Brasileiras relatam 'olhares indiscretos' e experiências distintas no Catar

Muitas mulheres foram ao Catar para torcer durante a Copa do Mundo. Foto: ANNE-CHRISTINE POUJOULAT/AFP via Getty Images
Muitas mulheres foram ao Catar para torcer durante a Copa do Mundo. Foto: ANNE-CHRISTINE POUJOULAT/AFP via Getty Images

No Catar, onde as mulheres locais ainda vivem sob um sistema de tutela masculina, brasileiras estão vivendo experiências distintas. Durante a Copa do Mundo, o país árabe e muçulmano flexibilizou algumas normas rígidas relacionadas a costumes e está tentando deixar as visitantes à vontade.

Apesar disso, algumas torcedoras mulheres ainda se sentem invadidas em determinados contextos, como no transporte público, por exemplo. Carolina Fonseca, 23 anos, que está em Doha como voluntária do evento da Fifa, afirmou que o assédio nessas situações não vem necessariamente dos homens cataris.

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“No metrô a gente recebe alguns olhares, pessoas que querem tirar foto, filmando e um certo tipo de assédio. Não exatamente de cataris, necessariamente, mas dos estrangeiros que também moram aqui. Não tem muito o que a gente possa fazer, só ficar mais na nossa”, contou.

Duas brasileiras que preferiram não se identificar também relataram que o metrô, que tem sido o principal meio de transporte do Catar durante a Copa do Mundo, é o local onde mais recebem olhares e percebem comportamentos invasivos vindo de homens.

Ambas relataram vivências opostas no país. Logo após a abertura do evento, no dia 20 de novembro, elas foram ao famoso mercado de rua Souq Waqif, no centro da cidade, e disseram que foi a grande presença de estrangeiros que acabou criando um clima hostil para as mulheres. Já em uma visita ao mesmo lugar, mas em outro dia e sem a presença de tantos turistas, as duas afirmaram terem se sentido mais respeitadas.

A pernambucana Eduarda Vasconcellos, 22 anos, também pontuou sobre as diferentes experiências que tem vivido nos últimos dias.

“Existem os locais que são muito respeitosos, que vêm, conversam, entendem e respeitam, enquanto outros simplesmente ignoram o fato de a gente ser mulher”, narrou.

“A gente vê de tudo”

Natascha Klein, Eduarda Vasconcellos e Carolina Fonseca são voluntárias da Copa do Mundo 2022. Foto: Marina Marini
Natascha Klein, Eduarda Vasconcellos e Carolina Fonseca são voluntárias da Copa do Mundo 2022. Foto: Marina Marini

Natascha Klein, 23 anos, que também trabalha como voluntária deste Mundial, disse que recebeu orientações da organização do evento sobre a cultura local e como se vestir. Apesar disso, notou que, após a chegada de mais torcedores estrangeiros, as regras e o supervisionamento ficaram mais flexíveis.

“Depois que os fãs chegaram para a Copa, está super tranquilo, a gente vê de tudo”, assegurou.

Sobre o assédio, mais uma vez o metrô foi apontado como um lugar incômodo. Para a jovem, os olhares e as tentativas de contato acontecem “no sentido de parecer que nunca viram uma mulher na vida antes.”

“E você não sabe se querem tirar foto porque é legal, é do Brasil, ou porque gostaram da mulher. Algumas vezes eles saem nos filmando e tirando fotos sem a gente dar permissão. Já pedimos para parar, inclusive”, relatou.

Patricia Reis, a trabalho no Catar pela terceira vez, partilha do mesmo medo de se sentir observada. Citando "olhares extremamente indiscretos", ela contou que fez o que chamou de "experiência" de usar shorts e biquíni para ir à praia.

"Mesmo estando cheio de turistas na praia, me senti um pedaço de carne aos olhos de alguns dos homens que estavam por lá", lamentou.

Ainda assim, ela avalia que devido a quantidade de turistas no país "parece que as pessoas locais são minoria e os costumes ocidentais se sobressaem, mesmo estando no Oriente Médio".

Apesar do incômodo causado pelos olhares, falas e às vezes até abordagens agressivas, um ponto comum no discurso das mulheres ouvidas pela reportagem é o sentimento de segurança nas ruas.

“Respeitando a cultura, não tem problema nenhum”

Carita, à esquerda, e a filha Eduarda, à direita. Foto: Marina Marini
Carita, à esquerda, e a filha Eduarda, à direita. Foto: Marina Marini

Por outro lado, a brasileira Carita, que vive há oito anos no Catar, entende que a realização do evento tem grande importância justamente por desmistificar a imagem do país. Ela ainda reforçou que, enquanto estrangeira, não enfrenta restrições e tem acesso a tudo o que quer e precisa.

“A única exigência deles é: se for usar um vestido, que seja até os joelhos e que cubra os ombros. Então, a gente respeitando a cultura, não tem problema nenhum. […] O que foi legal é que mostrou a cultura daqui, desmistificando para o pessoal que quer vir e conhecer. Por ser um país muçulmano, estava todo mundo com um certo preconceito. Até a gente que já estava aqui pensava: ‘Como vai ser um país só, desse tamanho, recebendo tanta gente?’. A princípio achamos que seria complicado, mas não está sendo. Estamos tirando o chapéu para a organização deles”, refletiu.

A jovem Eduarda, filha de Carita, também garantiu que a segurança em Doha é indiscutível: "Antes da Copa, o país já era muito seguro e continua sendo. Os policiais, os homens, nos respeitam. A população aumentou [com o Mundial], tem mais mulheres, mas mais policiais. Me sinto muito segura aqui. Mesmo antes de tudo, sempre me senti segura."

O tratamento do governo do Catar às mulheres — além da comunidade LGBTQIA+ e dos trabalhadores imigrantes — virou pauta desde o anúncio do país como sede da Copa do Mundo 2022. Pouco antes da abertura do Mundial, o governo catari emitiu um comunicado reclamando das críticas a respeito do tratamento desses temas.