• Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.

"Fiquei com medo de virar estatística": Como campeão olímpico venceu a Covid-19

·4 minuto de leitura
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.

A expressão “histórico de atleta” ficou famosa no último ano após um pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro sobre a pandemia do novo coronavírus. Depois disso, inúmeros atletas de alto rendimento do Brasil tiveram histórias complicadas com a Covid-19. Mas poucos deles sofreram tanto quanto Bruno Schmidt.

Campeão olímpico no vôlei de praia em 2016, Bruno está qualificado para os Jogos de Tóquio ao lado de Evandro, mas ainda se recupera dos efeitos deixados pelo vírus e busca a melhor forma possível para poder chegar ao torneio.

Leia também:

Recentemente, Schmidt conversou sobre sua experiência com o Yahoo e explicou por que é contra a realização das Olimpíadas neste ano.

Quatro testes negativos seguidos

Em fevereiro de 2021, Bruno e a esposa tiveram sintomas de coriza. Durante um jantar no dia seguinte ao início dos problemas, Laís afirmou que não estava sentindo o gosto da comida. Passado um dia, os dois realizaram testes RT-PCR. Laís testou positivo, Bruno negativo.

“Aí eu estranhei e pensei ‘Não é possível, tô com a minha esposa o tempo todo. Ou não sei se eu já peguei isso no ano passado. Eu tenho que refazer esse teste’. No dia seguinte, eu refiz o teste. Negativo”, disse o atleta.

Como ele tinha uma semana de treinos na bolha montada pela Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), em Saquarema (RJ), ele decidiu fazer outro teste e mais uma vez o resultado foi negativo. Já em Saquarema, mais um teste e o resultado continuou o mesmo.

Bruno Oscar Schmidt (BRA),Evandro Goncalves Oliveira Junior (BRA) during FIVB Beach Volleyball World Tour in Warsaw, Poland 16 June 2019. (Photo by Foto Olimpik/NurPhoto via Getty Images)
Bruno é parceiro de Evandro no atual ciclo olímpico (Foto Olimpik/NurPhoto via Getty Images)

Após todos os negativos, Bruno treinou bem segunda, terça e quarta. Na quinta, ele começou a sentir uma moleza e o estado febril chegando. “Comi como um louco achando que era a imunidade abaixando. No dia seguinte, a moleza era a mesma quando acordei”, lembra. Ele voltou para Vila Velha (ES), onde reside, já sentindo muita febre. “Cheguei em casa com 38 de febre. Tomei bastante remédio, a temperatura baixava e em questão de minutos voltava. Foi assim sexta, sábado e domingo.”

A ida ao hospital

Na segunda, Bruno foi ao hospital. Tudo certo no exame de sangue e mais um teste de Covid negativo, mas o resultado da tomografia assustou o clínico geral que o atendeu, já que mostrava um comprometimento pulmonar de mais de 25%. Até aquele momento, o diagnóstico não era de Covid-19, e sim de pneumonia.

Bruno foi para a internação achando que estava com pneumonia. Mas quando chegou ao local, viu uma realidade diferente, com os médicos o colocando em um quadro de Covid, com isolamento total.

“Ali já foi impactante. Eu falei ‘Gente, não é Covid, não preciso disso. Eu já fiz quatro testes, os quatro deram negativo, tô só com os sintomas da pneumonia’”, clamou Bruno. Mas não adiantou.

“Me jogaram no isolamento de Covid, minha esposa não pode ficar comigo, foi muito complicado. Foi um dos dias mais difíceis porque eu estava com muita febre e eu tinha que ficar sozinho. Volta e meia as enfermeiras só entravam só para ver a medicação que eu tinha que tomar. No dia seguinte, seguia mole de febre e tomando medicação. No terceiro dia, eu tive um suadeiro como nunca, troquei de roupa de cama três vezes de madrugada. E assim, logo depois, nesse mesmo dia, eu já estava melhor. Eu lembro de ter que fazer fisioterapia e até brinquei com o profissional. Depois que ele me disse para dar uma andada, eu disse que queria dar uma trotadinha e já queria saber quando eu sairia do hospital”.

