Bronze em Tóquio, Cargnin se reinventa e muda de categoria por nova medalha

SANTOS, SP (FOLHAPRESS) - Medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos de Tóquio, o judoca Daniel Cargnin, 25, conta ter tomado a decisão mais difícil de toda a carreira em janeiro do ano passado.

Apenas cinco meses após a vitória sobre o israelense Baruch Shmailov no Nippon Budokan, que lhe assegurou uma improvável medalha àquela altura, o gaúcho anunciou uma mudança de categoria: de peso meio-leve (até 66 kg) para leve (até 73 kg).

Não havia certezas. Bater o peso ficou mais fácil. Mas causaram dificuldade a estatura e a força física dos adversários, em geral mais altos e fortes do que o brasileiro de 1,68 m.

A medalha de ouro conquistada no último dia 21 de dezembro no World Masters de judô, realizado em Jerusalém, representou um alívio.

"Fiquei por algum tempo em dúvida se tinha tomado a decisão certa", contou à reportagem. "Hoje, estou muito mais feliz, pensando em mim e não tentando ver o que os outros estão fazendo. Acredito que, por consequência, estou encontrando a minha melhor versão no tatame e fora dele também."

A melhor versão tem a colaboração de uma nutricionista e de um psicólogo.

Três anos antes da conquista no Japão, o atleta recorreu a outra ajuda, da técnica Yuku Fujii, para não desistir da carreira. O abraço emocionado entre os dois instantes após a luta que garantiu o bronze, em 2021, foi uma das imagens marcantes da competição.

"Eu me lembro de uma vez em 2018, na Itália. Eu estava muito mal. Estava apanhando muito nos treinos. Um dia cheguei ao quarto, liguei o chuveiro e comecei a chorar no banho. Deu vontade de desistir. Mas eu tomava pau e a sensei dizia: 'Eu te encontro no tatame mais tarde, mais tarde vamos treinar de novo'. Quando medalhei e olhei para ela, eu me lembrei daquele momento", disse, à época.

Após a mudança de peso, Cargnin caiu prematuramente em sua primeira competição: derrota nas oitavas de final do Grand Slam de Paris, ainda nas oitavas de final, para o japonês Soichi Hashimoto.

As coisas só começaram a clarear em julho, no Grand Prix de Zagreb, dias após revés na primeira rodada do Grand Slam de Budapeste. Ele saiu da competição com o bronze.

"Eu comemorei ali como se fosse a Olimpíada porque foi um sinal que as coisas dariam certo. Às vezes, basta ter paciência", afirmou.

A escolha que agora se mostra acertada remete a uma das principais que já fez, logo na infância, enquanto conciliava ao judô os treinamentos de futebol nas escolinhas do Grêmio.

A mãe, Ana Rita, principal incentivadora, deu-lhe liberdade para optar por um dos esportes. Ela fazia sozinha uma espécie de cronograma de competições para o filho antes de levá-lo à Sogipa, clube que o atleta defende até hoje.

"Ela ficou tão surpresa quanto eu [pela mudança de categoria]. Afinal, eu já lutava nos 66 kg fazia um bom tempo. Esses resultados me dão mais ânimo e esperança para me preparar bem e trazer mais uma medalha nos Jogos Olímpicos de Paris", disse.

A vitória na última competição de 2022 fez com que o judoca subisse logo no primeiro ano na nova categoria para a quinta colocação do ranking mundial da IJF (Federação Internacional de Judô).

Foram 14 posições conquistadas, evolução que nenhum outro atleta teve na temporada. O segundo melhor do Brasil na categoria é Eduardo Barbosa, que ocupa a 87ª posição.

Cargnin também ganhou uma medalha de bronze no Mundial, disputado em outubro em Tashkent, no Uzbequistão, e outro ouro, no Open de Córdoba, na Argentina, em novembro.

O ouro no Masters foi como uma validação da escolha. Daniel bateu nas oitavas o georgiano Lasha Shavdatuashvili, número um do ranking, e ainda deu fim a um jejum de uma década sem medalhas de ouro do judô masculino brasileiro na competição -a última havia sido com Rafael Silva, em 2012, em Almaraty.

"A luta contra o georgiano foi um divisor de águas para eu ver como estava o meu nível e me fez de fato entrar na competição", relatou.

A classificação para Paris-2024 será feita com base no ranking. Cargnin está em boa situação para obter sua vaga e confia em novo pódio.

"Eu me sinto mais maduro e aprendi muito com cada vitória e cada derrota. Acredito que hoje tenha mais noção do que vou enfrentar e tive algumas experiências que podem me fazer chegar longe. Em 2023, o meu objetivo é a medalha no Mundial para concretizar a minha vaga para a Olimpíada."