Há 36 anos, uma derrota fez o Brasil descobrir o futebol na Olimpíada

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Seleção francesa posa com as medalhas de ouro após bater o Brasil na final em 1984 GEORGES BENDRIHEM/AFP/GettyImages)
Seleção francesa posa com as medalhas de ouro após bater o Brasil na final em 1984 GEORGES BENDRIHEM/AFP/GettyImages)

O 11 de agosto de 1984 começou com a possibilidade real de o Brasil conquistar duas medalhas de ouro na Olimpíada de Los Angeles. O país jamais havia obtido uma em modalidades coletivas. Não deu certo. A noite com duas pratas, mas também com a mudança de como o torcedor enxergava o futebol no torneio. 

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A partir daquele momento, o ouro no futebol masculino se tornou-se, por 32 anos, o título que faltava para a seleção. A vitória chegou apenas no Rio de Janeiro, em 2016.

Em 1984 pela primeira vez o Brasil chegou à final. Enfrentou a França no Rose Bowl, mesmo estádio em que dez anos mais tarde Roberto Baggio erraria o pênalti e faria da camisa verde-amarela tetracampeã mundial.

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“Nosso jogo nem era o mais importante para a TV brasileira. Foi mostrado ao vivo o vôlei. A gente, só em flashes de vez em quando”, se recorda Jair Picerni, técnico da equipe olímpica naquele ano.

Isso aconteceu porque a decisão foi marcada para o mesmo horário da disputa da medalha de ouro do vôlei masculino, entre Brasil e Estados Unidos. E se tratava daquela que era até então a geração mais importante da história do esporte país, a mesma que havia sido vice na Copa do Mundo em 1982. 

“Naquela Olimpíada o Brasil já tinha derrotado os Estados Unidos, então todo mundo achava que aquele time seria ouro. Então a TV mostrou ao vivo o jogo deles, que eram nossos amigos”, concorda Milton Cruz, que era atacante daquela seleção de Picerni.

O esperado não aconteceu porque os americanos atropelaram a equipe dirigida por Bebeto de Freitas. Ganharam com facilidade por 3 sets a 0. O público no Brasil viu o segundo tempo do futebol ao vivo, quase na íntegra. Mas também não deu certo e a França venceu por 2 a 0.

“O time deles era mais forte que o nosso. Se você olhar, era a base da seleção que havia ganhado a Eurocopa no mesmo ano. Só não tinha astros como o Platini, por exemplo. Mas alguns nomes que disputaram os dois”, analisa o meia Gilmar Popoca, artilheiro brasileiro (quatro gols) e eleito melhor jogador da Olimpíada.

Não é verdade. Da equipe titular francesa no Rose Bowl, ninguém atuou na final da Eurocopa de 1984, diante da Espanha. O único nome em comum era o técnico Henri Michel.

Se a França tinha elenco alternativo, o mesmo poderia ser dito sobre o Brasil. Eram períodos confusos para a CBF. A vaga de treinador da seleção principal estava vago desde a saída de Edu Coimbra, demitido em junho depois de apenas três amistosos. Picerni fez um catado de jogadores jovens. Apenas três disputariam Copas do Mundo. Mauro Galvão estaria presente em 1990. Gilmar seria o terceiro goleiro no torneio de 1994. Dunga jogaria os Mundiais de 1990, 1994 e 1998.

“Ninguém deu muita atenção para a gente quando viajamos. Fomos para a cerimônia de abertura e ninguém sabia quem éramos, para dizer a verdade. Era legal circular pela Vila Olímpica e encontrar todos aqueles atletas famosos. Só que o time começou a ganhar, ganhar e ganhar. Foi aí que perceberam que poderíamos ser campeões”, completa Gilmar, um dos principais nomes da seleção campeã mundial sub-20 do ano anterior, no México.

Se a valorização excessiva da França não correspondia à verdade, a constatação de que o Brasil começou a passar por todos os adversários, sim. Na primeira fase foram vitórias sobre Arábia Saudita, Alemanha Ocidental e Marrocos. Nas quartas de final, a seleção sofreu para eliminou o Canadá nos pênaltis. Na semifinal, a vítima foi a favorita Itália, considerada a melhor equipe da competição. Foi aí que apareceu a França.

“O jogo estava equilibrado, mas tomamos um gol no início do segundo tempo. Pedi para continuarmos do mesmo jeito em campo, sem desespero. Só que eles acertaram outro contra-ataque e mataram o jogo”, se recorda Picerni.

Os gols da França foram marcados por Brissor aos 9 e Juerev aos 17 minutos do segundo tempo.

A medalha de prata com o tempo deixou de ser decepção e virou motivo de orgulho. Milton Cruz se lembra de ter circulado com ela pendurada no peito pela Vila Olímpica. Bem diferente do que aconteceu com o Brasil em outros torneios. Em 1996, após ficar com o bronze, a equipe não foi sequer para a cerimônia de premiação. 

“Olimpíada é diferente. Ganhar medalha já é um motivo enorme de orgulho. Eu tenho amigos que até hoje, quando vão na minha casa, pedem para vê-la”, diz o jogador que depois passou vários anos como auxiliar técnico no São Paulo.

O legado foi além da medalha. A derrota fez os brasileiros perceberem que estava ali uma competição que o país não havia conquistado e era preciso preencher aquela lacuna. Algo que ficou mais forte ainda com outra prata, quatro anos depois, em Seul, contra a União Soviética. 

“É a competição esportiva mais importante do mundo. Como não vai ter importância. Até hoje é um orgulho ter conquistado uma medalha para o Brasil. E acho que virá outra neste ano”, acredita Gilmar. 

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