Da expectativa de melhora à UTI

No quarto dia, após a expectativa de melhora, Bruno acordou muito cansado e sofria com uma tosse forte que até o machucava caso ele respirasse muito fundo. Depois de uma bateria de exames, ele recebeu um susto quando voltou ao quarto.

“Quando eu voltei pro quarto, já tinha fisioterapia com uma máscara de VNI [ventilação não invasiva] querendo que eu me acostumasse, que era uma ventilação forçada da máquina e dois médicos ali de plantão com a minha mãe, que tinha sido chamada. ‘Por que isso tudo?’. E aí todo mundo ali querendo acordar comigo que eu iria para a UTI. Em um momento, eu achava que iria ter uma melhora um dia antes e ia já tentar sair dali, cumprir os antibióticos em casa. Mas na verdade, eu estava sendo levado a uma UTI. Foi falado que o comprometimento pulmonar chegou a mais de 70%”.

Aí agora realmente eu posso falar que tudo de ruim passou na minha cabeça e até que eu iria virar estatísticaBruno Schmidt

Foi só aí que Bruno acreditou que poderia ser o Covid. Os profissionais da linha de frente do hospital disseram que as imagens estavam muito próximas do que era o vírus. Onde ele pegou o vírus? Se ele estava incubado? “Não me deram até hoje as respostas para isso. O que me falavam é que muitos dos meus questionamentos eu vou ter resposta só daqui 10 anos”, disse.

Foram cinco dias na UTI. Segundo Bruno, foram os dias mais difíceis que ele já passou.

“Passava na minha cabeça que refizeram o esquema de antibiótico, então eu torci para que eles pudessem fazer efeito o mais rápido possível porque eu não queria virar estatística, não queria ser entubado. Sei lá quando que eu vou acordar, se fosse acordar. E aí eu realmente senti… Desculpa falar isso, vocês podem até cortar, mas eu senti o gostinho de merda na minha boca, passou tudo na minha cabeça. Passou que eu ainda não tenho um herdeiro nesse mundo, entendeu. Todos os momentos mais difíceis. E ali, eu realmente acreditei. O pessoal me deu 100% de certeza depois que foi a Covid que causou tudo isso, associado à pneumonia atípica. Aí depois começou a ter uma melhora, que graças a Deus foi rápida, depois de quatro dias na UTI. Voltei para a internação e aí foi só esperar os antibióticos fazerem efeito.”

Foram duas semanas no hospital, com cinco dias na UTI. Após deixar a internação, ele perdeu muita massa magra e ainda teve que ficar um mês tomando corticóide e anticoagulante.

Posição contrária aos Jogos

Apesar de ser um grande fã dos Jogos Olímpicos, Bruno gostaria que eles não fossem realizados neste momento em que o mundo ainda luta contra o coronavírus.

“Ao meu ver, os Jogos Olímpicos estão sendo tratados de qualquer forma. Ah, vai assim... Vai sem público, vamos ver se a gente vacina, sabe…”, diz o atual campeão olímpico no vôlei de praia. “Se você for analisar, tem modalidades aí que atletas não conseguiram a sua classificação olímpica ainda. Estão ainda batalhando por isso. Por exemplo, os brasileiros atualmente não podem estar na Europa. Se eu dependesse disso para a minha classificação olímpica, e eu não posso entrar na Europa, como eu faço?”.

Bruno leva a própria experiência no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, que teve etapas realizadas em uma bolha em Cancún, no México,

“Obviamente, a minha situação, por diversos fatores, é diferente de um atleta que pegou ou nem sabe se pegou a Covid e ficou só com um resfriado”, disse. “No Circuito Mundial agora você vê que tem atletas que não levam a Covid a sério, já que nos países deles, a pandemia não foi tão grave quanto no Brasil ou em outros lugares do mundo. Eu acho que isso quebra o clima.”

“Por ser um apaixonado pela modalidade e pelo maior evento do mundo, eu não gostaria que ele fosse realizado da maneira que está sendo e no momento que está sendo. Acho que o momento não é das nações se confraternizarem em meio a isso. A gente está num momento de vencer esse problema, vencer esse vírus de uma vez por todas e aí sim voltar a nossa normalidade.”

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos