"Bolsonaro quer usar pandemia para impor saída autoritária", diz líder de ato

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Danilo Pássaro é líder do movimento Somos Democracia. Foto: Arquivo Pessoal
Danilo Pássaro é líder do movimento Somos Democracia. Foto: Arquivo Pessoal

Pessoas que fazem parte de torcidas organizadas de vários times se reuniram de maneira espontânea no último domingo (31) na avenida Paulista para protestar a favor da democracia e contra o autoritarismo. Durante a manifestação, as pessoas presentes criticaram Jair Bolsonaro (sem partido) e foram ameaçadas por apoiadores do presidente.

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Além disso, os manifestantes presentes no local precisaram lidar com a violência policial e a presença invisível do coronavírus. Mesmo em meio a tantos perigos, o protesto ganhou coro nas redes sociais e passou a contar com vários apoiadores. Com a repercussão positiva, os organizadores já estão organizando um novo ato para o próximo domingo (7).

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O historiador Danilo Pássaro, 27 anos, líder do movimento Somos Democracia e um dos organizadores do ato, afirmou que a manifestação era necessária mesmo durante um momento de isolamento social. “A gente corre o risco de a pandemia ser usada pelo governo para que ele imponha a sua saída autoritária”, diz em entrevista ao Yahoo.

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“A gente gostaria de ficar em casa cuidando da nossa saúde e dos nossos familiares, mas é importante analisar o momento histórico. A maior parte das nossas pessoas, das pessoas que fazem parte da torcida, já não estão ficando em casa. São pessoas que precisam trabalhar, pegar ônibus lotado todos os dias. Então, isso é uma contradição”, afirma.

Leia a entrevista completa:

Yahoo: Como, quando e por qual motivo surgiu a ideia de unir as torcidas no protesto de domingo?

Danilo Pássaro: A primeira manifestação, que foi no dia 9 de maio, foi resultado de um acúmulo de ideias. A gente faz algumas ações solidárias e, conversando, eu tive a oportunidade de colocar minha posição sobre a situação política do nosso País. A gente tem grupos no WhatsApp e sempre chegava vídeos das manifestações exaltando a tortura, a ditadura, que ridicularizavam as mortes de pessoas que morreram por conta do coronavírus… muitas dessas pessoas que morreram, inclusive, estavam perto de nós. Fazer uma manifestação não é uma decisão fácil. Mas a gente corre o risco de a pandemia ser usada pelo governo para que ele imponha a sua saída autoritária.

A gente deve tomar os cuidados necessários, mas a gente precisa assumir alguns riscos para defender a nossa democracia. Do mesmo jeito que o coronavírus é perigoso, um governo autoritário também é. A gente precisou assumir esse risco com o objetivo de defender a democracia. Então, a gente fez a primeira manifestação sem esperar nada. A gente não estava preocupado se isso ia ter repercussão. A gente fez a primeira manifestação disposto a defender a democracia.

O que está colocado na rua é uma disputa de narrativas, mas só eles [bolsonaristas] estavam lá. Então, achamos importante disputar essa narrativa na rua. A primeira manifestação repercutiu muito bem e muitas pessoas começaram a demonstrar interesse e apoio. Grupos de outras torcidas começaram a falar: “Eu também quero ir”. Então, nós falamos: “Vamos lá! A gente não ia ficar fazendo entrevista para saber de que time a pessoa era, se era homem ou mulher… se a pessoa quer defender a democracia, pode ir”. Foi assim que a gente fez o ato de domingo. Foi algo que ocorreu de forma autônoma. 

Yahoo: A primeira manifestação foi bem menor, né? Como foi feito esse contato com as outras torcidas? Na primeira, era só o pessoal da torcida do Corinthians, né?

Danilo: Na primeira, eram só 70 pessoas da torcida do Corinthians. Aí eu e outras pessoas postamos no Facebook que a gente iria fazer outra manifestação pela democracia. Aí outras pessoas foram comentando que queria ir também e foram chegando lá na hora. Não teve nada que a gente sentou e pensou em como fazer essa união.

Yahoo: Uma das questões mais abordadas nas notícias sobre o ato de domingo foi o fato de as torcidas se unirem. Palmeiras e Corinthians juntos. A gente sabe que existe uma rivalidade histórica, mas que, nesse momento, as torcidas tinham um objetivo comum. Como você vê essa união?

Danilo: Eu vejo isso como algo muito importante. O futebol é o principal esporte do nosso País, o gosto pelo futebol é algo intrínseco ao brasileiro, quando o moleque é pequeno, a primeira coisa que o pai faz é colocar uma bola no pé dele. Então, o futebol é como outras diversas instituições que se organizam na sociedade. 

