Brasil tem mais de 200 mortes de grávidas e puérperas; casos representam 77% dos óbitos em todo mundo

Yahoo Notícias
Morte materna é um indicador da qualidade de saúde oferecida num país (Foto: Agência Brasil)
Morte materna é um indicador da qualidade de saúde oferecida num país (Foto: Agência Brasil)

Com 29 semanas de gestação, a dentista Fernanda Torres recebeu o diagnóstico do novo coronavírus. Devido um agravamento de seu quadro pulmonar, ela teve que fazer um parto de urgência. Após 11 dias, no entanto, Nanda, como era chamada por sua família, veio a óbito. Dois dias depois, a recém nascida Maria Flor também morreu.

Role para baixo para continuar lendo
Anúncio

No site Inumeráveis, que traz depoimentos sobre as vítimas da doença, Fernanda é lembrada por “ser uma pessoa doce”, de um “lindo sorriso” e que “sonhava em ter uma menina”. Fernanda nasceu em Santa Catarina e faleceu em Alagoas, aos 37 anos, vítima da Covid-19.

Seu caso se soma ao de pelo menos menos outras 200 mulheres que morreram nos últimos meses durante a gestação ou no pós-parto, após diagnóstico de Covid-19.

Segundo o Sivep-Gripe (Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe), são ao menos 1.860 registros da doença notificados nesse grupo de mulheres no país até o dia 14 de julho.

No começo mês, um estudo analisou óbitos de gestantes e puérperas brasileiras por Covid-19. À época, das 160 mortes maternas associadas à Covid-19 registradas no mundo, 124 ocorreram no Brasil, ou cerca de 77% de todas as mortes.

Ou seja, morreram mais mulheres grávidas ou no pós-parto no Brasil do que em todos os outros países somados. A maior parte das mortes aconteceram durante o puerpério, período de até 42 dias depois do nascimento do bebê.

O levantamento foi feito por um grupo de obstetras e enfermeiras de 12 universidades e instituições públicas, entre elas, Fiocruz, USP, Unicamp e Unesp, que acompanha a mortalidade materna durante a pandemia, e foi publicado na revista médica International Journal of Gynecology and Obstetrics.

Leia também

Para se ter ideia, os Estados Unidos, que lideram os óbitos gerais pelo novo coronavírus, registrou 35 mortes de gestantes e puérperas até o último dia 21.

Segundo o estudo, 22,6% dessas mulheres que morreram no Brasil não tiveram acesso a um leito de UTI e 36% não chegaram a ser intubadas.

De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, esses dados preocupam os pesquisadores, porque a morte materna é um indicador da qualidade de saúde oferecida em um país.

Além disso, os especialistas estimam um salto sem precedentes na taxa de mortalidade materna brasileira neste ano, embora o número de mortes durante a pandemia ainda seja parcial.

O grupo de pesquisa também divulgou uma análise em que faz um recorte racial dessas mortes. Em 69 casos avaliados, o risco de morte das mulheres negras (17%) foi quase duas vezes maior do que o das brancas (8,9%).

Leia também