ao lado da outra.

"Temos vários tipos de cerveja. Só escolher", avisa o garçom.

A busca por álcool na capital do país pode ser tão ingrata que turistas criaram um "mapa da cerveja" e o distribuíram em redes sociais nas semanas que vêm antecedendo o início da Copa do Mundo. O torneio começa no domingo (20), quando a seleção da casa enfrenta o Equador, no estádio Al Bayt, em Al Khor.

O contrato pelo direito de vender cervejas nos estádios é peça importante na engrenagem de milhões do Mundial. Isso no Qatar é um problema. Negociar álcool não é crime, mas ser encontrado bêbado na rua é. Em um país islâmico como este, o governo faz o possível para dificultar o consumo. As bebidas podem ser encontradas em poucos bares, quase sempre dentro de hotéis.

O Stock Burger Co, no segundo andar do Holiday Inn do centro de negócios próximo ao aeroporto, é um desses comércios.

A liberação de cerveja foi uma discussão central na questão sobre como o Qatar receberia a Copa do Mundo. A Budweiser pagou US$ 75 milhões (R$ 405 milhões em valores atuais) para ser patrocinadora oficial do evento e ter seus produtos vendidos nas arenas e "fan fests".

A empresa norte-americana vai encontrar restrições no Qatar, e o preço será salgado para os torcedores. Segundo o jornal The New York Times, a Budweiser recebeu ordem para posicionar suas tendas nos estádios em locais menos visíveis. A determinação teria vindo do xeque Jassim bin Hamad bin Khalifa al-Thani, irmão do emir do país.

Cada cerveja será vendida nos estádios e nos eventos oficiais da Fifa por 50 riais do Qatar. São R$ 74. As não alcoólicas sairão por 30 riais do Qatar (R$ 44,50).

É o mesmo preço cobrado nos restritos bares de hotéis na capital. Os valores são semelhantes em diferentes estabelecimentos. A Budweiser custa os mesmos 50 riais do Qatar. O copo com 500 ml da irlandesa Guinness é vendido por 55 riais do Qatar (R$ 81,60).

Em quase todas as mesas no Stock Burger há cervejas sobre as mesas porque a chance de beber precisa ser aproveitada. Álcool é um artigo difícil de conseguir por dois motivos principais.

De acordo com o site Expensivity, que calcula o valor das cervejas em diferentes nações, no Qatar está a mais cara do mundo. O governo aplica imposto de 100% na importação do produto. A medida foi apelidada de "taxa do pecado".

Também é muito difícil obter autorização para vendê-la, e a distribuição é estatal. Para receber a licença, é necessário ter cidadania qatari e preencher uma longa série de requisitos que passa por capacidade financeira para manter o comércio em funcionamento e compromisso de não permitir que os clientes saiam às ruas com bebidas nas mãos.

O único ponto de distribuição no país é controlado pela Qatar Distribution Company (QDC), uma companhia estatal que concentra todo o álcool importado no país (que não produz nada).

A única vitória da Fifa nessa disputa foi conseguir fazer com que a cerveja esteja disponível durante quase o dia todo nas "fan fests". No Arcadia Festival, por exemplo, será oferecida das 10h da manhã até as 5h da madrugada seguinte.

Mas mesmo nesses casos o Qatar impôs restrições. Apenas quatro cervejas podem ser pedidas de cada vez, em uma tentativa de restringir o consumo.

Quem ficar bêbado terá zonas específicas para se recompor e não sair à rua alterado. "É um lugar para garantir que essas pessoas não se machuquem nem machuquem os outros", disse o chefe-executivo da Copa do Mundo, Nasser Al Khater, à ESPN dos Estados Unidos.

Por causa do custo para importar e do preço à venda, beber cerveja não é para qualquer um no Qatar. Especialmente para os imigrantes de países pobres, que trabalham em obras de infraestrutura e no setor de serviços, é proibitivo. Parte da mão de obra envolvida na construção dos estádios da Copa, por exemplo, recebia US$ 200 mensais (R$ 1.080 pela cotação atual). Seria dinheiro suficiente para comprar 14 Budweisers.

Isso não parece ser problema nos bares que vendem cervejas, frequentados por turistas, qataris (a elite econômica do país) e residentes contratados nas indústria de turismo, energia e extração de gás ou petróleo.

Em bares como o The Mulberry Tavern, existe até a exigência de que clientes homens entrem de terno.