Brasileira faz história e torna-se a primeira latino-americana negra a chegar ao topo do Everest

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O que o golfista Tiger Woods, os jogadores de futebol Marta e Romário, a velocista Melânia Luz e o piloto de F-1 Lewis Hamilton têm em comum com a montanhista Aretha Duarte? Todos são pioneiros e se tornaram os primeiros negros a ser referência em seus esportes.

Ao atingir o cume do Monte Everest, Aretha se tornou a primeira negra latino-americana a chegar ao teto do mundo. Se junta ao primeiro negro no golfe, a primeira negra e negro eleitos melhores do mundo pela Fifa, a primeira negra brasileira em uma Olimpíada e ao primeiro negro na Fórmula 1.

Até 2020, apenas 25 brasileiros haviam conseguido chegar ao topo da montanha mais alta do mundo. Destes, somente cinco eram mulheres.

- Dei o primeiro passo rumo a um sonho muito maior. Quero ajudar trazer oportunidades para quem, assim como eu, enfrenta dificuldades sociais e precisa acreditar que querer é poder - afirmou a montanhista de 37 anos.

Aretha venceu a última etapa dos 8.848 metros até o cume do Everest na manhã do domingo, às 10h24, pelo horário nepalês (1h39 da madrugada de domingo no Brasil). Após chegar ao ponto mais alto do planeta, ela retornou ao campo base, onde precisou esperar por quatro dias até o tempo abrir a fim de seguir para Kathmandu, onde chegou neste sábado.

A montanhista tinha embarque para o Brasil previsto para esta terça-feira, com chegada na quarta, mas os voos estão cancelados pelo menos até sábado, quando deverão ser remarcados.

A conquista da montanhista é carregada de significados, especialmente em um momento de pandemia. Além de ser a primeira negra latina no topo do mundo, é a prova de que vale a pena acreditar em sonhos e lutar para torná-los realidade.

- Algumas pessoas até não acreditavam, mas eu nunca achei que seria impossível - resumiu Aretha.

Nascida e criada na periferia de Campinas, Aretha reunia os requisitos necessários para escalar a montanha mais alta do mundo: experiência de uma década no montanhismo, condicionamento físico, conhecimento de escalada em rocha e gelo, apoio logístico e vivência de superar desafios como o Aconcágua, na Argentina (cinco vezes), o ponto mais alto fora do Himalaia, e o Monte Kilimanjaro, maior montanha da África, além Elbrus (Rússia), Monte Roraima (Venezuela), Pequeno Alpamayo (Bolívia), Vulcões (Equador), entre outros. Faltavam os recursos financeiros para viabilizar o projeto, orçado em quase 400 mil reais.

A primeira saída encontrada por Aretha foi trabalhar com reciclagem, uma volta a atividade praticada na infância e adolescência. Sua atuação envolveu a família e foi tão intensa que, no final, quase 40% do valor da expedição veio da coleta seletiva.

Nesse processo, iniciado em março de 2020, ela se consolidou como ativista ambiental e empreendedora social. Até agora, juntou mais de 130 toneladas de resíduos destinados à reciclagem, reuniu cerca de 600 brinquedos usados e higienizados distribuídos no Natal e mais de 1200 livros disponíveis para uma biblioteca comunitária. Ela também implantou a primeira parede de escalada comunitária em Campinas.

A atuação multifacetada de Aretha teve força não apenas para envolver a comunidade, mas também para aglutinar empresas, que se juntaram a expedição como patrocinadoras. São elas: Moove Brasil, Monte Bravo Investimentos, Agência 2defy, Brasil Spot, Horas a Fio Pelo Mundo, Dardak Jeans e North Face. A montanhista também conta com os seguintes apoiadores: Farmácia Saint Germain, Moda Pense Verde, Popais Nack, 365 Palestras, Grade 6 Expedições, Eg Idiomas Campinas, Soma Ação, Marmitas Doze, Jacky Lopes Personal, Renato Fioravante, Studio de Pilates Dani Sarmento, Amalia Novaes Nutri e Thiago Lacerda.

Aretha desembarcou em Kathmandu, no Nepal, dia 2 de abril. Após o período de quarentena em função da pandemia e subidas graduais entre o campo base, campo dois, três e quatro, a fase final, de ataque ao cume, precisou de 11 dias de espera.

- Mas tudo valeu a pena. A realização desse sonho foi uma experiência única. Sei que todo esse processo mudou a minha vida e também de muitas outras pessoas. Espero que tudo isso sirva para provar que é possível acreditar nos sonhos e fazer acontecer - completou a montanhista, que, apesar dos dez anos de experiência, somente teve despertado o desejo de escalar o Everest há pouco mais de dois anos.

Até dezembro de 2019, Aretha não tinha interesse de escalar o Monte Everest. Já tinha ido ao campo base de lá (mais de 5.000 m de altitude), em 2013, conhecendo a região e praticando montanhismo.

- Em dezembro do ano passado, vendo fotos do Carlos Santalena (sócio da Grade6) em expedições no Nepal, vi o Vale do Silêncio, que está 6.400 m de altitude, achei impressionante e me arrepiei. Achei lindo e naquele momento quis estar lá e aí surgiu a vontade de um dia ir - relembrou Aretha.

Aretha já praticou o esporte em sete países. Ela conheceu a modalidade na faculdade, aos 20 anos, quando um professor da PUC de Campinas, quis apresentar esportes outdoor para os alunos do curso de educação física.

- Ele nos levou até a Grade6, operadora de montanhismo. Lá entendemos mais como funciona o esporte. Fiquei extremamente apaixonada, pensando: 'como nunca tinha ouvido falar neste tipo de esporte antes? - contou.

Entusiasmada, Aretha tentou se aproximar da empresa, fazendo cursos de escalada em rocha. Trabalhou de modo eventual em eventos corporativos, para em 2011 ser efetivada. A empresa ia fazer a primeira expedição comercial ao Everest. Carlos Santalena e o Rodrigo Raineri, na ocasião sócios e guias da Grade6, levariam os clientes para a montanha e convidaram Aretha para fazer parte do quadro de funcionários.

- Daí em diante, comecei a praticar escalada, trekking e expedições. Em janeiro de 2012 fui pela primeira vez à alta montanha, no Aconcágua. Desde então, ao menos uma vez por ano realizo expedições no pico mais alto das Américas, na Argentina. Estive cinco vezes lá, quatro delas atingindo o cume de 6.962 metroa - finaliza.

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