A partir do momento que, nessas instituições, você começa a discutir política, o seu papel e responsabilidade histórica, você começa a fortalecer o nosso País. O problema é que, no País, muita gente trata política como futebol, como torcida. E, agora, está sendo mostrado que isso tem mudado. As torcidas estão mostrando essa disposição de defender uma pauta comum.

Yahoo: A gente sempre ouvia muito que futebol, política e religião não se discute. Mas a gente está vendo, com tudo isso que está acontecendo no País, que essas questões se discutem, sim. Como você analisa toda essa discussão?

Danilo: Eu olho isso com bastante entusiasmo. Nas nossas manifestações, a gente viu que 80% ou mais das pessoas que estavam lá nunca tinha participado de uma manifestação na vida. Eu acho que o que amadurece e fortalece o estado democrático de direito é a população discutindo política, ainda que seja de forma superficial ainda. A gente ainda está sendo prejudicado pelas fake news, mas ainda assim essa é uma oportunidade de argumentar sobre qual é a realidade dos fatos com bases teóricas. Mas, por outro lado, a gente está vendo um momento de ruptura. O governo do presidente Jair Bolsonaro está, desde que entrou no poder, testando os limites constitucionais.

Yahoo: A gente viu que vocês precisaram se preparar para três perigos: o coronavírus em si, a violência policial e a provocação dos manifestantes do outro lado. Como foi a orientação de vocês nesse sentido?

Danilo: Em primeiro lugar, a gente, por ser torcida, está acostumado com a criminalização e com a violência policial. Ao contrário de muitas pessoas que, quando vão uma primeira vez em uma manifestação e não sabem como lidar com a violência policial, a gente já sabia lidar com esse tipo de ânimo. Sobre as pessoas da manifestação contrária, a gente já tinha conversado antes que o “lado de lá” é aquele “cão que ladra, mas não morde”. Eles são iguais aos cachorros que o carro passa e aí ele vai atrás latindo, mas, se o carro parar, ele não sabe o que fazer. Eles só entendem de grosseria e, disso, a gente não tem medo.

Com relação ao corona, essa era a maior preocupação mesmo. Mas a gente falou que era importante cada um cuidar de si e do próximo. Mas isso também faz parte de uma formação das pessoas, né? A gente recomendou que todos fossem de máscara, que usassem álcool em gel… a gente também pediu para que quem tivesse alguém do grupo de risco em casa ou que fosse do grupo de risco que redobrasse o cuidado ou que evitasse ir. A gente tomou muito cuidado com essas coisas.

Yahoo: Muitas pessoas até concordavam com a pauta de vocês, mas foram contra isso ser feito nesse momento de coronavírus. Por qual motivo você acha que, nesse caso, é permitido “quebrar” a quarentena?

Danilo: Eu acho que é necessário. Infelizmente. A gente gostaria de ficar em casa cuidando da nossa saúde e dos nossos familiares, mas é importante analisar o momento histórico. A maior parte das nossas pessoas, das pessoas que fazem parte da torcida, já não estão ficando em casa. São pessoas que precisam trabalhar, pegar ônibus lotado todos os dias.

Então, isso é uma contradição. O governo não garantiu nenhuma retomada da economia e, no mundo todo, você está vendo que os governos estão usando o Estado como um grande investimento, buscando a distribuição de renda. Mas o Bolsonaro quer usar os resultados negativos da pandemia para impor a sua saída autoritária. A gente vai sair disso e as pessoas vão estar desempregadas. Vai ser o caos social. Se o governo não faz nada, a partir desse caos social, ele trabalha com sua saída autoritária.

Yahoo: As manifestações aconteceram em um contexto mundial também. Nos Estados Unidos, a gente vê que a população está protestando contra o racismo. Aqui, a gente vê essa manifestação pela democracia. Como você vê o contexto da nossa sociedade nesse sentido?

Danilo: Essa questão do racismo é algo que está posto nos Estados Unidos e é uma questão estrutural e sintomática daquele país, mas vem de um estopim que foi a morte do George Floyd. Aqui no Brasil, a gente vê que aqueles que mais estão sofrendo com essa crise são as pessoas pobres e de periferia, que, em sua maioria, são pessoas negras. Dentro dessa narrativa, a gente precisa colocar para a população que a pandemia está mostrando que a economia não existe sem o povo.

O povo tem o poder para parar a produção e o governo tem que servir para servir a população brasileira. A gente tem que colocar a população para discutir que os economistas liberais não têm dinheiro para o povo, mas têm para os empresários. São mecanismos que a gente precisa colocar em pauta no debate político.

Yahoo: Eu notei muitas pessoas comparando a manifestação de vocês com as de 2013. A gente viu que, as manifestações, que eram válidas e que eram contra o aumento da tarifa do transporte, se tornaram algo muito mais complexo e que acabou elegendo o presidente Bolsonaro. Como fazer para essas manifestações não se tornarem uma nova jornada de junho?

