Bruxelas e Londres mantêm esgrima diplomática sem avanço nas negociações

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O negociador Michel Barnier, após entrevista coletiva em 15 de outubro de 2020, em Bruxelas, durante cúpula de líderes da UE
O negociador Michel Barnier, após entrevista coletiva em 15 de outubro de 2020, em Bruxelas, durante cúpula de líderes da UE

União Europeia (UE) e Reino Unido mantiveram, nesta terça-feira (20), sua coreografada esgrima diplomática, com novos apelos cruzados para tomar a iniciativa de desbloquear a interminável negociação sobre sua relação pós-Brexit.

Como já havia acontecido na segunda-feira, os dois principais negociadores - o francês Michel Barnier e o britânico David Frost - mantiveram contato telefônico durante o dia para tentar retomar as conversas de base.

E, assim como na véspera, as reações de ambos os lados do Canal da Mancha aos contatos deixaram pouco espaço para entusiasmo.

Em uma mensagem no Twitter, Barnier disse que a mensagem que transmitiu a Frost foi: "Devemos conseguir o máximo que pudermos com o pouco tempo que resta. Nossa porta permanece aberta".

Já um porta-voz do governo britânico disse que a conversa entre os dois foi "construtiva" e que os dois negociadores concordaram em manter contatos.

No diálogo de segunda-feira, Barnier comunicou a Frost que a UE permaneceu aberta a um novo esforço para "intensificar" as negociações, uma oferta que Downing Street apenas respondeu que "tomava nota".

Quase simultaneamente, o influente Ministro do Gabinete Britânico, Michael Gove, disse aos parlamentares que, sem uma mudança na posição da UE, a retomada das negociações "não faz sentido".

Hoje, o primeiro-ministro Boris Johnson teve uma conversa com o premiê da Grécia, Kyriakos Mitsotakis, e, segundo um porta-voz, o britânico lhe disse que, em sua visão, "a UE de facto encerrou as negociações, ao declarar que não quer mudar sua posição de negociação". 

Além das três questões, que têm sido um obstáculo para uma solução, há agora a clara irritação de Londres com a sugestão de Bruxelas de que é o governo britânico que deve assumir compromissos para se alcançar um acordo.

- "Mudança fundamental" -

Na quinta-feira passada, os 27 líderes da UE, reunidos em uma cúpula em Bruxelas, disseram em um documento que o Reino Unido deveria tomar "as medidas necessárias" para um acordo. 

Mais tarde, o próprio Barnier e a chanceler alemã, Angela Merkel, procuraram amenizar a declaração. Aparentemente, no entanto, o dano já havia sido registrado do outro lado do Canal da Mancha.

Em resposta, Johnson disse na sexta-feira que a retomada das negociações se justificaria somente com uma "mudança fundamental" na posição de negociação da UE.

O Reino Unido espera que a UE confirme que ambas as partes terão de fazer compromissos para chegar a um acordo comercial, e não apenas Londres. 

O ministro francês responsável pelos assuntos europeus, Clement Beaune, disse, entretanto, que a UE "não terá uma nova abordagem" e "não deve ceder a nenhuma tática de intimidação".

"Um 'não acordo' é mais doloroso para os britânicos do que para os europeus", disse Beaune ao Comitê de Assuntos Europeus da Assembleia Nacional Britânica.

A UE prometeu que está pronta para passar aos "textos jurídicos" e discutir a "estrutura" do diálogo, mas não avançou em questões pendentes: regras de concorrência, ou cotas de pesca em águas britânicas.

Enquanto Londres insiste em que as negociações comerciais estão suspensas, ambos os lados estão em estreito contato diário. Fontes europeias dizem estar confiantes em que as negociações serão retomadas em breve.

O Reino Unido permanece sujeito às regras comerciais europeias até o final do chamado "período de transição", em 31 de dezembro, e as partes buscam - até agora sem sucesso - chegar a um acordo sobre como serão essas relações a partir de janeiro próximo.

Caso as duas partes não cheguem a um acordo que seja ratificado até 31 de dezembro, a relação entre o Reino Unido e a UE a partir de 1º de janeiro será amparada pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Este cenário deve gerar problemas comerciais em massa para ambos os lados.

Na sexta-feira, Johnson admitiu que o Reino Unido deve de preparar para um cenário de colapso nas negociações.

ahg/mb/tt