Brasileira registra recorde de corrida no monte Vinson, na Antártida

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O monte Vinson, mais alto da Antártida e um dos sete cumes cuja escalada compõem o objeto de desejo de todo montanhista, por representarem os mais altos de cada continente, acaba de assistir ao recorde de uma brasileira, Fernanda Maciel.

A ultramaratonista de Belo Horizonte conseguiu subir e descer os 4.892 metros da montanha em apenas 9h41, quando o normal é o percurso ser feito por escaladores tradicionais em cinco a sete dias. Sua marca foi confirmada pelas plataformas especializadas Sky Running e Fastest Known Time.

Essa não foi a primeira conquista de Maciel, atleta desde os nove anos de idade e há 14 ultramaratonista de alta montanha. Em 2016, ela já havia sido a primeira mulher a subir ao cume do Aconcágua, montanha mais alta da América do Sul, com 6.961 metros, em 14 horas -o normal é uma escalada de 21 dias entre subidas e descidas alternadas para aclimatação.

Ela também subiu os 5.895 metros do Kilimanjaro, ponto culminante da África, em sete horas, contra sete dias dos escaladores habituais. O Elbrus, pico mais alto da Europa, com 5.642 metros, foi alcançado em cinco horas, contra cinco dias em média dos escaladores. Ela prepara o fôlego para conquistar o monte Everest, no Himalaia, com seus 8.844 metros em 2024.

Morando em Chamonix, em frente ao Mont Blanc, Maciel conta com os glaciares dos Alpes para treinar suas corridas, nas quais o principal desafio é, como conta, sempre o frio. No caso do Vinson, algo entre -30°C e -40°C.

"Ao chegar ao topo, tirei uma luva por alguns segundos para acionar a câmera e tive congelamento das pontas dos dedos. Vai levar uns dois meses para a pele se regenerar", conta ela, que havia treinado desde outubro no Nepal, subindo a montanha Manaslu, oitava mais alta do planeta, com 8.163 metros de altura, onde escapou de uma avalanche, e nos próprios Alpes, em dezembro, com temperaturas variando entre -5°C e -20°C.

Mesmo assim, o desafio de correr Vinson acima exigiu uma logística específica. Para conhecer as dificuldades do trajeto, ela o percorreu em três dias andando, ou quase isso. "Precisava saber que roupas usar no dia para ir mais rápido, por exemplo", explica.

E acrescenta: "Para correr, é preciso muito mais que saber que vai estar frio. Por causa do vento, é preciso se cobrir inteira, porque pele exposta congela, mas também não pode ter roupa demais para não suar, porque o suor também congela. Então, levo agasalhos para cada etapa".

A principal dificuldade do percurso, segundo Fernanda, foi um paredão de 1.200 metros em uma inclinação de 50 graus, que exigiu uma escalada de seis cordadas. "Tem que ter muita força nos braços, além das pernas, e tudo com o mal de altitude, que é inevitável, pois a Antártica tem um ar mais rarefeito que faz de uma montanha de menos de 5.000 metros uma atmosfera equivalente a uma de mais de 6.000", conta.

Se ela faz questão de cumprir suas provas sem oxigênio suplementar, a água é um problema à parte. "Eu calculava que teria água para quatro horas, e levava junto ao corpo para não congelar, só que congelou mesmo assim e precisei reabastecer com mais meio litro de água quente com uma pessoa que me aguardava em um ponto combinado."

Entre outros perrengues, Maciel teve seus crampons (grampos de metal adaptados ao calçado para dar tração na escalada em gelo) quebrados e os goggles (óculos que protegem os olhos para impedir que o vento os congele) congelados. "Mas de alguma forma consegui ver o caminho para o topo", conta ela, que correu conectada por corda ao guia Sam Hennessey (medida de segurança obrigatória), e homenageou Hilaree Nelson, alpinista que morreu em uma queda na montanha Manaslu em setembro de 2022.

"Ela tem me inspirado muito e me dado forças nos projetos em altas montanhas. Estou feliz por viver emoções e sensações incríveis que experiências como esta me oferecem. Eu amo a sensação de conquista e contemplação que só as montanhas tão altas me oferecem", completa.