Danilo: Eu cheguei a pensar nisso e eu ouvi essa questão de algumas pessoas. Mas eu posso afirmar que não seremos um novo 2013. O MPL (Movimento Passe Livre) era muito sectário. Eles, ao invés de abraçar os movimentos sociais, políticos e partidários, eles diziam: “Não. Nós somos anarquistas, não conversamos com partidos e com políticos”. E era uma molecada que não tinha bagagem política para direcionar o movimento de massa.

As pessoas discutiram política de uma forma superficial. Tanto que teve gente que foi para direita com esse discurso de contra a corrupção, mas sem discussão de o motivo pelo qual existe a corrupção. O pessoal que foi para a esquerda ficou mais com lutas contra as opressões, que são fundamentais, mas nós esquecemos de discutir direitos trabalhistas e a questão da economia.

Você não pode achar que vai achar uma organização perfeita. O que constitui a democracia é a disputa. Se você tiver a bagagem, você vai conquistar o espaço de uma forma que ela vai seguir a diretriz correta. Eu assumo a minha culpa por 2013 também porque eu fiz parte disso também, mas eu era jovem. Quando a gente é jovem, a gente tende a ir para a ala mais radical. Mas, com formação, a gente vai amadurecendo esse debate.

Yahoo: E qual sua expectativa para as próximas manifestações? Muita gente já aderiu colocando fotos nas redes sociais. A próxima tende a ser maior. Qual sua expectativa em relação a isso?

Danilo: Eu tenho certeza que vai crescer em todos os Estados. Mas, em São Paulo, a gente vai ter pulso firme. A gente não vai aceitar quem atravessar as propostas do que está sendo colocado para essa manifestação. Estamos em uma guerra de narrativas e o momento histórico não nos permite errar. Quem quiser se emocionar, sentir a adrenalina e atravessar toda uma organização para defender a democracia, não vai ter espaço. A democracia também é construída com o coletivo e o coletivo decidiu que a manifestação deve ser pacífica. 

Não vai ser uma pessoa que sentiu vontade de tacar uma pedra que vai atrapalhar isso. A pessoa vai ter que se controlar. Vai ter criança, pessoas que não estão preparadas para o embate. Se a pessoa quiser colocar essas pessoas em risco, melhor ficar em casa e falar que a manifestação é pelega nas redes sociais. 

Yahoo: A gente vê que, quando a manifestação é pacífica, as pessoas dizem que ela é pelega. Também vemos que, quando as pessoas fazem como nos Estados Unidos, as pessoas dizem que elas estão praticando vandalismo. Como você vê esses dois tipos de manifestações e por qual motivo vocês decidiram pela manifestação pacífica?

Danilo: Eu já sentei para conversar com pessoas de coletivos anarquistas, que geralmente são quem optam por essa tática. Mas, no momento, é muito claro que o governo tem o monopólio da violência. A gente quer a maioria do povo do nosso lado. Então, a gente precisa ganhar a narrativa para ganhar mentes e corações dessa maioria. Por isso, a gente deve até ficar de olho nos infiltrados. Se um infiltrado resolve colocar fogo em alguma coisa, por exemplo, pode ser a desculpa para o governo impor a sua saída autoritária. A gente não tem tempo para errar. Isso tem que ficar muito claro para todo mundo. A gente não pode cair nessa violência. Se não, a gente já perdeu. Não tem jeito.

Yahoo: Depois da manifestação, algumas pessoas criticaram o movimento e até passaram a surgir algumas notícias falsas a respeito das manifestações. Como controlar isso?

Danilo: Eu faço um apelo aos jornalistas. Vocês são parte do grupo que mais está sendo atacado. A gente percebe que um dos pontos para o autoritarismo é romper com os limites e atacar a liberdade de imprensa. Sem o jornalista, a gente não vai arrumar nada. Isso também requer uma articulação de todas as forças democráticas. Os jornalistas são as pessoas que vão ajudar a dar voz para a gente, para que a gente possa ter a capacidade de fazer a nossa narrativa chegar à população. Vocês são muito importantes para que a gente não caia em notícias falsas.

Yahoo: Vi também que você sofreu alguns ataques pessoais, inclusive, da família do presidente. Como você lida com isso? Está com medo?

Danilo: Eu sou da Brasilândia e nasci nos anos 90. Eu era criança quando o bairro tinha o maior número de assassinatos de São Paulo. Eu saía para a escola e via corpos largados na minha rua. A minha forma de criação foi com muita violência. Mas, meus pais me deram a possibilidade de estudar e ser melhor. A torcida organizada também me ajudou nisso. Então, se tem uma coisa que eu não tenho medo é de cara feia. Não tenho medo, não. Como disse [Carlos] Marighella: “Eu não tenho tempo para ter medo”.

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