Retrospectiva Bolsonaro: você lembra o que o presidente fez em janeiro?

AP Photo/Andre Penner
AP Photo/Andre Penner

Por Anny Malagolini

A aposta na radicalização ideológica para se eleger e a onda conservadora empurraram Jair Bolsonaro ao Planalto. Eleito com mais de 57 milhões de votos, Bolsonaro chegou em janeiro de 2019 como um pote fechado e muitos palpites de otimismo e temor pelo que viria pela frente. Direita, volver! Era o primeiro mês do ex-capitão do exército como Presidente da República do Brasil.

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Em sua estreia no terceiro andar do Palácio do Planalto, o clima de campanha o acompanhou até mesmo na posse, com um discurso inflamado e radical ao dizer que a bandeira brasileira “só ficará vermelha se nosso sangue for necessário para mantê-la verde e amarela”, embora o país nunca tivesse chegado perto de uma ditadura comunista.

Ali, Bolsonaro manteve o clima de polarização que marcou a campanha eleitoral, e falou que seu mandato combateria a corrupção, a criminalidade e a submissão ideológica. O discurso funcionou como uma espécie de resumo das publicações do seu Twitter.

(EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
(EVARISTO SA/AFP via Getty Images)

Quem chamou mais a atenção na cerimônia de posse no Planalto foi a primeira-dama Michele Bolsonaro, que quebrou o protocolo e discursou antes do marido. Ela se manifestou em libras, o que foi inédito, e também uma tentativa de mostrar que o governo era inclusivo. As palavras eram para sinalizar o início de uma nova era, mas se tornaram o primeiro paradoxo do novo governo.

É que o então ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, decretou a extinção da secretaria responsável pela diversidade, inclusão social e educação de surdos. A ideia foi de eliminar temáticas de direitos humanos, étnico-raciais e a própria palavra diversidade, arduamente combatida pelo grupo no poder.

Reforçando com veemência qualquer pensamento ou ato que possa ser remotamente identificado com a esquerda – e é essa ira que fez o capitão ser amado por uma parcela da população -, a ideologia virou a principal credencial no Itamaraty.

Assim, no dia 2 de janeiro, Bolsonaro criticou a atuação das ONGs na questão da demarcação de territórios indígenas no Brasil e publicou a Medida Provisória (MP) 870/2019, onde as organizações passariam a ser monitoradas pela Secretaria de Governo da Presidência, comandada pelo general Carlos Alberto dos Santos Cruz.

No mesmo dia, a cerimônia de posse dos ministros teve frases marcadas pelo radicalismo e causaram polêmica. Paulo Guedes na Economia proclamou a Reforma da Previdência como o eixo central do governo. Enquanto o novo chanceler Ernesto Araújo defendeu o fim do “globalismo” e achou adequado fazer citações bíblicas. 

Ueslei Marcelino/Reuters
Ueslei Marcelino/Reuters

O extremismo se revelava com defensores de armas, antifeministas e adeptos a teorias da conspiração. Damares Alves da pasta de Direitos Humano fez um trocadilho: “o Estado é laico, mas esta ministra é terrivelmente cristã”, acrescentando que na nova gestão, “menina será princesa e menino será príncipe”.

A fervorosa ministra evangélica que encontrou “Jesus" no topo de uma goiabeira, de acordo com sua própria história, protagonizou um vídeo dizendo “Atenção, atenção: é uma nova era no Brasil! Menino veste azul, e menina veste rosa!”.

Moonwalk tupiniquim 

Nos primeiros dias, o governo refletia a falta de planejamento do primeiro escalão, combinada a personalidade pouco assertiva do presidente. Jair Bolsonaro voltou atrás em, pelo menos, nove decisões anunciadas por seu governo. Era só o começo.

Isso de “voltar atrás” se tornou uma ação recorrente no mandato. Antes de assumir o governo, o presidente eleito resolveu falar sobre os “Mais Médicos”, programa criado no governo Dilma Roussef, e chegou a comparar os profissionais cubanos que vinham atuar no País a escravos.

Resultado: o país que já sofre com o setor, teve que enfrentar a perda de 8 mil profissionais que atendiam, principalmente, cidades do interior do Brasil, onde os próprios médicos brasileiros não querem trabalhar.

O presidente precisou levantar bandeira branca e o Ministério da Saúde, sob comando de Luiz Henrique Mandetta, correu atrás dos profissionais do programa que ainda não haviam voltado para o país caribenho.

Cinco dias após suspender a política de Reforma Agrária no país, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) voltou atrás e cancelou a paralisação que prejudicava a criação de assentamentos rurais e a titulação de territórios quilombolas em todo o país.

Bolsonaro disse também que aceitaria discutir instalação de base militar americana no Brasil, mas seus ministros militares do governo descartaram a hipótese – e mostraram que são a voz mais moderadas do governo. 

O Ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni é personagem relevante de outras mudanças de discurso. Bolsonaro anunciou o aumento do IOF, mas Lorenzoni disse que presidente “se equivocou”, assim como desmentiu o anúncio de redução de alíquota do IR feito pelo mandatário.

