Brasileirão começa com Flamengo vivendo fenômeno que já favoreceu campeão nos pontos corridos

Marcello Neves
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Rubro-Negro é o campeão brasileiro de 2019

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Rubro-Negro é o campeão brasileiro de 2019

O Campeonato Brasileiro está de volta, mas bem diferente do que estamos acostumados. Antes previsto para começar em maio, precisou ser adiado devido à pandemia da Covid-19 e tem abertura marcada para este sábado, quando Fortaleza e Athletico se enfrentam às 19h, no Castelão. Uma coisa, porém, não mudou: o favoritismo do atual campeão Flamengo, que está vivendo um fenômeno raro na era dos pontos corridos.

De 2003 para cá, somente quatro times campeões perderam no máximo um jogador titular para o ano seguinte — o São Paulo de 2008, o Cruzeiro de 2013, o Palmeiras de 2018 e o Flamengo de 2019. O levantamento engloba apenas vendas de jogadores, desconsiderando atletas que caíram de rendimento e perderam a titularidade.

O Flamengo, que perdeu apenas o zagueiro Pablo Marí para o Arsenal, se diferencia ainda no cenário por causa das peculiaridades deste Brasileirão. Enquanto as outras três equipes mantiveram seus destaques por cinco meses entre o término de um torneio e o início de outro, o rubro-negro teve que segurar seus titulares por oito meses.

— O futebol brasileiro se acostumou a ter campeões desmontados. O Flamengo, mesmo que tenha perdas, tem estabilidade econômica para buscar um padrão de jogador para repôr. Ele repõe com mais qualidade, rompe com uma tradição do futebol brasileiro e por isso permanece favorito ao título — opina o colunista do GLOBO, Carlos Eduardo Mansur.

O Cruzeiro de 2013 é o maior de que manter o time-base é meio caminho andado para o título no ano seguinte em pontos corridos. Os mineiros não venderam nenhum de seus titulares e faturaram o bicampeonato com rodadas de antecedência. Técnico daquela equipe, Marcelo Oliveira acredita que manter as principais peças foi fundamental.

— Os clubes que têm condições financeiras de manter o time vão levar vantagem com relação aos outros, principamente se encaixarem como o Flamengo de agora ou o Cruzeiro de 2013. Não tenho duvida de que o Cruzeiro conquistou o Brasileirão de 2014 porque manteve as peças. Isso traz um reflexo direto nos resultados. Quando você mantém um time, ele vai se entrosando e mantém a ideia do jogo. Isso vai acontecer com Flamengo, Palmeiras, Grêmio e mais tardar o Atlético-MG — declarou.

Após o bicampeonato, o Cruzeiro perdeu nomes como os meias Everton Ribeiro e Ricardo Goulart e o volante Lucas Silva. O resultado? Terminou na 8ª posição na edição seguinte. Oliveira diz que não foi por acaso.

— No ano seguinte, [o Cruzeiro] perdeu várias peças e demandou um tempo maior para se reencaixar. Um dos grandes problemas do futebol brasileiro é a saída dos jogadores para fora [do país]. Interessa ao clube para fazer dinheiro, ao jogador que vai ganhar mais, aos empresários... Acaba prejudicando ao técnico e ao torcedor, que não consegue mais escalar o time de um ano para o outro de cabeça — completou Marcelo Oliveira.

O Cruzeiro é exemplo de sucesso, mas não significa que o Flamengo já pode comemorar o bi. Os exemplos do São Paulo de 2008 e do Palmeiras de 2018 mostram que também é importante não deixar os titulares caírem de rendimento ou a equipe não ficar defasada no ponto de vista tático.

Graças ao quesito técnico, o São Paulo se tornou a equipe mais vencedora do país na década passada liderada por um tricampeonato brasileiro entre 2006 e 2008. Curiosamente, o técnico Muricy Ramalho soube reinventar a equipe após várias perdas nos dois anos anteriores, mas o sonho do tetra ficou pelo caminho quando a base não conseguiu manter o rendimento.

— Após a conquista de um título de expressão, o elenco se valoriza muito e naturalmente surgem outras equipes interessadas em alguns atletas. A manutenção do mesmo grupo ou pelo menos de uma base facilita muito. Os jogadores já conhecem a filosofia de jogo, os companheiros de time e a maneira que o treinador gosta de jogar. Isso é fundamental para o time seguir ganhando e repetir o sucesso do ano anterior— explica Muricy, hoje comentarista do Esporte da Globo.

Já o Palmeiras em 2018 viveu um problema tático. Luiz Felipe Scolari, o Felipão, viu a sua ideia de jogo ser facilmente anulada pelos adversários mais técnicos e enfrentou a concorrência do Flamengo de Jorge Jesus, que deu uma aula neste quesito.

— O esgotamento de uma ideia de jogo com poucos recursos táticos e o surgimento de alguém que fizesse exatamente o oposto [foram os problemas]. O Palmeiras de Felipão, campeão em 2018, era um time que tinha defesa muito forte, um jogo direto eficiente e dependia muito da individualidade de Dudu. A curto prazo, funcionou. Com o tempo, foi ficando facilmente marcado e o campo pedia mais recursos. O trabalho do dia a dia não apresentou e o time sucumbiu. Enquanto isso, um Flamengo com jogadores melhores e uma ideia de jogo bem mais elaborada surgiu e encantou a todos com desempenho e resultado. A diferença era enorme — opina Gustavo Zupak, setorista do Palmeiras na Rádio CBN.

O levantamento mostra que 100% das equipes que perderam apenas um ou nenhum titular conseguiram uma vaga para a Copa Libertadores do ano seguinte. Porém, dificilmente a torcida rubro-negra aceitará menos que o título.