Em outro momento, foi o próprio Onyx Lorenzoni que precisou recuar. Ele havia anunciado uma "despetização" do governo por meio da exoneração de funcionários em cargos comissionados, mas a decisão durou pouco e o governo precisou readmitir os trabalhadores para não paralisar alguns órgãos.

Com quantas laranjas se faz um escândalo

Ao completar 20 dias de governo, Bolsonaro embarcou rumo a Davos, na Suíça, para a reunião do Fórum Econômico Mundial. Aos olhos do mundo, a promessa era vender um “novo Brasil”, mas no tapete de boas-vindas surgiu um discurso curto e sem profundidade ao falar de uma América Latina livre dos esquerdistas. A participação fez o Brasil parecer menor do que é.\

Alan Santos/PR
Alan Santos/PR

Enquanto estava em sua primeira viagem internacional, o clã Bolsonaro protagonizou a primeira polêmica do governo. Eram as acusações que recaiam no primogênito Flavio Bolsonaro no caso da Coaf, sobre as movimentações financeiras suspeitas na conta de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flavio Bolsonaro.

Os desdobramentos do relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras apontaram que o senador eleito pelo PSL do Rio de Janeiro recebeu 48 depósitos suspeitos em 1 mês, no total de R$ 96 mil, e deixou o presidente em situação desconfortável.

Para completar, o filho ‘menos’ radical do presidente, chamado também de número 1, também chamou atenção. O senador empregava em seu gabinete a mãe e a esposa de um fugitivo acusado de liderar uma milícia. As duas mulheres são o elo entre o senador eleito e o grupo miliciano Escritório do Crime, um dos mais poderosos do Rio. A dupla foi lotada no gabinete do então deputado estadual Flávio na Assembleia Legislativa do Rio, mas o filho do presidente diz não ter sido responsável pelas nomeações.

“Se por acaso Flávio errou e isso ficar provado, eu lamento como pai. Se Flávio errou, ele terá de pagar preço por essas ações que não podemos aceitar”, disse o presidente durante a agenda anual da elite global.

Enquanto estava em viagem, o ex-deputado federal Jean Wyllys desistiu do novo mandato com medo das ameaças ele e sua família estava sofrendo. Os dois políticos eram rivais na Câmara, e coincidência ou não, horas depois Bolsonaro tuitou “Grande dia”.

Maior desastre ambiental do país

Jair Bolsonaro enfrentou o desastre de Brumadinho, um dos episódios de maior impacto neste seu início de mandato, e que põe em xeque seu discurso público de desregulamentação do setor privado e restrição das ações de fiscalização ambiental adotado até então.

Depois de sobrevoar a área atingida pela lama com rejeitos de mineração, ele recorreu a rede social, mas sem mencionar nenhuma ação que pretende implementar. “Difícil ficar diante de todo esse cenário e não se emocionar. Faremos o que estiver ao nosso alcance para atender as vítimas, minimizar danos, apurar os fatos, cobrar justiça e prevenir novas tragédias como a de Mariana e Brumadinho, para o bem dos brasileiros e do meio ambiente”, escreveu.

Reprodução/Instagram
Reprodução/Instagram

Três dias depois, o presidente passou por uma cirurgia de 9 horas para retirar a bolsa de colostomia. Este foi o terceiro procedimento desde o ataque em no dia 6 de setembro, em Juiz de Fora (MG), quando Adélio Bispo de Oliveira lhe feriu com uma faca, que atingiu vários órgãos. Ele precisou ficar internado por 17 dias e chegou a despachar do próprio hospital.

Um governo em caracteres

Ah, o Twitter. O lugar preferido de Bolsonaro é a linha direta na mente do homem mais polarizado do país, e a rede social que ele escolheu para ser seu principal canal de comunicação, assim como faz o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. 

O palanque virtual foi também o cenário perfeito para alguns dos vídeos mais famosos do ano. Primeiro foi o registro que mostra Flávio Bolsonaro chorando e enxugando as lágrimas com uma bandeira do Brasil. As imagens são de 2018, mas só viralizaram no início do mandato do pai. Outra imagem que rendeu é o do ex-assessor Fabrício Queiroz, dançando no hospital Albert Einsten, em meio a gargalhadas, enquanto toma soro e rodopia. As cenas foram um prato cheio em meio aos escândalos que ele e o ex-chefe atravessavam.

O tuiteiro Presidente da República fez uma série de promessas durante sua longa campanha para ser o 38º presidente do Brasil. Muitos delas chamaram a atenção. Para a alegria de uns, e desespero de outros, foi assinado o decreto que facilita a posse de armamento no país – apesar das pesquisas de opinião que apontam rejeição majoritária à medida –, se tornando uma das primeiras ações para cumprir suas juras aos eleitores.

O primeiro mês chegou ao fim com uma sucessão de episódios que animaram a militância e fizeram os opositores gargalharem. A bolsa de valores bateu recordes e os setores econômicos renovavam o otimismo, mas o governo do capitão reformado do Exército Jair Messias Bolsonaro ainda tinha muitas promessas de campanha, o que continuava dividindo a população e ainda ninguém sabia onde isso vai parar. Tá ok?

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